Crítica: Hamnet é um filme bonito, mas que pode te consumir
Hamnet, o favorito ao Oscar de Melhor Atriz é, mais uma vez, alguém tentando retratar a maior das dores de uma mãe e de um pai
Hamnet não é sobre como Shakespeare escreveu Hamlet por meio do drama vivido em sua família. É, mais uma vez, alguém tentando retratar a maior das dores de uma mãe e de um pai, sendo apurada da melhor forma possível.
Confesso que os minutos iniciais do filme de Chloé Zhao só me seguraram pela beleza da fotografia de Lukasz Zal e da trilha sonora composta por Max Richter. Sua protagonista, Agnes, tem um fosso ao seu redor, e é difícil se aproximar dela, por mais interessante que seja sua ligação com a natureza. A sorte de todos nós é que, aos poucos, ela se apaixona por Shakespeare, e a gente consegue vê-la desarmada.

É um caminho perigoso que o filme toma, mas ele se torna importante para entendermos que nada na formação daquela família foi simples e como há peso na tragédia que bate à porta daquele núcleo.
Também é preciso entender que Hamnet é quase experimental em suas escolhas narrativas, com imagens e diálogos de ritmos e visões próprias. As falas do jovem Hamnet ao lado da irmã doente; a imagem do jovem no palco com a lente coberta pelo que parece ser uma mortalha; os closes em portas e buracos escuros; ou mesmo os planos da natureza, sejam em detalhes ou como cenário para Agnes, criam ambientação e dão identidade à produção. Seria possível contar a mesma história de maneira mais objetiva, mas aí não haveria nada de especial.
Por falar em especial, aqui podemos encaixar o trabalho de Jessie Buckley à frente da trama. Ainda que se blinde naquela abertura, a atriz se torna acolhedora e transmite uma dor palpável quando exigida. Existe uma pequena pausa em seu desespero, quando fica clara sua perda, que é fundamental antes de a emoção explodir em cena.
Se você ainda não foi derrubado em lágrimas, é quando ela solta a frase definitiva sobre a percepção do que se passa que, ao meu ver, qualquer mãe ou pai perde o chão.
A questão é que esse pico sentimental acontece um tanto longe do final, e Hamnet precisa voltar a desenrolar a história, dessa vez focada em Shakespeare. Claro que é impossível atingir a mesma nota e, por isso, o filme volta a exigir paciência da plateia. Fique tranquilo: ele vai te ganhar novamente, mas há um preço cobrado da sua atenção — e a ligação com Hamlet só funciona, de novo, com a entrega de Jessie Buckley.
É um filme dolorido. Bonito, é verdade, mas que pode te consumir.