O que é onda de calor e por que ela acontece?
Especialistas alertam para impactos do calor extremo no corpo humano e explicam por que as ondas de calor estão mais frequentes no país
A onda de calor é marcada por temperaturas muito acima da média esperada para determinada região e período do ano, persistindo durante vários dias consecutivos. O fenômeno tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil e já preocupa especialistas devido aos impactos na saúde pública e no meio ambiente.

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Segundo o climatologista Denis Garcia, uma onda de calor é caracterizada quando as temperaturas ficam pelo menos entre 3 e 5 dias consecutivos acima da média, com registros cerca de 5°C superiores ao esperado. O especialista explica que o fenômeno costuma atingir áreas amplas e se prolonga por causa da atuação de sistemas atmosféricos persistentes.
O que caracteriza uma onda de calor
De acordo com Denis Garcia, a formação de uma onda de calor está ligada principalmente à atuação de um sistema de alta pressão atmosférica. Esse mecanismo impede a formação de nuvens e favorece a incidência direta da radiação solar sobre a superfície.
O climatologista explica que o ar descendente comprime as camadas mais próximas do solo, provocando aquecimento intenso. Além disso, ventos fracos e a ausência de frentes frias dificultam a renovação do ar.
“Esse bloqueio atmosférico dificulta a chegada de sistemas que normalmente provocariam chuva e queda nas temperaturas”, destacou o especialista.
Por que as temperaturas sobem tanto
Outro fator apontado pelos especialistas é o solo seco. Sem umidade suficiente, há menos evaporação e, consequentemente, menos resfriamento natural da superfície. Isso contribui para o aumento das temperaturas e prolonga os episódios de calor extremo.
Segundo Denis Garcia, a atmosfera pode permanecer “travada” por vários dias quando há combinação entre alta pressão, bloqueios atmosféricos e ausência de frentes frias.
“A atmosfera fica praticamente bloqueada, impedindo a entrada de massas de ar mais frio e favorecendo a continuidade do calor intenso”, explicou.
Duração de uma onda de calor
Embora o período mínimo para caracterizar uma onda de calor seja de 3 a 5 dias, eventos mais intensos podem ultrapassar os 10 dias consecutivos.
De acordo com Denis Garcia, a duração depende da força e persistência do sistema de alta pressão, além das condições da superfície. “Quando o bloqueio atmosférico permanece forte e o solo continua seco, a tendência é que o calor dure ainda mais tempo”, afirmou o climatologista.
Riscos para a saúde
Os impactos das ondas de calor vão muito além do desconforto térmico. O geógrafo especialista em clima William Borges alerta que o calor extremo representa um dos maiores riscos atuais para a saúde pública.
Segundo ele, temperaturas muito elevadas dificultam o controle térmico natural do corpo humano e podem provocar complicações graves. “As ondas de calor representam um dos maiores riscos à saúde pública em escala global”, afirmou William Borges.
Entre os principais problemas causados pelo calor extremo estão estresse térmico, exaustão, desidratação, insolação e agravamento de doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e diabetes.
William Borges destaca que idosos, crianças, gestantes, trabalhadores expostos ao sol e pessoas em situação de vulnerabilidade social estão entre os grupos mais afetados. O especialista também chama atenção para números preocupantes. Entre 2000 e 2018, as ondas de calor contribuíram para até 55 mil mortes em excesso nas cidades brasileiras. Já a Organização Mundial da Saúde registrou aumento de 23% nas mortes relacionadas ao calor nos últimos 35 anos. “A mortalidade por calor ainda é subnotificada no Brasil, porque muitos óbitos acabam registrados como doenças cardiovasculares ou respiratórias”, explicou o geógrafo.
LEIA MAIS: Outono quente: calor acima da média eleva riscos de saúde
Como se proteger durante o calor extremo
Especialistas recomendam cuidados simples, mas fundamentais, durante períodos de calor intenso. Entre as principais orientações estão evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, manter hidratação constante e usar roupas leves e claras.
William Borges ressalta que ambientes ventilados podem não ser suficientes quando as temperaturas ultrapassam determinados limites. “A partir de 35°C, os ventiladores deixam de ser eficazes, tornando o ar-condicionado praticamente indispensável. Algo que aprofunda desigualdades socioeconômicas, já que famílias de baixa renda não têm acesso”, afirmou.
O especialista também defende medidas coletivas, como ampliação de áreas verdes, criação de centros de hidratação e fortalecimento dos sistemas de alerta e atendimento médico.
Eventos recentes no Brasil
O Brasil tem registrado uma sequência histórica de ondas de calor nos últimos anos. Segundo os especialistas, foram contabilizados 8 episódios em 2023, 10 em 2024 e 7 ocorrências em 2025, mesmo sem influência do El Niño.
Entre os eventos mais marcantes está a onda de calor registrada em fevereiro de 2026, quando temperaturas próximas de 42°C colocaram 511 municípios do Sul do Brasil em alerta.
Outro episódio preocupante ocorreu durante o verão 2024/2025, quando o calor extremo coincidiu com queimadas na Amazônia. A combinação entre fumaça, poluentes atmosféricos e altas temperaturas aumentou o risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais.
Alerta para 2026
Segundo William Borges, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emitiu nota técnica alertando para um possível “desastre térmico” no segundo semestre de 2026. Há cerca de 80% de probabilidade do El Niño se estabelecer no Oceano Pacífico, com efeitos mais intensos a partir de setembro.
Ainda de acordo com o especialista, a combinação do fenômeno com o aquecimento global já em curso pode produzir ondas de calor mais frequentes, longas e intensas, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.
Outro fator preocupante é a elevação das temperaturas mínimas noturnas: as noites estão mais quentes, impedindo que o corpo se recupere do estresse térmico diário e acumulando danos à saúde. “Como alertou o climatologista José Marengo: ‘O calor é um assassino invisível e silencioso’”, concluiu.