Outra Tela

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Muito Prazer: Jorge Furtado fala sobre volta à comédia após 19 anos

Em entrevista à coluna Outra Tela, Jorge Furtado fala como seu novo filme, Muito Prazer, é uma comédia família falando sobre sexo, internet e algoritmos

, em Uberlândia

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Uma coisa é certa: sempre que Jorge Furtado lança um projeto novo nos cinemas, eu estou atento. Há pelo menos três filmes do diretor e roteirista que estão entre os meus favoritos na filmografia brasileira: Houve Uma Vez Dois Verões, Saneamento Básico – O Filme e O Homem que Copiava. Este, inclusive, coloco na prateleira entre os preferidos da vida.

Com Muito Prazer, seu novo longa-metragem, que já está nos cinemas, Furtado volta às comédias após 19 anos.

Nele, Rubem (vivido por Daniel de Oliveira) é um motorista de aplicativo sem perspectivas que herda do tio o Motel Pérola, um estabelecimento abandonado e cheio de dívidas. Ao chegar ao local, descobre que Grace (vivida por Luisa Arraes), uma antiga funcionária, continua morando em uma das suítes. Sem conseguir vender o imóvel, os dois decidem reabrir o motel. Com a ajuda de Nalva (papel de Samantha Jones), especialista em internet, eles encontram uma maneira inusitada de ganhar dinheiro: instalam câmeras escondidas nos quartos e passam a vender os vídeos dos encontros íntimos em sites eróticos.

“Mas a classificação indicativa é 14 anos, é para todo mundo”, ressaltou Furtado, em entrevista para a coluna Outra Tela.

O tom do longa é divertido, só que, como sempre lembra o próprio autor, toda comédia tem um fundo político. “E toda comédia também é erótica”, completou. “Enquanto na tragédia a gente morre, na comédia a gente casa. O sexo é política, tem muita relação. Não existem leis que tratam sobre o corpo dos homens, mas sobre o corpo das mulheres há várias. Recentemente foi discutido dificultar que crianças estupradas possam fazer aborto legal. Como tu podes exigir que crianças sejam mães? Uma crueldade absurda. E a comédia também sempre fala sobre política, porque elas corrigem costumes. Ela aponta para defeitos.”

Furtado fez sua última comédia em 2007, com Saneamento Básico – Crédito: Fabio Rebelo/Divulgação

I.A. e talento

Algo que me chama muito a atenção nos filmes de Jorge Furtado é como ele busca temáticas atuais e muito próximas da juventude. Aos 42 anos, eu me perco em conversas com minha filha de 11 anos. Quando disse isso ao cineasta, ele me deu uma receita: continuar conversando para entender o mundo de gente muito mais nova.

“Eu tenho uma filha de 26 anos, convivo com sobrinhos e tento pelo menos entender o que é ‘farmar aura’. A minha filha fica me corrigindo, porque não sei usar o Instagram: ‘Pai, tu postaste a mesma coisa cinco vezes’. Apesar de ter acompanhado a internet desde o início, agora eu me perdi. Eu parei no Facebook e depois não entendi mais nada.”

Mesmo com as dificuldades, ele parece ter perseverado. Muito Prazer, segundo seu roteirista e diretor, foi pensado para falar de Inteligência Artificial, de sites de pornografia, da monetização, mas, principalmente, de uma geração que teve acesso à educação, mas que viu sua profissão se perder em um mercado de trabalho cada vez mais escorregadio.

“Os personagens do Muito Prazer são talentosos. O Rubem é empresário, que estudou administração de empresas, teve um bar e agora está uberizado, ganhando 90 reais para dirigir 15 horas. Tem a Grace, que é artista, fotografa, borda, desenha e faz mil coisas, e agora está fazendo serviços gerais e morando escondida num motel quebrado. E tem a Nalva, que é um gênio da internet, sabe tudo de computação e de redes e está soldando placas numa loja. Os três são subaproveitados e se juntam para pagar as contas. O que eles precisam é de dinheiro. Meus filmes sempre falam de dinheiro.”

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Algoritmos

Furtado ainda contou que seu roteiro encontrou espaço para falar de algoritmos, que nem sempre acertavam nas indicações para ele em serviços de streaming, mas que hoje são usados até para entender o desejo sexual das pessoas.

“Eu via um filme e me era indicado outro: ‘Se você gostou desse filme, vai gostar desse’. Eu dizia: ‘Não, eu adoro o filme que vi, mas esse outro filme é uma porcaria’. Alguém aí não estava entendendo o que eu penso. Mas como esse algoritmo seria aplicado à paixão, à sexualidade? Se você gostou dessa pessoa, vai gostar dessa? Por quê? A paixão é totalmente imprevisível.”

A mesma lógica ele encontrou em sites de pornografia que, conta, tentam catalogar o desejo. Disse ter começado uma pesquisa em sites que ofereciam 640 categorias. Só que, com o passar do tempo, o autor chegou a achar 3 mil categorias em outras pesquisas. “Mas, gente, como é isso? Muito específico”, se assustou.

A mistura parece ter gerado curiosidade, e Muito Prazer conseguiu boa distribuição.

Nesta quinta-feira, ele chega a 180 salas por todo o Brasil, incluindo as 26 capitais, o Distrito Federal e cidades do interior, como Uberlândia.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais