Entre rodas e sabores: Fusca e queijo unem tradição, memória e identidade mineira

O dia 20 de janeiro reúne datas que celebram dois ícones populares presentes na história cultural de Minas Gerais.

, em Uberlândia

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Redondos, populares e carregados de histórias, o Fusca e o queijo dividem mais do que datas comemorativas. Celebrados em 20 de janeiro, o Dia Nacional do Fusca e o Dia Mundial do Queijo, os dois ícones ajudam a contar capítulos importantes da memória afetiva, cultural e econômica de Minas Gerais.

Fusca e queijo
O Fusca e o queijo dividem mais do que datas comemorativas – Crédito: Reprodução/Jalel salem/Iphan

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De um lado, o queijo, alimento milenar que atravessou séculos e se consolidou como símbolo da culinária mineira. Do outro, o Fusca, carro que marcou gerações, popularizou o acesso ao automóvel e virou sinônimo de simplicidade, resistência e identidade.

Não por acaso, ambos extrapolam sua função original e ocupam um espaço de patrimônio cultural.

Do leite cru ao reconhecimento mundial

A produção de queijos em Minas Gerais está fortemente ligada à formação do estado e ao modo de vida no campo. Em dezembro de 2023, os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal (QMA) foram reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, consolidando uma tradição com mais de três séculos.

Produção de Queijo Minas Artesenal se tornou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade – Crédito: Divulgação / Secult

Para receber o selo de QMA, o produto segue regras rígidas: uso de leite cru, produção dentro da propriedade, processo manual e ingredientes tradicionais, como o pingo, um fermento natural passado de geração em geração.

Por ocasião do Dia Mundial do Queijo, dados inéditos da Emater-MG reforçam a força do setor. Em 2025, a agroindústria familiar mineira produziu 43 mil toneladas de queijo, sendo 32,1 mil toneladas de queijos artesanais, o que representa 74,6% da produção familiar.

“A produção de queijos artesanais representa um salto estratégico para a diversificação econômica e agregação de valor ao leite produzido nas propriedades. Esse modelo fortalece o desenvolvimento sustentável das famílias e das comunidades rurais”, explica Rayanne Soalheiro de Souza, coordenadora técnica da Emater-MG.

Hoje, Minas conta com dez regiões oficialmente reconhecidas como produtoras de Queijo Minas Artesanal, incluindo o Triângulo Mineiro, território mais recente a receber esse reconhecimento.

Mais que um carro, um símbolo popular

Fabricado no Brasil a partir de 20 de janeiro de 1959, o Fusca conquistou rapidamente o coração dos brasileiros. Mundialmente, tornou-se o carro mais produzido da história, com mais de 21,5 milhões de unidades fabricadas até o encerramento da produção, em 2003, no México.

Os primeiros Volkswagen Sedan, fabricados na Alemanha, chegaram ao Brasil em 1950. Crédito: Divulgação/Volkswagen

Em 1972, o modelo quebrou o recorde mundial ao ultrapassar o Ford T, marco registrado por instituições como o Smithsonian Magazine. Mais do que números, o Fusca virou símbolo de acesso, resistência e afeto.

Em Uberlândia, essa relação ganha rosto e nome. Jalel Salem Barbar, de 54 anos, comerciante e antigomobilista, é diretor da Federação Brasileira de Veículos Antigos e presidente do Clube de Carros Antigos de Uberlândia, e acompanha essa história de perto e de dentro da garagem.

“Meu primeiro Fusca eu comprei em 1985, era um modelo 1966. Montei ele praticamente sozinho. Desde então, nunca larguei. Sempre tive Fusca”, conta.

O Fusca é considerado um dos carros mais influentes do século XX e um símbolo global. Crédito: Reprodução/Jalel Salem

Hoje, Jalel possui seis Fuscas, quatro em pleno funcionamento e dois em fase de restauração. Mais do que coleção, eles fazem parte da rotina. “Eu uso Fusca no dia a dia. Não tenho carro moderno. Cada dia ando em um, como qualquer pessoa faria com um carro comum”, explicou.

Para ele, o Fusca ultrapassou o status de automóvel. “O Fusca virou mais que um carro, virou um patrimônio cultural. Ele representa memória, simplicidade, família. É um símbolo que atravessa gerações”, declarou.

Em 2025, a marca “Fusca” obteve o reconhecimento de “Alto Renome” no Brasil. Crédito: Reprodução/Jalel Salem

Embora o antigomobilismo seja reconhecido institucionalmente como atividade cultural no Brasil, Jalel destaca que o valor do Fusca está, sobretudo, na relação afetiva construída ao longo do tempo.

Semelhanças que vão além da forma

Assim como o queijo artesanal, o Fusca carrega características que ajudam a explicar sua permanência no imaginário popular: simplicidade, robustez e custo acessível. Ambos nasceram para atender necessidades práticas, mas ganharam valor simbólico com o passar das décadas.

No interior de Minas, a conexão Fusca e queijo é ainda mais evidente. O Fusca marcou presença nas estradas de terra, no transporte do campo à cidade, assim como o queijo sempre esteve à mesa, nas quitandas, nas feiras e nas cozinhas das famílias mineiras.

Redondos, resistentes e cheios de história, queijo e Fusca seguem firmes como símbolos de uma Minas que valoriza o passado sem abrir mão do presente.