Violência sexual na internet atinge 1 em cada 5 adolescentes

Relatório revela que violência sexual na internet impacta cerca de 3 milhões de jovens no Brasil e expõe falhas na prevenção, denúncia e acolhimento das vítimas

, em Uberlândia

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A violência sexual na internet alcança um em cada cinco adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos. O dado representa aproximadamente 3 milhões de meninas e meninos que sofreram algum tipo de abuso ou exploração sexual em ambiente digital ao longo de um ano, segundo o relatório Disrupting Harm in Brazil, divulgado pelo Unicef em parceria com a ECPAT International e a Interpol, com financiamento da Safe Online.

Violência sexual na internet atinge 1 em cada 5 adolescentes
– Marcello Casal JR/ Agência Brasil

A pesquisa ouviu mais de mil adolescentes e o mesmo número de pais e responsáveis em todo o país. O estudo investigou situações em que tecnologias digitais foram usadas para aliciar, extorquir, produzir, armazenar ou disseminar material de abuso, tanto em interações exclusivamente virtuais quanto em casos que combinaram encontros presenciais com uso da internet.

A forma mais frequente de violência sexual na internet foi a exposição a conteúdo sexual sem consentimento, relatada por 14% dos entrevistados. Especialistas apontam que esse tipo de abordagem costuma funcionar como porta de entrada para outras agressões, ao tentar naturalizar o contato com material íntimo e reduzir a resistência da vítima.

Além disso, 9% dos adolescentes receberam pedidos para enviar imagens íntimas, 5% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca desse tipo de conteúdo e 4% sofreram ameaças de divulgação de fotos ou vídeos. O levantamento também identificou casos de manipulação de imagens com uso de inteligência artificial, prática que atingiu 3% dos entrevistados no período analisado.

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Como a violência sexual na internet começa

Em 66% dos relatos, a violência sexual na internet ocorreu exclusivamente em meios digitais. Redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de jogos aparecem como principais canais de contato. Entre eles, o Instagram e o WhatsApp foram os mais citados como ferramentas usadas pelos agressores.

De acordo com especialistas que acompanham o tema, o agressor costuma procurar perfis abertos, iniciar conversas aparentemente inofensivas e construir um vínculo de confiança. Depois, migra para ambientes mais reservados, onde tenta aprofundar o controle sobre a vítima e ampliar as exigências.

O estudo também mostra que o risco não se limita a desconhecidos. Em 49% dos casos, o autor da violência era alguém do convívio do adolescente, como amigo, namorado, familiar ou pretendente. Entre essas situações, mais da metade dos primeiros contatos ocorreu online, mas houve abordagens iniciais na escola e até dentro de casa.

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Silêncio, medo e desinformação

Um dos dados mais preocupantes envolve o silêncio das vítimas. Um terço dos adolescentes que sofreram violência sexual na internet não contou o ocorrido a ninguém. Muitos afirmaram não saber a quem recorrer ou onde buscar ajuda. Outros citaram vergonha, medo de não serem acreditados ou receio de represálias.

A pesquisa revela ainda que 15% das vítimas não sabiam que as situações vividas configuravam crime. Em 12% dos casos, os adolescentes consideraram que o episódio não era grave o suficiente para denúncia. O resultado indica um processo de banalização da violência online e reforça a necessidade de informação clara sobre direitos e canais de proteção.

Por outro lado, entre os que relataram ter contado a alguém sobre a violência sofrida, a maioria (24%) disse ter procurado um amigo. Apenas 12% recorreram à mãe ou a outra mulher que exerça função de cuidadora, enquanto 9% afirmaram ter buscado apoio do pai ou de um homem em papel semelhante.

Impactos na saúde e na educação

A violência sexual na internet deixa marcas profundas. O relatório aponta prejuízos à saúde mental, ao desempenho escolar e ao bem-estar emocional. Muitas vítimas relatam ansiedade constante, medo de exposição e sensação de culpa, especialmente nos casos em que compartilharam imagens antes das ameaças.

Os dados indicam que adolescentes que sofreram esse tipo de violência apresentam índices mais elevados de sofrimento psíquico e risco de comportamentos autolesivos. A pesquisa aponta que as vítimas apresentam níveis mais elevados de ansiedade e têm mais de cinco vezes mais probabilidade de praticar automutilação ou de manifestar pensamentos e tentativas de suicídio. O impacto atinge tanto meninas quanto meninos.

Uso intenso da internet amplia vulnerabilidade

O acesso à internet é praticamente universal entre os adolescentes entrevistados. Quase metade afirmou poder usar a rede a qualquer momento, enquanto apenas uma minoria relatou restrições frequentes impostas por pais ou professores. Nesse cenário, 37% disseram ter sido expostos acidentalmente a conteúdo sexual, sobretudo por meio de publicações em redes sociais e anúncios.

Especialistas alertam que a combinação entre acesso irrestrito, falta de orientação e atuação estratégica de agressores cria um ambiente propício para a violência sexual na internet se espalhar de forma silenciosa.

Caminhos para enfrentar a violência sexual na internet

O relatório apresenta recomendações para diferentes setores da sociedade. O poder público deve fortalecer o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, padronizar protocolos de atendimento e atualizar legislações diante das novas tecnologias.

Escolas precisam incluir educação sobre consentimento e proteção digital no currículo e capacitar profissionais para identificar sinais de abuso. Famílias devem priorizar o diálogo, a escuta ativa e a orientação sobre autonomia corporal e relações saudáveis.

Empresas de tecnologia, por sua vez, têm o desafio de ampliar mecanismos de segurança e cooperar entre si para prevenir e responder rapidamente a denúncias. Já a sociedade em geral precisa divulgar canais acessíveis de denúncia e romper a cultura de culpabilização das vítimas.

Para especialistas envolvidos no estudo, enfrentar a violência sexual na internet exige ação coordenada. Só com informação, acolhimento e responsabilização efetiva dos agressores será possível garantir que crianças e adolescentes exerçam seus direitos no ambiente digital com segurança e dignidade.