Entre a barbárie e a fé: o que restou da nossa humanidade?
Em um mundo de violências banais e telas frias, o olhar atento de Mônica Cunha revela onde ainda mora a esperança
O mundo de hoje me assusta. Assusta pela crueldade, pelo deboche, pela falta de respeito, de amor e de elegância. Eu poderia enumerar tantos outros sinais desse monstro que, às vezes, parece tomar conta do planeta.
Perdoe-me se, neste momento, minhas palavras soam pessimistas ou talvez apenas realistas. Como se diz no coloquial: “é o que tem pra hoje”. Escrevo este texto após presenciar a maldade nua: um animal ferido pelas mãos de alguém desocupado. Há sangue, há dor, há sofrimento gratuito. Escrevo também impactada por essas novas trends de internet — “gracinhas” que surgem sem que ninguém tome providências — em que jovens treinam ataques contra mulheres que simplesmente dizem “não”.
Há os que riem. Há os que compartilham. Há os que apenas ignoram o feed e seguem adiante. Escrevo amedrontada; é assim que me sinto agora. O que está acontecendo com a humanidade? O pior ainda está por vir? Ou algo melhor nos espera?
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Hoje, logo cedo, tomei café com pão fresquinho, queijo derretido e oração. Havia também um passarinho que voltou ao pé de carambola no quintal. Aquela cena me trouxe uma tranquilidade tão mansa que, horas depois, percebi: ela havia sido roubada pelas notícias do mundo. Fui criada com muito amor e sinto falta desse sentimento que sempre foi pilar na minha vida, mas que, ao sair de casa, parece sufocado. Não completamente, pois ainda encontro, aqui e ali, raros afetos que ajudam a preencher o que o mundo insiste em nos roubar.
Enquanto reflito, uma senhora passa por mim. Veste uma saia terracota e uma blusa azul, já um pouco desbotada pelo tempo. Debaixo do braço, carrega um guarda-chuva; na mão, uma sacola onde talvez guarde documentos ou algo simples para o jantar. Ela caminha devagar, mas com firmeza.
Por um instante, tudo parece voltar ao lugar. Porque naquela mulher que atravessa a nossa rua, há uma dignidade silenciosa que o mundo ainda não conseguiu destruir. Talvez seja isso que nos sustente: essas pequenas presenças humanas que continuam percorrendo a cidade com seus guarda-chuvas, suas sacolas e a coragem discreta de seguir vivendo.