Ponto de Vista

Um espaço plural para debates e análises de temas que transformam a sociedade com a sua participação, leitor do Paranaíba Mais!

Setembro Amarelo: a cor de um pedido de ajuda

No Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, talvez seja um bom momento para perguntar: quantas pessoas ao nosso redor estão precisando de ajuda e nós não percebemos?

Paulo Franco , em Uberlândia

Google News

 

Há histórias que atravessam o tempo porque carregam uma mensagem maior do que a própria tragédia que lhes deu origem.

A história de Mike Emme é uma delas.

Em 1994, nos Estados Unidos, um jovem de apenas 17 anos chamado Mike Emme perdeu a vida por suicídio. Mike era apaixonado por automóveis e havia restaurado um Mustang 1968, que pintou de amarelo.

O carro tornou-se uma de suas marcas.

Mas ninguém poderia imaginar que, anos depois, aquela cor ganharia um significado muito maior.

No funeral de Mike, familiares e amigos prepararam cartões presos a fitas amarelas. Neles havia uma mensagem simples, mas poderosa:

“Se você precisar, peça ajuda.”

Talvez seja justamente essa simplicidade que torne a história tão comovente.

Não havia uma grande teoria.

Não havia uma fórmula.

Havia apenas um pedido.

Peça ajuda.

A partir daquele gesto, a fita amarela passou a representar uma causa que ultrapassaria fronteiras. No Brasil, a campanha Setembro Amarelo tornou-se uma importante iniciativa de conscientização sobre a prevenção do suicídio e de valorização da vida.

E hoje, 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, talvez seja um bom momento para perguntar: quantas pessoas ao nosso redor estão precisando de ajuda e nós não percebemos?

 

Às vezes, o sofrimento não faz barulho

 

Existe uma tendência humana de imaginar que uma pessoa em grande sofrimento necessariamente demonstrará aquilo que está sentindo.

Nem sempre.

Algumas pessoas choram.

Outras se isolam.

Algumas mudam radicalmente seu comportamento.

Outras continuam sorrindo, trabalhando, conversando e cumprindo suas obrigações enquanto enfrentam uma batalha silenciosa.

Por isso, prevenção também significa aprender a olhar.

Não olhar apenas para aquilo que é evidente, mas perceber mudanças, ouvir com atenção e, principalmente, não tratar o sofrimento emocional como frescura, fraqueza ou falta de fé.

Uma frase aparentemente simples — “como você está?” — pode abrir uma porta.

Mas existe uma diferença importante entre perguntar e realmente escutar.

Perguntar esperando uma resposta rápida é fácil.

Escutar exige tempo.

 

Não precisamos ter todas as respostas

 

Quando alguém está sofrendo, muitas vezes queremos imediatamente encontrar uma solução.

Dizemos:

“Isso vai passar.”

“Pense positivo.”

“Você precisa ser forte.”

“Há pessoas em situação pior.”

Embora possam ser frases ditas com boa intenção, elas nem sempre ajudam.

Quem sofre pode precisar, antes de qualquer coisa, sentir que não está sozinho.

Não precisamos ser psicólogos para oferecer atenção.

Não precisamos ter uma resposta para tudo.

Podemos simplesmente dizer:

“Estou aqui.”

E, quando houver sinais de risco ou sofrimento intenso, podemos incentivar a busca de ajuda profissional e acionar os serviços adequados.

Prevenção não é responsabilidade de uma única profissão.

É uma responsabilidade humana e coletiva.

 

A lição de uma fita amarela

 

O que mais me impressiona na história de Mike Emme é que uma tragédia não terminou apenas em tristeza.

A família transformou sua dor em uma mensagem.

Aquela fita amarela passou a dizer algo que todos nós deveríamos aprender:

Você não precisa enfrentar tudo sozinho.

Talvez esse seja um dos maiores problemas do nosso tempo.

Vivemos conectados a milhares de pessoas pelas redes sociais, mas muitas vezes profundamente desconectados de quem está ao nosso lado.

Temos centenas de contatos, mas podemos não ter ninguém com quem conversar de verdade.

Publicamos fotografias sorrindo, enquanto escondemos angústias que ninguém vê.

Por isso, Setembro Amarelo não deveria ser apenas um mês de campanhas, cartazes e mensagens nas redes sociais.

Deveria ser uma oportunidade para repensarmos nossa maneira de tratar o sofrimento humano durante o ano inteiro.

 

A vida precisa ser ouvida

 

Falar sobre prevenção do suicídio não significa incentivar o suicídio.

Significa exatamente o contrário.

Significa abrir espaço para que o sofrimento seja reconhecido antes que se transforme em uma situação ainda mais grave.

Significa combater o silêncio.

Significa substituir julgamento por acolhimento.

Significa compreender que pedir ajuda não é sinal de fracasso.

Às vezes, pedir ajuda é justamente um dos maiores atos de coragem.

A pessoa que pede ajuda está dizendo:

“Eu ainda quero encontrar uma saída.”

E é nesse momento que precisamos estar preparados para ouvir.

 

Uma cor que nos convida a parar

 

O amarelo é uma cor associada à luz, à energia e à atenção.]

No Setembro Amarelo, ele também pode representar um convite.

Um convite para olhar para o outro.

Para perguntar.

Para escutar.

Para acolher.

Para encaminhar quem precisa de ajuda.

E para compreender que a vida de uma pessoa não pode ser reduzida ao pior momento de sua existência.

A história de Mike começou com um Mustang amarelo.

Mas terminou transformando aquela cor em uma mensagem que continua percorrendo o mundo.

Talvez essa seja a parte mais bonita dessa história.

Uma família perdeu um filho.

Mas decidiu fazer com que sua dor pudesse ajudar outras pessoas.

E assim, uma fita amarela passou a carregar uma frase que nunca deveria ser esquecida:

“Se você precisar, peça ajuda.”

Que essa mensagem não fique restrita ao mês de setembro.

Que ela esteja presente em nossas famílias, escolas, empresas, amizades e comunidades.

Porque, muitas vezes, salvar uma vida começa com algo aparentemente pequeno:

parar, olhar para alguém e perguntar com sinceridade:

“Você está bem?”

E, principalmente, permanecer para ouvir a resposta.

 

Por Paulo Franco – O Shakespeare de Uberlândia
Escritor, poeta e cronista brasileiro.

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.

 

LEIA TAMBÉM:

O escritor vai acabar, mas o poeta vai continuar

O erro das gerações