Cão Orelha: notícias duras, patas leves
Há leis, porém, parecem não intimidar quem escolhe agredir: bichos ou gente
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Soube que mataram um cachorro, o Cão Orelha, com requintes de crueldade. Foram, segundo as investigações, adolescentes cientes do que faziam. Também vi que uma mulher foi agredida de todas as formas por dois meses.

O bicho de coração puro e instinto, apelidado de Cão Orelha, brincava na praia. Era feliz entre o frescor da onda e o refestelar na areia.
Havia aqueles que cuidavam com comida, abrigo e afago. Para mim, era um sinal da presença de Deus na pureza, na inocência e na alegria de simplesmente existir.
A moça sonhou com o casamento. Na foto para o álbum, ela parecia flutuar junto do véu leve; esvoaçava a perspectiva de uma vida a dois. Virou refém. Do toque disfarçado de carinho veio a ameaça, no canto sagrado do descanso e da intimidade.
É a realidade escancarada de uma atrocidade gratuita que se sobrepõe ao respeito pela vida do outro. Há leis, porém, parecem não intimidar quem escolhe agredir: bicho ou gente.
Para não endurecer, pego a estrada e sigo para Uberaba. Um pouquinho depois da cidade há um lugar para parar, forrar o estômago e comprar um doce. É lá que vivem hoje três cães.
Bolinha, de 17 anos. Uma cadela pequena, discreta e elegante ao observar os clientes, com uma patinha sobre a outra. Juntam-se a ela o Caramelo e o Goiabada — nomes sugestivos, igual ao do Cão Orelha, e dados pelo segurança simpaticíssimo que cuida deles.
Estão sempre por perto. Ficam ao redor dele e penso que a proteção é mútua. Me agarro a essa cena, que vi tantas vezes, para pensar na possibilidade real de uma coexistência sem tanta barbaridade.