Crítica: mesmo não cobrindo toda a carreira de Michael Jackson, biopic é rasa
Demorei a assistir a Michael e por mais que a expectativa se tornasse cada vez mais baixa, o filme foi exatamente o que imaginava - inclusive com continuação à vista
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Michael não cobre toda a carreira do maior astro da música de todos os tempos, Michael Jackson – e, ainda assim, é uma correria impressionante. Não à toa, não consegue fugir daquele tipo de biopic raso que se torna apenas um grande espetáculo para fãs.
Repare: com menos de 30 minutos, o longa-metragem apresenta duas elipses para que a passagem do tempo seja vista por meio de montagens e não se torne apenas mais uma das várias e enormes datas em tela. Claro, isso também serve para a utilização de mais boas músicas do Jackson 5. É funcional, mas não constrói personagem.
Aliás, para ser bem justo, o personagem Michael Jackson tem um arco para além da fama em si. Tudo bem que, mais uma vez, vemos uma pessoa presa a problemas com o pai. Só que, na vida real, MJ teve uma relação dificílima com o pai, então seria difícil fugir do assunto. O problema em relação ao arco é que tudo é muito superficial. Joga-se uma cena aqui e outra ali de conflito, coloca-se Joseph Jackson se aproveitando da carreira do filho umas duas vezes e usa-se o acidente no comercial da Pepsi como ponto de virada.

O ponto de corte do filme até faria sentido se o roteiro de John Logan apontasse que estávamos chegando a um ápice de tensão e houvesse uma ruptura. Mas o que ganhamos é uma fala colocada oportunamente para que a solução chegue minutos depois.
O grande problema dessas biografias ao estilo Bohemian Rhapsody é que existe muita história para contar em duas horas. Não há um recorte para análise com mais profundidade. A missão é balancear o espetáculo da carreira musical de alguém tão grandioso quanto Michael Jackson, ser uma celebração à figura e, ainda assim, querer construir um personagem complexo. Nem boas alternativas, como o musical Rocketman, são perfeitas ou se aproximam disso.
Michael, então, é um exemplo de desperdício de tempo. Ele recria parte do clipe de “Thriller”, usando bons minutos para repetir cenas que estão ao alcance de qualquer pessoa no canal de Michael Jackson no YouTube. Também nos mostra, quase que passo a passo, o momento em que o artista apresentou seu “moonwalk” no especial da Motown, outro momento fácil de encontrar na internet. Tudo isso quase sem novidade informativa ou visual — apenas por se tratarem de momentos “obrigatórios” de serem levados ao cinema.
E não há elenco bom que dê conta de um roteiro tão superficial. Por mais que Jaafar Jackson seja uma cópia de MJ e que seu parceiro de trabalho, Juliano Valdi, seja a grande descoberta do filme — interpretando Michael na infância. Vale dizer ainda que, se não houvesse a enorme competência de Colman Domingo como o pai vilão, até esse personagem seria uma caricatura.
Mas, claro, um letreiro nos conta que a “história continua”. Ninguém duvidava da bilheteria que Michael poderia ter e uma inevitável continuação deve ser anunciada.
Resta saber quanto do bom-mocismo de Michael Jackson vai se transformar em vitimismo quando o filme tratar dos conturbados anos 1990 na vida do astro.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais