“Só cabe a você se salvar”: ex-fumantes relatam luta e superação ao pararem de fumar
O dia 29 de agosto é marcado pelo Dia Nacional de Combate ao Fumo; os desafios da abstinência, perdas de liberdade e a busca por ajuda médica são alguns dos relatos de quem passou pelo vício
Foram dez anos dependente do cigarro de palha até que o agravamento de problemas respiratórios acenderam o sinal de alerta para Bruno Borges, de 29 anos. O estresse do trabalho e da faculdade o levou ao vício aos 17 anos, mas a decisão de mudar de vida veio acompanhada de apoio profissional na rede pública de saúde.
“O tabagismo me fez ficar sedentário, não tinha apetite, e isso me fazia comer muito mal, e agravou meus problemas com a asma. Até afetou um pouco a relação com meus amigos porque muitos não suportavam o cheiro e acabavam se afastando de mim”, relata.
Já Zélia, que é psicóloga e ex-professora aposentada, fumou por mais de 50 anos, desde os 18. Ela conta que, embora o cigarro não tivesse abatido sua saúde física diretamente, a dependência acabou com sua liberdade social.
“Em reuniões ou qualquer evento, eu não tinha espaço para fumar e aquilo me dava uma ansiedade muito grande, uma tristeza. Comecei a ter uma baixa autoestima porque achava que não conseguia me libertar. O cigarro já não me dava prazer, mas eu não conseguia me libertar do vício”, desabafa.

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
As histórias de Bruno e Zélia ilustram uma realidade nacional lembrada neste Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto. Dados do inquérito Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que a proporção de fumantes adultos no Brasil subiu para 11,7% em 2024, após anos de queda.
O avanço do tabagismo ainda é impulsionado pelo uso de dispositivos eletrônicos entre jovens de 18 a 24 anos. Diante desse cenário, a busca por tratamento gratuito nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) dobrou nos últimos anos, alcançando 2,1 milhões de atendimentos em 2025.
O perigo invisível para o coração
Embora a associação mais imediata ao cigarro seja o câncer pulmonar, o impacto no sistema cardiovascular é igualmente devastador. A cardiologista Ludmila Gonçalves Freitas explica que o tabagismo aumenta de 2 a 4 vezes o risco de infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC).
“O câncer de pulmão é de fato a associação mais imediata quando se pensa em cigarro, mas não é a única e nem, isoladamente, a principal. As doenças cardiovasculares são a maior causa de morte no mundo, e o tabagismo aumento de 2 a 4 vezes o risco de AVC e Infarto”, explica.

A médica ainda ressalta como os riscos do vicío vêm de forma silenciosa, uma vez que os problemas vão se acumulando ao longo dos anos. “Os agentes tóxicos do cigarro, como a nicotina e as milhares de toxinas presentes ali, atuam inflamando os vasos, causando endurecimento em suas paredes e tornam o sangue mais propenso à formação de coágulos. Isso ao longo dos anos vai se acumulando, ou seja, o cigarro está ali causando lesões nos vasos, mas essas alterações só serão sentidas quando de fato causarem infarto ou AVC.”
Não existe quantidade segura de cigarro
Segundo a cardiologista, não existe dosagem segura. “Mesmo quem fuma menos de 5 cigarros por dia já apresenta sinais precoces de danos nos vasos. Para quem fuma muito, claro que tenho que dizer que fumar menos é melhor que fumar mais, mas o risco cardiovascular continua muito acima de quem não fuma”.
Ludmila também explica que a recuperação do organismo começa logo nos primeiros minutos sem fumar. Com 20 minutos de abstinência, a frequência cardíaca cai; após 12 horas, o monóxido de carbono no sangue se normaliza; e em 5 anos, o risco de AVC passa a ser o mesmo de quem nunca fumou.
Terapias integrativas auxiliam no processo de transição
Durante o período de abstinência, métodos complementares ajudam a amenizar os sintomas físicos e emocionais da retirada da nicotina. A acupunturista Valéria Pandolfi Dumont explica que a laser acupuntura é uma das ferramentas utilizadas para proporcionar relaxamento e auxiliar no controle da vontade de fumar.
“O objetivo do tratamento é auxiliar no controle da vontade de fumar e proporcionar maior sensação de relaxamento e bem-estar durante o período de abstinência. O método pode ser um recurso complementar para quem está decidido a deixar o cigarro, especialmente quando associado à orientação e ao acompanhamento adequado”, ressalta a profissional.

Valéria ainda destaca que a laser acupuntura não modifica, sozinha, os hábitos e comportamentos relacionados ao tabagismo. “O paciente participa ativamente de todo o processo. Durante o acompanhamento, recebe orientações sobre a abstinência, os hábitos associados ao cigarro e estratégias que podem contribuir para uma nova rotina”, pontua.
Foi esse método que salvou a qualidade de vida de Zélia prestes a fazer uma viagem internacional. Sem conseguir parar por outros métodos, ela buscou o tratamento com laser.
“No primeiro encontro, recebi uma energia profunda. Sentia minha alma separada do meu corpo, era uma sensação que eu não queria que parasse. Tem apenas 5 meses que parei de fumar, mas sinto que tem mais tempo, pois não tenho vontade de fumar. A vida para mim ganhou um novo ritmo. Não preciso mais da dopamina do cigarro para aliviar meus medos e encontrei outras motivações que me trouxeram mais lucidez”, conta.
Tratamento no SUS também é uma saída
Para quem busca abandonar o vício pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima, onde o cidadão tem acesso gratuito a grupos de apoio, orientações multidisciplinares e medicamentos como adesivos e gomas de nicotina.
Foi exatamente esse caminho que garantiu o sucesso de Bruno Borges na luta contra o tabagismo. “Eu já sabia das propagandas contra o tabagismo pelas redes sociais e dei uma pesquisada para entender como funcionava o tratamento. O tratamento é muito tranquilo com reuniões semanais com diversos especialistas de várias áreas, como nutricionista, psicólogo, médico, dentista e eles nos ajudavam a fazer a adaptação de uma forma mais tranquila e eficaz”, explica.
Leia mais! Do HIV ao câncer: os avanços da medicina e o futuro que já começou
Ex-fumantes venceram a dependência com apoio
Ao optar por abandonar o cigarro, o paciente inicia uma jornada de transformação que vai muito além de evitar doenças: trata-se de redefinir a própria relação com o bem-estar e o futuro. Como resume a acupunturista Valéria Pandolfi Dumont, o esforço vale a pena em cada etapa do processo, pois “parar de fumar é um ato de amor-próprio, cuidado e respeito pela própria vida.”
Essa transformação traz mensagens de esperança de quem viveu na pele a superação. Bruno destaca que quando se trata do vício em cigarro “só cabe a você se salvar. Nesses momentos é importante a gente pensar na nossa saúde e também nos nossos familiares e amigos”.
E Zélia deixa um recado para quem ainda busca forças para abandonar o cigarro: “Hoje eu acredito que o cigarro ou outra droga qualquer é um vício que pode ser vencido e abandonado quando encontramos alguém que realmente está ali para te ajudar e te convencer de que você é capaz de viver sem anestesiar a dor. Você é capaz de ser feliz e autoconfiante sem precisar dessa bengala. Sou capaz de ser feliz sem a companhia do cigarro”, conclui.
Para acompanhar outras matérias sobre saúde e comportamento, ou ler mais notícias do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, acesse o portal Paranaíba Mais.