Crítica: O Convite vai te desconcertar e te prender até o final
O Convite é um remake com bastante personalidade e elenco afiado, mas o roteiro, com muito a dizer, é que fisga o espectador
Tem uma coisa no roteiro de O Convite que me deixa bastante confortável em assistir ao longa-metragem: os conflitos são palpáveis, mas o texto se desdobra de uma maneira tão rápida e sempre com algo mais instigante em seguida que os atritos são superados muito rapidamente, sem parecerem descartáveis.
Aqui temos um casal com problemas sérios no relacionamento e que vai receber os vizinhos para um jantar. A trama e a ambientação parecem simples. O filme se passa basicamente em um apartamento e, por óbvio, os anfitriões vão desfilar seus vários problemas por aquela noite.

Mas O Convite vai além. Primeiro que a direção da também protagonista Olivia Wilde, junto da fotografia de Adam Newport-Berra, nunca deixa as coisas teatrais por aqui. Os personagens andam e trocam de posições enquanto há uma montagem inteligente de Yorgos Mavropsaridis e Anthony Boys, que acelera e se acalma de acordo com a necessidade da trama. Vale ainda dizer que existem alguns enquadramentos elegantes que dizem bastante pelos personagens — gosto muito daquele em que os casais estão no portal da sala de jantar e a mesa mais farta está mais próxima dos vizinhos.
Depois, é bem impressionante que o roteiro consiga encaixar tantos conflitos em menos de duas horas, sem parecer saturado. E, melhor, como eu disse, tudo se acumula, mas o filme anda e parece resolver algo sem resolução para que o próximo passo seja dado. Ele foi escrito por Rashida Jones e Will McCormack, baseados no roteiro original do espanhol Cesc Gay.
Inclusive, existe uma discussão improvável mais ao final da história, que não só se resolve de maneira muito adulta, como demonstra mais sobre personagens pintados como perfeitos naquele contexto.
O fato é que, às vezes, a sua curiosidade pela trama é tão grande que um conflito pode atravancar a história, às vezes apenas para incomodar, mas em O Convite, não. Esses problemas até não terem sido superados, mas você já está numa espiral de descida em que só quer mais do que o filme tem a oferecer.
E aqui está mais um caso em que a trilha sonora avulsa não é algo que me daria prazer em ouvir, mas, dentro do filme, não poderia comentar nada além de sua estrita precisão em pontuar cada momento.
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O elenco, formado, fundamentalmente, por Olivia Wilde, Seth Rogen, Edward Norton e Penélope Cruz, é excepcional. OK, Norton me parece o mais solto aqui, sem grandes demandas. Mas sua cara de diversão em 99% da projeção não deixa a desejar em relação aos colegas. Se Cruz e Rogen conseguem uma química excepcional, com o ator sendo o mais simpático, é Wilde e sua ansiedade que tomam conta das cenas. Por isso, quando surge a grande revelação, a dona de casa muda ainda mais sua colocação em cena do que o marido espantado/curioso. Ela fica leve.
O Convite pode não ser original na concepção e no que mostra em cena, afinal, trata-se de um remake do filme Sentimental, de 2020. Mas é muito bem contado, com roteiro que encontra leveza em temas difíceis e até surrados. Só que, uma vez dentro da história, você vai querer ver cada um dos minutos que ele oferece.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais