Mônica Cunha

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A política do macarrão com frango

O Brasil que meus pais me ensinaram a amar numa cozinha simples, e a realidade que insiste em desencantar

, em Uberlândia

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Domingo de manhã era de praxe. A gente ia pro quintal, que apelidávamos de terreiro, pra brincar. Como era grande, havia espaço pra tudo: meu irmão jogando bola, eu entretida com as minhas bonecas de papel e a minha irmã correndo entre nós. Ali ficávamos, desfrutando das horas puras de folga.

Cedo, meus pais saíam. Papai com a sua carteira, mamãe com a sua bolsa de mão, toda arrumada. “Tamo indo ali votar”, avisavam. E eu ficava intrigada, tentando entender que compromisso era aquele que, de tempos em tempos, aparecia na agenda deles com tanta solenidade. Os meus avós tomavam conta da gente. Um tempo depois, eles voltavam, e eu, curiosa, mesmo sendo menina tão tímida, perguntava: “Afinal de contas, o que é esse tal de votar?”

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A resposta foi ficando clara à medida que fui crescendo. Meus pais nunca foram filiados a nenhum partido, mas sempre acreditaram na política de verdade. Por eu ser a filha mais velha, diziam que um dia eu faria o mesmo: iria até um local onde haveria um papel (sim, sou do tempo da cédula de papel) e escolheria aqueles que iriam governar a cidade, o estado e o país.

Olhando minha mãe sair bonita e meu pai a amparando com o cuidado de sempre, eu pensava: um dia vou fazer o mesmo. Era uma responsabilidade que gritava em mim. Um desejo bonito de ter algo melhor, mesmo sem saber direito que melhoria era essa. Nas conversas diárias em volta da mesa, na sala ou no alpendre, meus pais, sem qualquer diploma de faculdade, me explicavam a importância daquele gesto. Votar era a tentativa de poder contar com quem nem conhecíamos, a quem confiávamos o poder de decidir por nós, para que pudéssemos, ao fim do dia, fechar a porta de vidro e descansar em paz à noite.

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A necessidade dessa proteção a gente sentia na pele. Uma noite, ouvi os passos de um ladrão na janela do nosso quarto. Ele levou o que encontrou pelo caminho. Nunca tivemos nada de muito valor, mas a bola do meu irmão e a minha bicicletinha, que ficavam lá fora, foram embora com ele. Mesmo com pouca instrução formal, a minha família sempre esteve atenta a tudo o que acontecia nessa imensidão chamada Brasil.

Desde que fiz 18 anos e comecei a minha própria jornada, o voto me parece misturar muito mais dever do que direito. Ainda assim, carrego uma esperança junto com o título, que agora mora na tela do meu celular.

Prato de macarrão com frango e cédula de papel ao lado na mesa
Crédito: Imagem ilustrativa gerada por Inteligência Artificial

Admito: essa esperança já foi bem maior. Hoje, nem tanto. Porque aquela política que me foi ensinada na cozinha simples da minha casa, entre o cheiro do macarrão com frango e as conversas claras, parece não existir mais. Hoje, aos quase 60 anos, percebo com dor que, para muitos, o que importa quando chega o período eleitoral é um mundo restrito: o de quem se agarra ao sistema não para fazer o bem, mas para ajuntar para si toda a fortuna que puder carregar.