O menino e a bola no chão
O gesto de socorro de um menino durante um assalto expõe a violência que ronda o país.
Eu lia, e ao longe escutava o som da televisão. O programa trazia as notícias a que já estamos acostumados todos os dias: a violência que impera neste país. Até que o apresentador exibiu uma cena específica, uma imagem que por si só assola a alma. Ele disse que rezava, e eu não entendi. Decidi fechar o livro para prestar atenção, e foi aí que a minha indignação transbordou.
Imagine comigo um pequeno armazém num bairro da Grande São Paulo. Portas abertas, tudo muito organizado apesar da simplicidade. Prateleiras encostadas na parede, outras no meio do galpão, cheias de produtos à espera dos clientes. Tinha de tudo: farinha, bolacha, batatinha, bebidas as mais variadas. E ali, como num dia qualquer, trabalhava uma família. Um negócio construído por ela.
O pai da dona do empreendimento varria o chão. A filha, a empreendedora, estava no caixa. O marido cuidava de outro serviço na loja, e dois funcionários se revezavam entre as tarefas, empenhados em prestar o melhor atendimento. Em outra parte do armazém havia também um menino.
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Então, no susto de viver num país chamado Brasil, entram três homens. A imagem mostrava o descontrole, a prepotência e o terror, em palavras e em armas. Não dava para ouvir, mas o apresentador contou o que diziam: passa tudo, e vamos matar todo mundo que reagir. Primeiro vou matar você, depois você, e você. Enumeravam as vítimas da própria crueldade.
Num determinado momento da reportagem, rasga-se a realidade. O menino, que não deve ter mais de dez anos, segura uma bola. Não dá para ver o rosto dele, mas imagino a incredulidade estampada na face da inocência. Ele escuta, parece paralisado. Dá alguns passos e entra por baixo de uma cortina, na dispensa improvisada, ali onde se guarda o sustento. Deixa a bola no chão e faz com as mãos o sinal de socorro.
Não era preciso muito para entender: ele rogava, implorava, clamava por Deus. O desespero dele subiu direto para a minha garganta e fez nó. Por mais linda que estivesse a tarde, quase noite, a escuridão cobriu mais uma vez a minha alma estarrecida diante de tanto descaso.
No país do futebol, que tanta graça vê no esporte, fico pensando: será que o menino vai voltar a jogar bola com a alegria de antes? Será que aquelas pessoas ainda terão força para levantar a porta de ferro, abrir o cadeado, vender, garantir o alimento de cada dia e o dinheiro para pagar tanto imposto?
Eu não sei. Só sei que, talvez, naquele mesmo instante, em outro estado, em outra cidade, o mesmo acontecia.
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