Flores de mentira, cacos de verdade
Entre flores que não murcham e um vaso que se foi, descobri que o que quebra também pode ganhar outro destino
Abri os olhos devagar, fazendo o inventário: consegui não me machucar. Estava sem chinelo, ainda por cima.
Descalça entre cacos, sorte pouca é sorte grande. Aí veio a bronca, claro, a de sempre, a que a gente dá em si mesma: mulher, que falta de cuidado! Fiquei brava comigo. Ralhei sozinha no meio do quintal, com as flores penduradas me assistindo, caladas, escorrendo.

Mas então aconteceu o que costuma acontecer quando a raiva passa e sobra só o chão: agachei e fiquei olhando cada pedacinho. Cada caco tinha sido, até a véspera, uma parte inteira de alguma coisa.
Um dia foi vaso. Um dia foi barro, foi forno, foi mão de alguém, foi prateleira, foi lugar de flor. Um dia foi inteiro.
Juntei. Um por um, sem pressa, com aquele cuidado tardio que a gente só tem depois do estrago.
E, juntando, fui vendo que dava para dar outro destino àquilo.
Não o mesmo vaso, nunca é o mesmo.
Outra coisa, com rachaduras à vista, talvez mais interessante do que antes, talvez só diferente. Mas viva de novo, de um jeito torto.
E foi ali, de cócoras, com cola na mão e flor pingando no varal, que a pergunta chegou sem bater:
será que dá pra fazer o mesmo com o que quebra dentro da gente?
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