Celulares nas escolas: um ano após restrição, redes apontam mais atenção e sociabilidade

Restrição aos celulares redefine relações dentro da escola e reacende debate sobre o papel das famílias na educação digital

, em Uberlândia

Há um ano está restringido o uso de celulares nas escolas do Brasil. Segundo o Ministério da Educação (MEC), a Lei n° 100/2025 foi criada em um contexto de crescente preocupação com os efeitos do uso excessivo e desregulado do celular no ambiente escolar. Um ano depois da aplicação, representantes de escolas municipais, estaduais e particulares em Uberlândia apontam para uma melhora no ambiente escolar. 

Celulares nas escolas
– Crédito: Freepick

O levantamento mais recente do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa 2022) revela um dado preocupante: quatro em cada cinco alunos brasileiros admitem que o celular atrapalha a atenção durante as aulas de matemática. O índice reacende a discussão sobre a adoção de regras mais claras para o uso de dispositivos eletrônicos nas escolas.

Pesquisa realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados em 2024 indica que 86% dos brasileiros apoiam a restrição do uso de celulares nas escolas. Segundo o levantamento, 54% defendem a proibição total dos aparelhos no ambiente escolar, enquanto 32% são favoráveis à liberação apenas para atividades pedagógicas autorizadas por professores.

O tema também foi abordado na escuta pública “O que crianças e adolescentes têm a dizer sobre telas?”, organizada pelo Instituto Alana em parceria com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e o Governo do Reino Unido. Entre os relatos reunidos, estudantes apontaram que a falta de limites no uso das telas interfere diretamente na concentração e no desempenho escolar.

Apesar das discussões sobre limites, a legislação não veta o uso de celulares nas escolas. O texto prevê restrições específicas, com foco na proteção dos estudantes, mas autoriza a utilização dos aparelhos para atividades pedagógicas, recursos de acessibilidade, inclusão, cuidados de saúde e garantia de direitos fundamentais.

O processo, já consolidado, também não aconteceu da noite pro dia. A forma de restringir e controlar o uso de celulares varia de escola para escola. As orientações para implementação da lei também variam de acordo com a rede educacional, encontrando diferentes formatos na rede estadual, municipal e particular.

Sem celulares nas escolas: implementações e estratégia

Segundo Diego Resende Martins, diretor da Escola Municipal Professor Eurico Silva de Uberlândia, sua escola já avançou muito e há poucos casos de uso de celular. Segundo ele, a estratégia adotada foi a de fiscalização e acompanhamento. Durante o recreio, profissionais da escola acompanham os alunos.

Para a aplicação, o diretor descreve que houve bastante conversa. “Foi feito um trabalho intenso com as famílias nas reuniões de pais, especialmente para conscientizar sobre essa nova realidade. O retorno foi bastante positivo”, conta.

“Muitos pais aproveitaram a medida para também impor limites em casa, já que há casos de alunos que passam a madrugada jogando no celular. Para manter o contato, qualquer necessidade é resolvida por meio da secretaria da escola. Se o aluno precisar falar com os pais, a escola intermedia. O caminho inverso também funciona da mesma forma”, explicou Diego.

Na E. M. Professor Eurico Silva, além das restrições, também foram adotadas ações de educação midiática, sobre internet e redes sociais. “Foi realizado um trabalho sobre fake news, além de uma campanha chamada CyberLab Udi, focada principalmente em cyberbullying. O objetivo foi conscientizar alunos e famílias sobre os riscos e crimes que podem ocorrer no ambiente digital”, contou Diego.

Carla Barbosa, diretora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, explica que as orientações às escolas foram no sentido de reunir com os pais para não enfrentar resistência e tranquilizar em relação à comunicação em família, e construir um ambiente possível para restringir os celulares nas escolas.

Quando a lei veio nós orientamos as escolas a se reunir com as famílias. Porque tem pai e mãe que querem que o filho esteja o tempo inteiro em contato. Então, a gente sabe que também é uma via de mão dupla. Essa conscientização foi primordial. Se vocês perguntarem para mim se a secretaria teve muita reclamação, junto com a inspeção, nós não tivemos”, contou Carla Barbosa.

Tanto Diego quanto Carla disseram à reportagem que o apoio das famílias é considerado fundamental. Os problemas que ainda surgem, segundo eles, geralmente estão ligados à falta de acompanhamento familiar. “A participação dos pais na vida escolar é decisiva para o sucesso do estudante”, frisa Carla.

Na rede estadual, outras abordagens foram encontradas. Na Escola Estadual Messias Pedreiro, por exemplo, foi instalado uma caixa para guardar celulares ainda em 2025, trancada com cadeado. “Os alunos pegam, deixam o celular, trancam e no final da aula abrem para recolher”, explicou Miriam Antônia, diretora da unidade.

 

Caixa para guardar celulares nas escolas, estratégia utilizada na Messias Pedreiro
Estratégia adotada pela Escola Estadual Messias Pedreiro – Crédito: Miriam Antônia

Vale ressaltar que esta estratégia foi tomada na unidade escolar. A reportagem pediu à Secretaria de Educação de Minas que enviasse quais foram as orientações do Estado, a respeito da aplicação da lei que restringe celulares nas escolas, mas não obteve resposta. “É claro que no início, houve muita resistência e os alunos, como eu mesmo, a gente nem pode falar, todo mundo é muito apegado, muita dificuldade pra deixar o celular”, explicou Miriam.

Cada sala possui uma caixa específica. A escola tem câmeras em todas as salas, inclusive voltadas para a área da caixa, para garantir segurança. “Nunca tivemos problemas de furto, embora já tenha acontecido de algum aluno esquecer o aparelho ou tentar guardar um celular antigo e manter o pessoal consigo. No ano passado recolhemos vários aparelhos por descumprimento da regra”, contou.

Segundo Miriam, a maioria dos pais apoiou a medida. Caso algum pai precise falar com a família, a própria escola faz contato. “Além disso, a gente tem um contato com o pai pelo WhatsApp, porque nós temos um grupo aqui na escola, pais, alunos e toda a equipe administrativa pedagógica”, contou.

A mesma estratégia foi utilizada em uma escola da rede particular de Uberlândia. Fernanda Pires, diretora e professora no Instituto Santa Mônica, conta que também tiveram que adotar uma “caixa organizadora”. “A gente deu para eles essa opção de guardar e deixar na mochila, desligado. Mas sempre alguns não cumpriam as regras. Então aí, quando acontecia de usarem, a gente pegava uma caixa organizadora e recolhia todos os telefones. Eles entregavam pra gente assim com um olhar de ódio, de raiva. Como se aquilo ali fosse um parente próximo, uma parte do corpo”. 

“No início foi bem desafiador, teve resistência, questionamento, mas, ao passar as semanas foi melhorando. Nós sempre nos reunimos e explicamos para os pais que era proibido o celular. Então, quem tivesse a necessidade de entrar em contato com o filho, disponibilizamos os contatos da escola, que poderiam estar ligando”, contou Fernanda.

Fim dos celulares na escola: mais atenção e sociabilidade

Ao serem questionados sobre o impacto das restrições de celulares nas escolas, todos os entrevistados levantaram pontos importantes: uma melhora na relação dos professores com os alunos, no desempenho escolar e na sociabilidade entre os próprios alunos.

“Antes da legislação, havia muita dispersão. Os alunos perdiam o foco, os professores tinham dificuldade para lidar com a situação. Muitos estudantes deixavam o celular sobre a mesa enquanto o professor dava aula, porque acreditavam que não poderiam perder algo ‘mais importante’ que chegasse pelo aparelho”, contou Diego, da rede municipal.

Segundo o diretor, a relação entre professor e aluno também se fortaleceu. Antes, o professor competia com notificações, redes sociais e pesquisas instantâneas. Hoje há mais contato olho no olho, mais respeito ao momento da aprendizagem.

“Fizemos uma pesquisa no final do ano passado. A maioria das respostas que nós tivemos é que foi tranquilo. E as famílias, muitas delas, corroboraram com isso. O uso está tão excessivo, tão excessivo, que lá na escola não é lugar para isso. Então, a nossa orientação sempre foi nessa direção. Por exemplo, eu preciso falar com o meu pai, eu preciso ligar para o meu pai”, contou Carla Barbosa. 

Miriam, da rede estadual, relata o mesmo comportamento em sua unidade. “Os professores relatam melhora significativa. Diminuiu a disputa em sala por causa de jogos e mensagens. Uma aluna chegou a dizer que, sem o celular, passou a copiar mais e a estudar. O desempenho acadêmico melhorou bastante, embora ainda haja pontos a evoluir”.

Mais de 80% dos estudantes brasileiros dizem que passaram a prestar mais atenção nas aulas após a restrição ao uso de celulares nas escolas. O impacto é mais expressivo nos anos iniciais do Ensino Fundamental I, etapa em que 88% afirmam estar mais concentrados. No Ensino Médio, 70% relatam melhora na atenção sem os aparelhos.

Os dados integram levantamento realizado pela Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o Equidade.info, iniciativa do Lemann Center da Stanford Graduate School of Education.

O estudo também aponta reflexos no ambiente escolar: 77% dos gestores e 65% dos professores perceberam redução do bullying virtual nas escolas. Entre os estudantes, porém, apenas 41% disseram notar essa diminuição, o que pode indicar que parte dos episódios não é comunicada ou não chega ao conhecimento de educadores e direções.

No recorte regional, o Nordeste aparece com o maior percentual de melhora no comportamento dos alunos, com 87%. Já Centro-Oeste e Sudeste registraram os menores índices, ambos com 82%, sugerindo que os efeitos das medidas variam de acordo com fatores locais.

Segundo a Secretaria de Educação do Estado, os resultados observados têm sido significativos. Em nota, o órgão informou que “os resultados observados desde então indicam impactos positivos no ambiente escolar. Professores e estudantes relatam melhora na atenção e na concentração durante as aulas, bem como avanços na convivência e na socialização presencial”.

Para Miriam, no entanto, o ponto mais importante da mudança foi a sociabilidade entre os alunos. “Durante o recreio, vemos rodas de conversa, alunos lendo, interagindo. Sem o celular, são cinco horas a menos por dia de exposição contínua às telas dentro da escola”, contou.

Segundo Miriam, na rede estadual ainda se enfrenta dificuldades para restringir o uso do aparelho. Ao mesmo tempo, já diminuíram casos problemáticos como sites adultos e de aposta nas escolas, algo que, antes da lei, era observado em casos isolados, mas de certa recorrência.

Tanto na rede municipal quanto estadual, um “novo hábito” chamou atenção dos gestores: os alunos voltaram a ler. “A escola já percebe maior interação social. Muitos alunos passaram a trazer livros de casa para ler no recreio, algo que não acontecia antes”, relatou Diego. 

“E houve também muitos impactos positivos. Hoje eles sentam, conversam, brincam entre eles. Coisa que não acontecia, porque era cada um no seu mundinho ali, sentado na arquibancada, mexendo no telefone ou jogando. Hoje não. Hoje eles interagem bem na hora do lanche, é um ambiente tranquilo”, relatou Fernanda, da rede particular. 

O uso pedagógico de celulares nas escolas

Ainda em nota, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais manifestou que a Lei Federal nº 15.100/202 também fortaleceu o planejamento das escolas quanto ao uso pedagógico das tecnologias digitais. Segundo o órgão, a lei permitiu que as escolas priorizassem os momentos estruturados e orientados pelos professores do uso da tecnologia. “Dessa forma, o uso do celular passou a ter caráter educativo e supervisionado, o que contribui para a redução de distrações e conflitos”, aponta a secretaria em nota. 

Segundo Miriam Antônia, em sua unidade da rede estadual os alunos utilizam, por meio do celular pessoal, plataformas digitais para atividades, avaliações e simulados. “Quando necessário para fins pedagógicos, os celulares são liberados sob supervisão. O acesso ocorre pelo e-mail institucional”.

“Então, o professor, no uso de atividades, abre a caixinha, os alunos pegam o celular, usam e depois devolvem. Inclusive, tem internet aqui na escola. A gente tem a plataforma do Classroom. Lá, o professor coloca todas as atividades que ele elabora para os alunos”, contou a diretora. 

Na rede municipal, no entanto, os gestores escolares encontraram outra forma de introduzir a tecnologia e as ferramentas digitais no ambiente pedagógico. A rede de Uberlândia conta com equipamentos, como tablets e notebooks, para trabalhar neste sentido, sem que haja a permissão do uso de um aparelho pessoal. 

“O celular, no último ano, a gente não usou, para não confundir a cabeça. A escola tem uma série de equipamentos disponíveis para isso. E há um trabalho na escola também com o centro de tecnologia que a gente tem, de inteligência artificial, uso de drones, robótica”, explicou Diego.

 

EM Prof Eurico Silva
Escola Municipal Prof Eurico Silva – Crédito: Google Maps

Ele conta que, para evitar que os alunos fiquem “confusos” com o permitir e não permitir o uso, optaram por outras tecnologias, de propriedade da escola. Por meio delas, avaliações e atividades são aplicadas aos alunos, que saem de suas salas e vão para um laboratório de informática. 

Após um ano, ainda existem barreiras 

Apesar de uma percepção de melhora quase unânime, o processo de restringir o uso de celulares nas escolas ainda encontra algumas dificuldades. Parte delas, no comportamento dos alunos e, de outro, a presença persistente do ambiente digital.

Diego conta que, em sua escola, ainda existem conflitos que começam nas redes sociais, e que acaba sendo responsabilidade da escola mediar. “Por exemplo, à noite o menino está lá, entra na rede social na casa dele, posta uma ofensa contra um outro estudante que é da escola. No outro dia os pais dos dois estão lá. E a gente tem que resolver, não adianta”.

De acordo com o levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação, 44% dos alunos afirmaram sentir mais tédio durante os intervalos e recreios após a restrição ao uso do celular. O percentual é maior entre estudantes do Ensino Fundamental I, com 47%, e entre aqueles do período matutino, que somam 46%.

Entre os professores, 49% relataram aumento da ansiedade dos alunos com a ausência dos aparelhos, indicando que a medida também produz efeitos comportamentais que vão além da sala de aula.

Miriam conta que, no Messias Pedreiro, os alunos não gostam totalmente da regra, mas estão aprendendo a conviver com ela. “É uma questão de conscientização e cumprimento da lei. O saldo, até agora, é muito mais positivo do que negativo”, diz.

A mesma posição se encontra na rede municipal. Carla Barbosa conta que o avanço foi relevante, mas que ainda existem poucos casos de alunos usando de maneira indevida. “É algo ainda recente, temos apenas um ano de legislação e ainda há desafios, principalmente nos espaços de convivência, como quadra e recreio. Ainda vemos alguns casos de alunos que não entenderam completamente a regra”.

Qual a opinião dos pais sobre os celulares nas escolas?

Para Michelly Moreira, a restrição dos celulares na escola é algo contraditório e complexo. Para ela, muito do que acontece na escola é um reflexo da educação que se dá em casa, e que os limites impostos à sua filha, de 15 anos, deve ser algo feito, primeiro, em casa.

É por isso que eu fico assim me perguntando, até que ponto a proibição por si só realmente resolve a questão. É no contexto assim que eu vivo com a Verena, que é minha filha, eu percebo que o nosso diálogo e a orientação tem um peso muito maior do que simplesmente para proibir”, contou. 

Verona, sua filha, sempre gostou de ler, mas agora ela percebe claramente que, “quando o uso do celular está mais equilibrado, ela consegue ficar mais tempo concentrada nos livros. Fica mais envolvida na história, mais interessada. A pausa no celular ajuda, e ajuda muito”.

Segundo ela, mais importante do que restringir o celular, é criar senso crítico e de responsabilidade. Ela reconhece o poder de distração que existe nos celulares nas escolas. “Por isso, acredito que a restrição não é sobre proibir por proibir, mas sobre criar um ambiente mais propício ao aprendizado. É uma tentativa de proteger o espaço da escola como lugar de atenção, troca e construção de conhecimento”, observa.

Na mesma linha, Mirian Araújo se coloca favorável à lei, mas também aposta em uma postura dentro de casa. Seus filhos, de 8 e 10 anos, não possuem celulares. “Ter um celular é uma grande responsabilidade, mas também é um mecanismo que pode ser usado para desviar a atenção deles não só de estudo, quanto para outras coisas que não são interessantes agora”.

Para Mirian, não permitir que seus filhos tenham celulares possibilita que eles foquem a atenção em coisas da sua idade, como brincadeiras, jogos, música e esportes. “Aqui em casa funciona assim, a gente deixa eles jogarem alguns joguinhos que autorizamos no celular, que nem se compara com Roblox [plataforma de jogos online]. Uma vez ou outra na semana, eu deixo eles jogarem um pouquinho no meu celular”, contou.