Outra Tela

Críticas, informações e discussões sobre o mundo do cinema e streamings, assinadas por Vinícius Lemos!

 

Envelope

Crítica: A Odisseia e o épico humanista de Nolan

Chistopher Nolan e sua versão de A Odisseia não deixam o fantástico da obra de Homero de lado, mas o filme espetáculo está mais preocupado com o que há de humano naquela história

, em Uberlândia

Eu já disse aqui na coluna que meu filme da vida é Advogado do Diabo e gosto sempre de salientar que seu terço final guarda pouca relação com o desfecho do livro que adapta, de Andrew Neiderman. A regra é simples: o filme deve funcionar como obra fechada — e que me desculpem os autores originais, caso haja liberdades.

Dito isso: A Odisseia, adaptação roteirizada e dirigida por Christopher Nolan, tem seu valor e, como produção audiovisual, é um triunfo técnico e artístico.

Há grandiosidade aqui e, como cineasta não dado a grandes afastamentos da realidade, mesmo em temas fantasiosos, foi surpreendente ver Nolan se enveredar pela obra de Homero. Mas é bem interessante que ele não abra mão de monstros, feitiçaria, divindades e mundos subterrâneos em A Odisseia, sem tirar o pé do chão.

Esse é o primeiro filme de Chris Nolan após vencer o Oscar com Oppenheimer – Crédito: Divulgação/Universal Pictures

Em sua tentativa de retornar para casa depois de uma guerra de 10 anos em Troia, essa versão de Odisseu é um homem que rejeita os deuses e, em boa medida, os determinismos. Mas ele ganha contornos mais profundos, uma vez que não deixa de ter contato direto com Atena e sabe fazer escolhas quando a vontade do destino parece se impor em uma encruzilhada entre um grande redemoinho marítimo e um monstro escondido nas rochas.

Odisseu aqui é, antes de tudo, um humanista, que não só anseia pela volta para a família, mas também pensa em seu povo e em seus companheiros de armas.

Por isso, enquanto acompanhava suas aventuras, que emprestam passagens tanto de A Ilíada quanto de A Odisseia, de Homero, eu conseguia ver que estava diante de uma obra de cinema comercial muito bem-sucedida, com aventuras e ação das melhores que o largo orçamento poderia garantir — mesmo que sisuda e expositiva demais em alguns pontos.

Já estava satisfeito com a fotografia integralmente captada em IMAX por Hoyte van Hoytema, que guardava ainda beleza estética e opulência. Mais ainda com a trilha sonora inesperadamente estranha de Ludwig Göransson, a qual, vale ressaltar, cria a urgência necessária em momentos importantes da trama. Pude ainda perceber que o elenco estelar, mesmo não garantindo a mesma relevância para cada uma das estrelas ou dos astros em cena, acaba sendo significativo para que alguns deles conquistem nossa atenção rapidamente.

Nolan alia, assim, o fator comercial à consciência de que alguns dos personagens são importantes mesmo não tendo mais do que duas ou três falas. Com atores e atrizes reconhecíveis, ele não precisa dar maiores explicações para que você preste atenção naquele indivíduo.

Aliás, é na sequência da ilha onde reside Circe, vivida por Samantha Morton, que talvez tenhamos o melhor exemplo disso. Primeiro porque estamos falando de uma atriz excepcional, que engrandece cada um de seus minutos em tela. Segundo porque o que vemos ali é uma bizarrice sem tamanho, cuja mensagem vai ecoar nos minutos finais desse novo A Odisseia.

×

Leia Mais

Nesse desfecho, Odisseu tem sua última camada acessada, transformando-se em um homem ainda mais atormentado do que se pôde ver até então. O que Circe diz sobre seus homens o alcança como trauma, e o filme é empacotado como uma obra fechada em si. Ele entrelaça a necessidade de Odisseu de retornar para casa enquanto sua mulher e seu filho vivem um tipo de inferno dentro da própria casa, o pragmatismo de um líder que nem sempre é inocente, o horror de contemplar esse passado e a busca por algum tipo de redenção travestida de honra.

Numa produção desse porte, é até irônico que tudo isso seja encerrado por meio de um monólogo, defendido por Matt Damon no papel principal e refletindo, sentado como um mendigo em uma escada.

A Odisseia pode até se afastar da literalidade de alguns pontos fantasiosos da obra de Homero; inclusive, pode naturalizá-los por meio de tempestades e outras representações das vontades dos deuses. Pode não apresentar a mesma representação da figura literária de Odisseu ou até deixar brecha para que sua crença em Atena seja, na verdade, sua culpa representada na figura da deusa que foi alvo da blasfêmia do exército que ele liderou.

Mas Nolan não desenhou um roteiro modernizado da história milenar de maneira vaga. Ele sabia o que estava fazendo e esta é uma obra que olha mais para o humano do que para o Monte Olimpo.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais