Voepass sabia de falha e omitiu, diz relatório do Cenipa; entenda

Relatório final do Cenipa sobre o acidente do voo 2283 revela que falhas na Voepass já ocorriam antes e não eram registradas oficialmente em livro de bordo.

, em Uberlândia

A Voepass já sabia, antes da queda do voo 2283, que a aeronave apresentava problemas ligados ao acúmulo severo de gelo nas asas. É o que aponta o relatório final divulgado nesta quinta feira (23) pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), órgão da Força Aérea Brasileira responsável por investigar ocorrências na aviação civil. Segundo o documento, os problemas já haviam se manifestado em voos anteriores, mas nunca chegaram a ser anotados no livro de bordo do avião, o que permitiu que ele seguisse operando normalmente até o dia da tragédia.

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O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024, quando o ATR 72 500 que fazia a ligação entre Cascavel, no Paraná, e Guarulhos, em São Paulo, perdeu sustentação em pleno voo e caiu sobre um condomínio residencial em Vinhedo, interior paulista. As 62 pessoas que estavam a bordo, entre passageiros e tripulantes, morreram. Foi o desastre mais letal da aviação comercial no país desde a queda do voo 3054 da TAM, em Congonhas, quase duas décadas atrás.

Cultura de informalidade dentro da Voepass

Ao detalhar as conclusões da apuração, o tenente coronel Paulo Fróes explicou que a investigação não se resumiu à análise técnica da aeronave. Os peritos também avaliaram 1.206 voos realizados pela companhia em período anterior ao acidente e identificaram um padrão recorrente: falhas mecânicas eram frequentemente resolvidas de maneira informal, sem qualquer registro oficial, para evitar que os aviões precisassem sair de operação.

O relatório aponta que essa rotina, batizada pelos investigadores de “normalização de desvios”, fazia com que cada tripulação lidasse com os mesmos problemas de formas diferentes, sem um procedimento padronizado. Peças com desgaste ou funcionamento irregular chegaram a ser trocadas entre aeronaves da frota, e serviços de manutenção eram, em algumas situações, conduzidos por auxiliares sem a supervisão adequada de mecânicos habilitados.

Panes conhecidas e nunca comunicadas

De acordo com o relatório, a mesma aeronave que caiu em Vinhedo já havia apresentado ocorrências relacionadas ao sistema de proteção contra gelo nos três voos que antecederam o acidente. Mesmo assim, nenhuma dessas falhas foi formalmente reportada. Fróes destacou ainda que, um dia antes da tragédia, o avião já havia enfrentado o mesmo tipo de problema, batizado tecnicamente de airframe icing, sem que isso fosse anotado pela tripulação responsável.

O sistema de alarme que deveria alertar sobre a falha no degelo também não chegou a ser acionado durante os voos anteriores, segundo os investigadores. Outro ponto citado foi a existência de um voo anterior em condição de estol que nunca havia sido comunicado à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), apesar de esse tipo de notificação ser obrigatório por lei.

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O que o relatório do Cenipa diz sobre o acidente

Na avaliação dos investigadores, a queda do voo 2283 não pode ser atribuída a um único erro isolado, mas sim a uma sequência de falhas operacionais e de supervisão que se acumularam ao longo do tempo. Durante o próprio voo, os pilotos perceberam sinais repetidos de formação de gelo, mas demoraram para agir de maneira consistente diante do problema.

Segundo a apuração, o sistema antigelo da asa direita apresentava funcionamento irregular, e os alertas relacionados a ele surgiram enquanto a tripulação conversava sobre outros assuntos, o que sugere uma perda de atenção operacional em um momento crítico do voo. A investigação também apontou alta carga de trabalho e excesso de estímulos na cabine, fatores que, somados à cultura organizacional da empresa, teriam contribuído para o que os peritos chamaram de espécie de surdez e cegueira operacional diante dos sinais de alerta.

Fróes explicou que o trabalho de apuração envolveu a leitura das caixas pretas da aeronave, perícias em motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol, análise das condições climáticas do dia e entrevistas com pessoas ligadas à operação do voo. Ele reforçou que investigações técnicas conduzidas pelo Cenipa têm caráter preventivo e não têm como objetivo apontar culpados, já que o órgão não define responsabilidades civis nem criminais.

A tragédia que motivou a investigação

A queda que deu origem a todo esse processo de apuração aconteceu num fim de tarde de agosto de 2024. O avião, modelo ATR 72 500 de prefixo PS VPB, seguia de Cascavel rumo ao aeroporto de Guarulhos quando se desestabilizou no ar e despencou sobre uma área residencial de Vinhedo, no interior paulista, atingindo o quintal de uma casa dentro de um condomínio. Ninguém que morava no imóvel se feriu, mas nenhuma das 62 pessoas que estavam dentro do avião, entre passageiros e tripulantes, sobreviveu ao impacto, no que se tornou o pior desastre da aviação comercial brasileira em quase vinte anos.

Relatório detalha acidente com voo da Voepass que aconteceu em Vinhedo (SP), am agosto de 2024
O voo 2283  perdeu sustentação após o acúmulo severo de gelo nas asas, caindo e matando 68 pessoas – Crédito: Divulgação/Secretaria de Segurança de São Paulo

Para quem quiser acompanhar de perto o papel do órgão responsável por esse tipo de apuração no país, o Cenipa mantém informações institucionais sobre suas investigações em seu site oficial, vinculado à Força Aérea Brasileira.

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O que ainda falta esclarecer sobre o caso

Enquanto o Cenipa encerra sua etapa de investigação preventiva, um segundo braço da apuração corre em paralelo: o da Polícia Federal, que tenta determinar se houve conduta criminosa e quem, dentro da cadeia de comando da empresa, pode vir a responder por isso. Diferentemente do órgão da Aeronáutica, a PF tem justamente essa atribuição, a de apurar responsabilidades individuais, e caminha para fechar seu inquérito nas próximas etapas, com envio posterior do material ao Ministério Público Federal para uma possível denúncia.

Um capítulo sensível dessa apuração criminal já chegou às famílias das vítimas semanas antes da divulgação do relatório técnico. Ainda em junho, elas tiveram acesso ao conteúdo das gravações feitas dentro da cabine do avião nos minutos que antecederam a queda. Esse material, produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística, é peça central do inquérito policial e deve ajudar a esclarecer se a tripulação chegou a acionar o sistema de degelo da aeronave antes do desastre.

Há ainda uma terceira frente que deve se abrir assim que a apuração da Polícia Federal for concluída: a de indenizações. Representantes das famílias já sinalizam que pretendem buscar, por meio de uma ação coletiva, reparação por danos morais. Segundo o advogado que atua no caso, essa iniciativa não elimina as ações individuais movidas até aqui, mas soma forças para responsabilizar civilmente todos os envolvidos na tragédia, sejam empresas, sejam pessoas físicas.

Para mais atualizações sobre o caso, acompanhe o Portal Paranaíba Mais.