Matheus e a Navalha da Indiferença
Tragédia no Rio de Janeiro expõe o limite da dor e a sensação de abandono diante da violência cotidiana
Os olhos arregalados, o medo e a indignação tomando conta de cada parte do corpo. Tudo isso me chamou atenção. A fala era assertiva; a voz de uma mulher simples que, mesmo sem diploma algum, sabe muito bem o que é sobreviver em uma capital. Ela sabe o que é a favela, o que são os desafios reais e, acima de tudo, o que é a falta absoluta de dignidade imposta pelo abandono.

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Aquela senhora vivia, naquele instante, o horror puro. Experimentava na própria pele a indiferença de um Estado de Direito que se torna cego quando se trata da vida de quem paga impostos para sustentar a engrenagem de uma política suja, de gananciosos. Para os que decidem, eles são apenas números.
Não leem as notícias que nos chegam todos os dias; não sentem o corte da navalha da insegurança que sangra quem está na ponta. Havia um cotidiano ali: a mãe que fazia marmitas ao lado da filha, formada em biomedicina. O calor do amor misturado ao do forno e fogão, o esforço honesto para melhorar de condição, para permitir-se sonhar. E havia um sonho a caminho. Era o neto. Um menino que já tinha nome sagrado: Matheus.
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A família descobriu o sexo da criança de um jeito brutal. O bebê foi alvejado no útero da mãe. Matheus levou um tiro antes de respirar. O pai, um gerente de logística, foi confundido , morto por engano. Todos foram massacrados pela arma da indiferença, pela falta de cuidado e por essa corrupção que desvia o dinheiro do seu destino humano.
Em um momento de dor lancinante, aquela avó gritava que não conseguia entender. E como entender? Como aceitar que um casal, prestes a celebrar a vida, seja executado dentro da loja onde escolhia os enfeites para o chá revelação?
Ela não aceita — em todas as conjugações e tempos verbais possíveis. E não deve aceitar. Mas a pergunta que fica, sufocada em nossas gargantas, é: e nós? Por quanto tempo mais permitiremos que gente inocente seja dizimada enquanto a sociedade e os que deveriam olhar por ela fingem que este é um país normal?