Mônica Cunha

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Livros descartados feito lixo

Jogados no caminho de terra, sob a sombra dos fícus, perto do vaso sanitário quebrado e do lixo, lá estavam os livros

, em Uberlândia

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Entre o concreto e o mato havia o descaso.

Jogados no caminho de terra, sob a sombra dos fícus, perto do vaso sanitário quebrado e do lixo, lá estavam os livros. Por incrível que pareça, novos. Quase intactos, como se as páginas jamais tivessem sido abertas, tocadas, lidas. Conhecimento descartado sem dó. Aquilo me causou indignação e uma ponta de tristeza.

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Livros têm vocação para o encontro – crédito: Reprodução IA

Mas não era só isso. Havia também um desconforto difícil de nomear, um aperto que não se explica depressa. Fiquei pensando nas histórias ali adormecidas, nas ideias que nunca chegaram a acontecer. Livros têm vocação para o encontro: pedem mãos, olhos atentos, algum tempo emprestado.

Talvez o abandono não fosse apenas daqueles volumes, mas de tudo o que exige pausa. Entre o concreto que endurece e o mato que insiste em crescer, os livros pareciam um símbolo frágil demais para estes tempos apressados. O que não cabe na urgência vira excesso. O que não grita, vira silêncio. E o silêncio, muitas vezes, vira lixo.

Segui meu caminho com a sensação de ter testemunhado uma cena íntima demais para ser ignorada. Porque livros jogados no chão não falam só de desleixo — falam de escolhas. Do que preservamos e do que deixamos para trás. Escrever sobre isso talvez seja uma forma de recolher ao menos um deles, soprar a poeira invisível e lembrar que, mesmo abandonado, o conhecimento ainda espera. E resiste.