HIV: SUS avalia PrEP injetável e cientistas relatam remissão da doença
Enquanto o SUS avalia incorporar a PrEP injetável contra o HIV, cientistas anunciam dois novos casos de remissão do vírus após transplante de células tronco
O combate ao HIV viveu uma semana de destaque. No Brasil, o Ministério da Saúde encaminhou à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, a Conitec, uma proposta para incluir no Sistema Único de Saúde a PrEP injetável de longa duração, aplicada a cada dois meses, com análise prevista para agosto. No campo internacional, cientistas apresentaram dois novos casos de remissão da infecção pelo HIV após transplante de células tronco, elevando para 13 o número de pacientes que deixaram de ter o vírus detectado no sangue após esse tipo de tratamento.

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Os dois assuntos foram tema da 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro, primeira vez que o evento acontece na América do Sul. O encontro reuniu especialistas, gestores e representantes de governos de diversos países para discutir avanços científicos e desafios ainda enfrentados na prevenção, no diagnóstico e no tratamento do HIV.
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Por que a PrEP injetável pode mudar a prevenção do HIV
Atualmente, o SUS já disponibiliza a PrEP oral, medicação tomada diariamente por pessoas que não vivem com o HIV, mas que estão mais expostas ao risco de infecção. Desde que passou a integrar o sistema público de saúde, a estratégia já foi iniciada por 356 mil pessoas no país.
A versão injetável surge como alternativa para quem enfrenta dificuldade em manter a rotina do comprimido diário. Por exigir aplicação apenas a cada dois meses, a expectativa é que a tecnologia amplie a adesão ao tratamento preventivo e alcance públicos que hoje têm menor acesso às formas já existentes de proteção contra o HIV.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou durante a conferência que o Brasil busca ampliar as tecnologias de prevenção porque elas podem oferecer alternativas às pessoas que têm dificuldade de adesão ao uso diário da medicação. Segundo ele, a avaliação de novas tecnologias para o SUS leva em conta critérios técnicos, científicos e econômicos, além das condições de acesso da população. Para o ministro, inovação sem acesso não deveria ser chamada de inovação, já que, nesse caso, se trataria de uma injustiça.
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O que mais o SUS oferece contra o HIV
Além da PrEP oral, a rede pública de saúde disponibiliza hoje um conjunto de estratégias de prevenção combinada contra o HIV, entre elas preservativos, gel lubrificante, profilaxia pós exposição, testagem rápida e autoteste. Para quem já vive com o vírus, o SUS oferece tratamento antirretroviral, acompanhamento clínico, monitoramento laboratorial e atendimento multiprofissional.
O Ministério da Saúde também acompanha o desenvolvimento de novas tecnologias de prevenção do HIV, incluindo pesquisas conduzidas no próprio país. Um dos exemplos é o trabalho da Fundação Oswaldo Cruz, em parceria com instituições privadas, voltado à criação de medicamentos de ação prolongada.
Brasil elimina transmissão vertical do HIV
Em dezembro de 2025, o país recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde a certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, tornando-se o único país de dimensão continental a alcançar esse marco.
Para obter o reconhecimento, o Brasil manteve a taxa de transmissão de mãe para filho abaixo de 2% e a incidência da infecção em crianças inferior a 0,5 caso por mil nascidos vivos, além de superar 95% de cobertura em pré-natal, testagem e tratamento das gestantes que vivem com HIV.
Tratamento, testagem e queda nas mortes por aids
Um relatório da Unaids mostra que o número de mortes relacionadas à aids caiu 57% desde 2010 nos continentes analisados, saindo de 1,3 milhão de óbitos naquele ano para 570 mil em 2025. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam 9,1 mil óbitos por aids em 2024, uma redução de 13% em relação ao ano anterior, quando haviam sido registradas mais de 10 mil mortes.
A ampliação do diagnóstico também avançou. Nos últimos três anos, a oferta de testes rápidos para HIV no SUS dobrou. Hoje, 22% das pessoas diagnosticadas com o vírus começam o tratamento no mesmo dia da confirmação, e mais da metade inicia a terapia antirretroviral em até 30 dias após o diagnóstico.
Remissão do HIV após transplante: os novos casos apresentados na conferência
Durante o mesmo evento, a comunidade científica internacional apresentou outro capítulo importante na história da doença, com detalhes sobre os dois pacientes que passaram a integrar a lista de casos de remissão do HIV.
Um dos casos é o do chamado paciente de Kansas City, nos Estados Unidos, diagnosticado com HIV e, na sequência, com leucemia mieloide aguda, câncer que compromete a produção de células de defesa do organismo. O outro é o paciente de Essen, na Alemanha, que vivia com dois tipos diferentes do vírus e também com hepatite B.
Nos dois casos, os pacientes passaram por transplante de células tronco hematopoiéticas, responsáveis pela formação das células do sangue, entre elas os leucócitos que defendem o corpo contra infecções. Os doadores tinham uma mutação genética rara que confere resistência natural ao HIV.
Como a mutação genética barra o HIV
O vírus só se torna ativo ao entrar em uma célula, e seu alvo preferencial é o linfócito T CD4, peça central do sistema imunológico. Ao destruir essas células, o HIV reduz a capacidade do organismo de reagir a infecções oportunistas.
Para invadir a célula, o vírus se liga a moléculas presentes em sua membrana, o receptor CD4 e os correceptores CCR5 e CXCR4. Nos doadores dos dois casos apresentados na conferência, o gene responsável por produzir o CCR5 apresenta uma variação chamada CCR5 delta32, que impede essa ligação e, consequentemente, barra a entrada do vírus na célula.
Depois do transplante, o paciente passa a produzir células sanguíneas a partir desse novo material genético, o que inclui novas gerações de linfócitos CD4 potencialmente resistentes ao HIV. Em ambos os casos, os medicamentos antirretrovirais foram suspensos para observar a resposta do organismo, e mesmo meses depois, os exames não detectaram o vírus circulando no sangue.
A pesquisadora Carina Elsner, responsável pelo estudo do paciente de Essen, destacou que a mutação em homozigose, quando o gene é herdado tanto do pai quanto da mãe, está presente em cerca de 10% dos europeus do norte, o que a torna rara. Segundo ela, a principal questão em aberto é entender se essa mutação é de fato determinante para uma remissão duradoura do HIV.
Por que os cientistas falam em remissão, e não em cura
No caso do paciente de Kansas City, passaram se 14 meses sem detecção do vírus. Em Essen, foram 12 meses, mas a interrupção do tratamento antirretroviral levou a uma recidiva da hepatite B, o que reforça a cautela dos pesquisadores em falar em cura definitiva do HIV.
Wissam El Atrouni, um dos responsáveis pelo acompanhamento do paciente de Kansas City, afirmou que se trata de apenas um caso, mas que ele se soma à lista de pacientes que apresentaram melhora após o transplante de células tronco. Segundo ele, será necessário um acompanhamento contínuo, com testes mensais daqui em diante.
O primeiro paciente considerado curado do HIV foi Timothy Ray Brown, conhecido como paciente de Berlim, que recebeu o transplante em 2007 e viveu sem sinais do vírus até morrer em 2020, vítima da mesma leucemia que havia motivado o procedimento anos antes.
Entre os avanços científicos internacionais e o esforço do SUS para ampliar o acesso à prevenção, o Brasil segue como uma referência global na resposta ao HIV, combinando tratamento, testagem e novas tecnologias na tentativa de reduzir ainda mais o impacto da epidemia no país.
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