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O Fim da Rua e o caso da originalidade não premiada

Mesmo divertido, O Fim da Rua tem conseguido bilheteria modesta a ponto de não se pagar; enquanto isso, a já batida franquia Jurassic World arrecadou mais de U$$ 800 milhões em 2025

, em Uberlândia

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É curioso como a bilheteria pode contar uma história diferente daquela que encontramos dentro de um filme.

O Fim da Rua chegou aos cinemas tentando fazer justamente aquilo que Hollywood parece ter cada vez menos interesse em fazer: apresentar uma ideia nova. Não há aqui uma franquia que já tenha arrecadado bilhões de dólares em ingressos. Há uma mistura de aventura, ficção científica, suspense e dinossauros e, principalmente, a tentativa de fazer alguma coisa que não pareça apenas mais uma repetição de uma fórmula conhecida.

E talvez seja justamente isso que me deixa um tanto frustrado com os primeiros números do filme.

O Fim da Rua arrecadou aproximadamente US$ 47 milhões em seu primeiro fim de semana mundial. Nos Estados Unidos e no Canadá, foram cerca de US$ 21 milhões. O resultado não é uma catástrofe, mas está longe de transformar o longa em um fenômeno. E, considerando um orçamento estimado em US$ 85 milhões, a caminhada até que a produção se pague parece bastante complicada.

O problema é que não estamos falando apenas de um filme que pode dar prejuízo. Existe uma questão maior por trás dele.

Porque, enquanto O Fim da Rua tenta encontrar público com uma ideia original, Jurassic World continua provando que uma franquia pode se repetir, ser recebida de maneira apenas mediana e ainda assim movimentar uma quantidade absurda de dinheiro.

Jurassic World – Recomeço teve recepção fraca de crítica e fez ótima bilheteria – Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Jurassic World, de 2015, fez impressionantes US$ 1,67 bilhão. Reino Ameaçado, em 2018, caiu para US$ 1,31 bilhão. Domínio, de 2022, chegou a pouco mais de US$ 1 bilhão. E Jurassic World: Recomeço, mesmo depois de toda uma série de filmes que já havia explorado praticamente todas as possibilidades envolvendo dinossauros, terminou com algo próximo de US$ 872 milhões.

Há uma queda clara de um filme para outro. A franquia não é mais o fenômeno que foi em 2015. Mas ela continua sendo uma franquia capaz de levar milhões de pessoas aos cinemas mesmo quando a própria fórmula parece não ter mais para onde ir.

E aí está o ponto que me incomoda.

Não acho que seja correto dizer que o público não gosta de originalidade — pelo menos não como uma regra. Talvez a questão seja outra: o público parece cada vez menos disposto a correr riscos.

Quando alguém compra um ingresso para Jurassic World, já sabe o que está comprando. Pode até reclamar depois. Pode achar o roteiro ruim, os personagens fracos ou dizer que a franquia já deveria ter terminado. Mas existe uma garantia mínima: haverá dinossauros, haverá espetáculo e haverá uma conexão com algo que essa pessoa já conhece.

O Fim da Rua não oferece essa segurança. Você precisa olhar para aquele trailer, para aquele cartaz, para aquele conceito estranho e pensar: “Quero descobrir o que é isso.”

E aparentemente uma parcela muito menor do público está disposta a fazer isso. É aí que a situação fica ainda mais perigosa para o cinema.

Porque um filme original pode fracassar por dezenas de motivos. Pode ter marketing ruim, concorrência forte, uma campanha que não conseguiu explicar sua proposta, uma data ruim, um boca a boca apenas mediano. Só que existe sempre o risco de que Hollywood pegue esse resultado e tire dele a conclusão mais fácil, a de que o público não quer filmes originais.

E ela pode criar um ciclo perverso.

O estúdio investe em um filme original e ele não consegue competir com uma franquia estabelecida. O resultado é considerado insuficiente. O próximo filme original recebe menos dinheiro e menos divulgação. Ele fracassa novamente. E então alguém apresenta os números como prova de que não existe público para esse tipo de produção.

Enquanto isso, Jurassic World continua fazendo centenas de milhões.

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Uma franquia começa cada uma de suas novas entradas com uma audiência que já tinha atestado seu longa anterior. Um filme original começa praticamente do zero.

E talvez seja justamente por isso que eu tenha gostado tanto de O Fim da Rua. Ele tem aquela sensação de descoberta cada vez mais rara no cinema comercial. Existe uma tentativa de pegar elementos familiares e colocá-los em uma combinação que não parece completamente previsível.

Talvez o público não esteja dizendo que quer menos criatividade. Talvez esteja dizendo que precisa de um motivo muito maior para experimentar alguma coisa nova.

E esse é um problema que Hollywood deveria resolver, em vez de simplesmente desistir da novidade.

Filmes como O Fim da Rua precisam existir justamente para que amanhã exista uma nova franquia. Afinal, toda franquia um dia foi original. Jurassic Park foi. Matrix foi. Avatar foi.

Se todos os estúdios decidirem que só vale a pena investir em algo que já tenha público, chegaremos a um cinema em que nenhuma nova propriedade terá a oportunidade de se tornar uma propriedade conhecida.

É uma contradição bastante cruel.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais