Setembro Amarelo: por que ter alguém para conversar pode proteger a saúde mental?

Especialistas apontam que a qualidade dos vínculos afetivos é determinante para a estabilidade emocional, reforçando que a escuta qualificada previne transtornos psicológicos

, em Uberlândia

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Em um cenário marcado pela hiperconectividade e por rotinas cada vez mais aceleradas, a busca por curtidas e conexões rápidas tem mascarado uma epidemia silenciosa: a solidão crônica. No contexto do Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção ao suicídio e aos cuidados com a saúde mental, especialistas alertam que a qualidade dos vínculos afetivos é um dos pilares mais determinantes para a estabilidade emocional e a prevenção de transtornos psicológicos.

Setembro Amarelo
Especialistas destacam que ter com quem contar e cultivar conversas verdadeiras atua como um escudo para a saúde mental – Crédito: Freepik/Reprodução

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O papel dos vínculos na saúde mental

Pesquisas recentes reforçam que a falta de uma rede de apoio sólida intensifica o sofrimento psíquico, tornando adversidades cotidianas muito mais difíceis de suportar.

Em contrapartida, cultivar amizades verdadeiras e espaços de escuta qualificada atua diretamente na regulação emocional e na construção da autoestima.

Um estudo da AARP Research, realizado com quase 1.500 adultos, apontou que 95% dos entrevistados consideram os amigos essenciais para uma vida feliz e saudável.

O levantamento também identificou que, embora muitas pessoas continuem abertas a fazer novas amizades, estabelecer esses vínculos pode se tornar mais difícil ao longo da vida.

Para a psicóloga Mariana Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário de Itaperuna, a necessidade de pertencer a um grupo está entre as necessidades humanas fundamentais.

“As pessoas são, por natureza, seres relacionais e dependem do contato com o outro desde o nascimento não apenas para sobreviver fisicamente, mas também para desenvolver a identidade, aprender a regular as emoções e construir a autoestima”, explica.

Amizade não é apenas companhia

As relações de amizade podem cumprir funções que vão além de compartilhar momentos de lazer. Segundo Mariana, vínculos baseados em confiança e reciprocidade oferecem um espaço no qual a pessoa consegue falar sobre dificuldades sem necessariamente se sentir julgada.

“As amizades verdadeiras são espaços de segurança emocional. São relações em que podemos celebrar conquistas sem receio de despertar inveja, dividir dificuldades sem medo de julgamentos e demonstrar fragilidade sem sentir vergonha. Um bom amigo não elimina nossos problemas, mas torna o peso deles mais suportável”, afirma.

Essa rede, entretanto, não substitui acompanhamento profissional quando ele é necessário. O papel dos amigos e familiares é oferecer presença, escuta e acolhimento — e também perceber quando o sofrimento ultrapassa aquilo que pode ser enfrentado apenas com apoio informal.

Estar sozinho é diferente de sentir solidão

Outro ponto importante para compreender a saúde mental é diferenciar solidão e solitude.

Estar sozinho não significa necessariamente estar mal. A solitude corresponde a um período voluntário de recolhimento, que pode favorecer o autoconhecimento, a criatividade e a reflexão.

Já a solidão está relacionada à percepção de ausência de conexões significativas. A pessoa pode desejar proximidade, mas sentir dificuldade para estabelecer relações nas quais exista confiança, compreensão e segurança.

“Estar sozinho por escolha pode ser extremamente positivo para o autoconhecimento e o equilíbrio emocional. A solitude é um momento de encontro consigo mesmo”, explica Mariana.

Segundo ela, a diferença está principalmente na forma como esse afastamento é vivido. Enquanto a solitude pode ser uma escolha saudável, a solidão tende a provocar sofrimento quando existe desejo de conexão, mas falta uma rede na qual a pessoa se sinta acolhida.

O isolamento também pode ser sinal de sofrimento

Para a psicóloga e psicanalista de Uberlândia Fernanda Tavares, discutir solidão e isolamento é importante porque essas experiências podem revelar dificuldades na relação do indivíduo consigo mesmo e com outras pessoas.

“Quando o isolamento se instala ou a solidão se torna muito dolorosa, pode haver uma ruptura no laço social. Falar sobre isso abre espaço para nomear o desamparo, permitindo que a dor saia do corpo e do sintoma e ganhe o registro da palavra”, afirma.

Nesse contexto, falar sobre o que está acontecendo deixa de ser apenas uma tentativa de desabafar e passa a ser também uma forma de reconhecer o próprio sofrimento.

Leia Mais: Solidão mesmo cercado de pessoas? Psicóloga explica quando o isolamento é sinal de alerta

A internet substitui o contato real?

A tecnologia ampliou as possibilidades de conhecer pessoas e manter contato, mas também trouxe uma contradição, nunca foi tão fácil estar conectado e, ao mesmo tempo, sentir-se sozinho.

Dados do Digital Wellness Lab, do Boston Children’s Hospital, apresentados no relatório Pulse Survey: Belonging (2025), apontam que 50% dos adolescentes entrevistados afirmaram ter amigos próximos que conheceram exclusivamente pela internet e nunca encontraram pessoalmente.

Outros 71% disseram ter desenvolvido amizades significativas em ambientes virtuais, enquanto 67% consideram esses amigos tão importantes quanto os presenciais.

Para Mariana, uma amizade não perde sua importância simplesmente porque começou no ambiente digital. O que determina a qualidade do vínculo é a forma como ele é construído.

“As redes sociais podem, sim, favorecer a construção de amizades genuínas. Muitas pessoas encontram apoio, identificação e até relacionamentos importantes por meio da internet”, afirma.

Ao mesmo tempo, a especialista alerta que a tecnologia não garante, por si só, uma relação saudável.

“Mais importante do que o lugar onde uma amizade começa é a qualidade da conexão construída. Nenhum algoritmo é capaz de substituir o conforto de alguém que verdadeiramente nos escuta”, destaca.

O peso das experiências passadas

Não existe uma única explicação para a dificuldade de estabelecer amizades. Baixa autoestima, medo de rejeição, ansiedade social, experiências traumáticas, abandono, excesso de autocrítica e dificuldade para confiar podem interferir na construção de vínculos.

Também existem fatores relacionados ao próprio estilo de vida. Mudanças de cidade, jornadas extensas de trabalho, trabalho remoto, maternidade, envelhecimento e uso excessivo das redes sociais podem diminuir as oportunidades de convivência.

Para Mariana, algumas pessoas interpretam essas dificuldades como uma característica permanente de sua personalidade.

“Essa é uma frase que escuto com frequência no consultório: ‘Eu simplesmente não nasci para fazer amigos’. Na maioria das vezes, porém, ela não descreve uma realidade. Ela revela uma história marcada por rejeições, críticas, bullying ou relações que ensinaram a pessoa a acreditar que não era suficientemente boa”, relata.

O problema pode se transformar em um ciclo: o medo leva à redução das interações; menos interações diminuem as oportunidades de criar vínculos; e o isolamento pode reforçar a percepção de inadequação.

“Quanto mais alguém evita interações por medo da rejeição ou por acreditar que não corresponderá às expectativas dos outros, menores se tornam as oportunidades de criar novas amizades. Com o tempo, esse isolamento reforça sentimentos de inadequação e intensifica o sofrimento emocional”, explica a psicóloga.

Setembro Amarelo

Durante o Setembro Amarelo, falar sobre prevenção significa também reduzir o silêncio em torno do sofrimento emocional.

Uma pessoa não precisa apresentar uma solução para ajudar alguém que está passando por uma fase difícil. Em muitos casos, o primeiro passo pode ser simplesmente permanecer disponível para ouvir, sem minimizar aquilo que o outro está sentindo.

Também é importante entender que frases como “é só uma fase” ou “você precisa pensar positivo” podem afastar alguém que já encontra dificuldade para falar sobre o que está vivendo.

Perguntar com sinceridade, ouvir sem julgamento e incentivar a busca por ajuda especializada são atitudes mais efetivas para quem percebe que alguém próximo não está bem.

E, quando a própria pessoa percebe que não consegue lidar sozinha com aquilo que sente, pedir ajuda não representa fraqueza. Pode ser justamente o primeiro movimento para reconstruir uma rede de apoio e buscar cuidado adequado.

Quando e onde procurar ajuda profissional?

A rede de apoio é importante, mas não substitui tratamento psicológico ou psiquiátrico quando existe sofrimento persistente ou intenso.

Segundo Fernanda Tavares, o acompanhamento psicológico ou psicanalítico se torna fundamental quando a solidão deixa de representar apenas um momento de recolhimento e passa a provocar um sofrimento que interfere no funcionamento cotidiano.

A psicoterapia também pode auxiliar pessoas que desejam estabelecer novos vínculos, mas enfrentam medo da rejeição, insegurança ou dificuldades relacionadas à própria história.

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, o trabalho pode envolver a identificação de pensamentos automáticos associados a sentimentos de inadequação e rejeição, além do desenvolvimento de estratégias para lidar com essas situações.

“O objetivo da terapia não é transformar alguém em uma pessoa extremamente sociável, mas ajudá-la a construir vínculos verdadeiros, respeitando sua personalidade, seu ritmo e seus limites”, explica Mariana.

Identificar os limites entre o esgotamento emocional comum e um quadro que exige intervenção profissional é o primeiro passo para o autocuidado.

Em Uberlândia e região, a rede pública de saúde conta com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), unidades básicas de saúde e serviços de acolhimento psicológico.

  • CVV (Centro de Valorização da Vida): O número 188 oferece atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia para apoio emocional e prevenção ao suicídio, por meio de ligação ou chat no site oficial.

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