Mônica Cunha

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Cão Orelha: notícias duras, patas leves

Há leis, porém, parecem não intimidar quem escolhe agredir: bichos ou gente

, em Uberlândia

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Soube que mataram um cachorro, o Cão Orelha, com requintes de crueldade. Foram, segundo as investigações, adolescentes cientes do que faziam. Também vi que uma mulher foi agredida de todas as formas por dois meses.

Cão Orelha
Cão Orelha morreu após ser espancado por quatro adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis – Crédito: Redes sociais/Reprodução

O bicho de coração puro e instinto, apelidado de Cão Orelha, brincava na praia. Era feliz entre o frescor da onda e o refestelar na areia.

Havia aqueles que cuidavam com comida, abrigo e afago. Para mim, era um sinal da presença de Deus na pureza, na inocência e na alegria de simplesmente existir.

A moça sonhou com o casamento. Na foto para o álbum, ela parecia flutuar junto do véu leve; esvoaçava a perspectiva de uma vida a dois. Virou refém. Do toque disfarçado de carinho veio a ameaça, no canto sagrado do descanso e da intimidade.

É a realidade escancarada de uma atrocidade gratuita que se sobrepõe ao respeito pela vida do outro. Há leis, porém, parecem não intimidar quem escolhe agredir: bicho ou gente.

Para não endurecer, pego a estrada e sigo para Uberaba. Um pouquinho depois da cidade há um lugar para parar, forrar o estômago e comprar um doce. É lá que vivem hoje três cães.

Bolinha, de 17 anos. Uma cadela pequena, discreta e elegante ao observar os clientes, com uma patinha sobre a outra. Juntam-se a ela o Caramelo e o Goiabada — nomes sugestivos, igual ao do Cão Orelha, e dados pelo segurança simpaticíssimo que cuida deles.

Estão sempre por perto. Ficam ao redor dele e penso que a proteção é mútua. Me agarro a essa cena, que vi tantas vezes, para pensar na possibilidade real de uma coexistência sem tanta barbaridade.