Dia do Pesquisador: conheça a cientista de Uberlândia que transforma jogos em reabilitação
Data celebra o papel da ciência brasileira no desenvolvimento de soluções que saem dos laboratórios da universidade para impactar, na prática, a recuperação de pacientes em todo o país
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Por trás de tecnologias capazes de transformar um celular comum em ferramenta de reabilitação física existe um trabalho que leva anos de pesquisa, testes e validações científicas. No Dia Nacional do Pesquisador Científico, comemorado em 8 de julho, a trajetória da pesquisadora Isabela Alves Marques, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ilustra como a ciência produzida nas universidades pode chegar à sociedade por meio da inovação, contribuindo para melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças neurológicas e limitações motoras.

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Dia do Pesquisador Científico
Celebrado em 8 de julho, a data nacional homenageia os profissionais dedicados à produção de conhecimento e à busca por soluções para desafios da sociedade. Instituída pela Lei nº 11.807/2008, a data também marca o aniversário de fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), criada em 1948.
O Brasil possui cerca de 270 mil pesquisadores em atividade vinculados a grupos de pesquisa cadastrados no CNPq. A produção científica nacional está concentrada principalmente nas universidades públicas, que respondem pela maior parte das pesquisas desenvolvidas no país.
Em universidades como a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), pesquisas têm ultrapassado o ambiente acadêmico e se transformado em soluções aplicadas à saúde.
Pesquisa além das fronteiras: a jornada de Isabela Marques
A pesquisadora Isabela Alves Marques é um exemplo desse caminho. O interesse pela ciência nasceu da vontade de compreender como a pesquisa poderia gerar impactos concretos na vida das pessoas.
Graduada em Educação Física, Isabela decidiu seguir a carreira científica após acompanhar a recuperação da avó, que sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs). A experiência despertou o desejo de desenvolver novas formas de reabilitação para pacientes com sequelas neurológicas.

Foi durante o mestrado e o doutorado na UFU que ela passou a integrar projetos que unem saúde, engenharia e realidade virtual. Desde então, realizou quatro pós-doutorados — três na própria universidade e um em parceria com instituições da França — ampliando as pesquisas voltadas à aplicação de tecnologias na reabilitação física.
Entre os projetos desenvolvidos está um sistema para pessoas com doença de Parkinson capaz de auxiliar na reabilitação motora e, ao mesmo tempo, medir objetivamente os tremores dos pacientes. A iniciativa recebeu o primeiro lugar em uma premiação internacional realizada na França voltada à inovação para pessoas com deficiência.
“O pesquisador tem uma responsabilidade metodológica muito grande, pois sei que aplicarei o que construo em vidas”, afirma a pesquisadora, que hoje acumula três pós-doutorados pela UFU e uma passagem de pesquisa pela França.
Ciência da UFU ganhou aplicação prática
Segundo Isabela, existe uma diferença significativa entre desenvolver conhecimento acadêmico e levá-lo ao mercado.
Enquanto na universidade o foco está na investigação científica e na validação dos resultados, a inovação exige pensar também em acessibilidade, comunicação, sustentabilidade financeira e adoção da tecnologia pelos profissionais de saúde.
Foi dessa necessidade que nasceu a Reabnet, startup criada a partir de pesquisas desenvolvidas na UFU. A empresa recebeu apoio de instituições como RNP, FINEP e CNPq e foi aprovada no edital SUS Digital 01/2026.

Atualmente, a tecnologia desenvolvida pela pesquisadora uberlandense apresenta os seguintes resultados, segundo dados divulgados pela Reabnet:
- 400+ pacientes atendidos pela plataforma;
- 9 clínicas de reabilitação e 4 hospitais utilizando a tecnologia;
- 9 jogos terapêuticos desenvolvidos para auxiliar no tratamento;
- NPS de 93,3, índice considerado de excelência em satisfação;
- Nenhum evento adverso registrado durante as validações clínicas.
Em estudos realizados em parceria com a UFU e a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), a tecnologia apresentou resultados positivos na reabilitação de pacientes com Parkinson e AVC, com melhora em parâmetros motores, cognitivos, equilíbrio e engajamento durante as sessões.
Outro destaque foi a realização de quase metade das sessões de validação da tecnologia em ambiente domiciliar, indicando a possibilidade de ampliar o acesso ao tratamento fora de hospitais e clínicas.
Como a tecnologia virou ferramenta de reabilitação
O projeto surgiu após anos de estudos utilizando realidade virtual na recuperação de pacientes que sofreram AVC. Inicialmente, os testes utilizavam sensores específicos e equipamentos comerciais, o que limitava o acesso à tecnologia.
A equipe decidiu então eliminar essa barreira. Hoje, a plataforma funciona utilizando apenas a câmera de celulares, tablets ou computadores, dispensando sensores, controles ou equipamentos adicionais.
Com inteligência artificial e visão computacional, os movimentos realizados pelo paciente durante os exercícios são captados automaticamente, permitindo acompanhar sua evolução clínica.
“O meu objetivo sempre foi tornar essa tecnologia acessível. Minha própria avó não conseguiria utilizar o equipamento que existia na época. Isso era algo que precisava mudar e foi o que fizemos”, explica.
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Quando a inovação acelera a recuperação
Diferentemente dos videogames convencionais, os jogos terapêuticos foram desenvolvidos especificamente para atender necessidades clínicas.
Cada exercício é adaptado ao quadro funcional do paciente. Quem precisa recuperar movimentos do braço, por exemplo, realiza desafios que estimulam exatamente essa região.

Conforme pequenos movimentos passam a ser reconhecidos pela plataforma, o paciente recebe retorno visual imediato, aumentando sua confiança durante a terapia.
Segundo a pesquisadora, esse processo favorece a neuroplasticidade — capacidade do cérebro de reorganizar funções após lesões como o AVC.
“Quando o paciente vê na tela o objeto se movendo a partir do comando do seu próprio braço, a percepção de segurança muda. O cérebro encontra caminhos para reorganizar funções perdidas”, explica Marques.
Ela relata que um dos pacientes atendidos não movimentava o braço havia aproximadamente dez anos. Após sete sessões utilizando a tecnologia, conseguiu elevar o membro até a cabeça pela primeira vez desde o acidente.
Com o apoio de instituições como a UFU e de programas de fomento, a exemplo do SUS Digital, pesquisas desenvolvidas em Minas Gerais vêm contribuindo para tornar os tratamentos mais eficazes, ampliar o acesso à inovação e melhorar a qualidade de vida da população.
5 pesquisas brasileiras que viraram soluções conhecidas
A ciência brasileira está presente em tecnologias e soluções que fazem parte da história do país. Confira algumas descobertas e avanços desenvolvidos por pesquisadores:
Neste 8 de julho, o reconhecimento do trabalho de pesquisadores reforça a capacidade da ciência brasileira de transformar criatividade e conhecimento em soluções inovadoras para desafios que impactam a sociedade.
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