Esgotamento: 70% dos líderes pensam em demissão e geração Z evita chefia

Pesquisa da da Conquer In Company revela que sobrecarga e falta de treinamento básico sufocam gestores nas empresas; novas gerações já rejeitam cargos de comando

, em Uberlândia

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O sonho de alcançar um cargo de chefia tem se transformado em desgaste emocional para a maioria dos gestores brasileiros. Uma pesquisa realizada pela Conquer In Company, escola de negócios voltada ao mercado corporativo, revela que 70% dos profissionais em cargos de liderança já consideraram abandonar suas funções devido aos impactos negativos na saúde mental.

O levantamento, que ouviu 750 profissionais de diversas regiões do país — incluindo líderes e especialistas em Recursos Humanos —, acende um alerta para o mercado de trabalho: a pressão constante e a falta de preparo estrutural estão esgotando quem comanda as equipes.

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Líderes trabalham sob pressão constante e 70% já pensaram em deixar cargos por saúde mental – Crédito: Freepik/Reprodução

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Sobrecarga e a dificuldade de se desconectar

O cotidiano dos gestores é marcado por uma rotina de alta tensão. De acordo com o estudo, 90% das lideranças relatam trabalhar sob pressão constante no dia a dia. Para 44,6% dos entrevistados, essa cobrança é classificada como alta ou extrema.

Os reflexos desse cenário atingem diretamente o bem-estar físico e psicológico dos profissionais. O cansaço crônico e o esgotamento afetam 57% dos participantes, enquanto 53% apontaram a incapacidade de se desconectar das obrigações profissionais mesmo fora do horário de expediente.

Entre as principais atribuições que geram sobrecarga e empatam no topo das dores dos gestores estão:

  • Desenvolver pessoas e gerenciar conflitos internos (58%)
  • Conciliar o planejamento estratégico com as demandas operacionais (58%)
  • Lidar com mudanças corporativas constantes (44%)

“Existe uma percepção equivocada de que bons profissionais automaticamente se tornam bons líderes. A liderança é uma competência construída. Quando a preparação não acompanha o aumento das responsabilidades, o desgaste e a sobrecarga acabam se tornando inevitáveis”, explica Giovana Chimentão, Diretora de Educação da Conquer In Company.

O fenômeno do “líder improvisado”

A exaustão diagnosticada pela pesquisa possui uma raiz estrutural: a falta de capacitação. O levantamento aponta que 78% dos líderes assumiram seus postos sem o treinamento necessário, sendo forçados a aprender a gerenciar equipes diretamente na prática, por meio de tentativa e erro. Como consequência imediata dessa lacuna, quase 90% admitiram conduzir processos de mudança organizacional sem clareza com frequência.

O problema é agravado pela baixa prioridade que as próprias companhias dão ao tema. Para 63% dos gestores e 58,4% dos profissionais de RH, o investimento no desenvolvimento de lideranças é considerado baixo ou inexistente nas instituições onde atuam.

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RH reconhece limitações na gestão

O diagnóstico de despreparo é chancelado pelo setor de Recursos Humanos das empresas. De acordo com os 350 profissionais de RH ouvidos no estudo, a escassez de tempo e culturas organizacionais pouco voltadas ao crescimento barram os treinamentos.

Como resultado:

  • 54,1% dos profissionais de RH avaliam que os líderes cumprem as exigências do cargo apenas de forma moderada, demonstrando limitações em cenários complexos.
  • 34,6% classificam a capacidade dos gestores como baixa ou muito baixa para responder às responsabilidades atuais.

Geração Z prefere fugir dos cargos de chefia

Esse cenário de alta pressão e pouca assistência corporativa já molda o comportamento das novas gerações que entram no mercado de trabalho.

Dados complementares da consultoria Robert Walters indicam que 72% dos profissionais da Geração Z preferem seguir uma carreira como especialistas ou colaboradores individuais a assumir posições de gestão de pessoas.

A rejeição ao topo da pirâmide corporativa reflete o receio de herdar a sobrecarga que hoje faz 7 em cada 10 atuais gestores pensarem em desistir da função.

Saúde mental e impacto dos afastamentos em Minas

Minas Gerais registrou 83.321 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais, segundo dados oficiais, ocupando a segunda posição entre os estados brasileiros com maior número de trabalhadores incapacitados psicologicamente.

O cenário reforça a pressão sobre a saúde mental no ambiente profissional e dialoga com o crescimento dos casos de esgotamento e ansiedade associados ao trabalho.

Para a psicanalista Fernanda Tavares, em uma cultura que valoriza a entrega contínua, o descanso passou a ser interpretado como falha. “O filósofo Byung-Chul Han diz que vivemos na ‘Sociedade do Cansaço’, onde nos tornamos vigias e carrascos de nós mesmos. A cultura da produtividade transforma o descanso em culpa. A ansiedade nasce justamente desse conflito, o corpo pede trégua, mas a nossa mente fica sussurrando que estamos ficando para trás, que deveríamos estar produzindo.”

Diferença entre cansaço e Burnout

Segundo a especialista, saber diferenciar o desejo de desacelerar do esgotamento extremo é fundamental para buscar a intervenção correta antes que as defesas psíquicas falhem por completo.

“Querer desacelerar costuma ser um movimento consciente de escolha, onde o sujeito ainda preserva sua energia psíquica e quer investi-la de outra forma, com mais qualidade. Estar esgotado (burnout) é quando o limite já foi ultrapassado. Na psicanálise, vemos o esgotamento como uma falência das defesas psíquicas. O ‘eu’ se vê exausto de tentar dar conta das exigências idealizadas. Não é mais um desejo de parar; é o corpo e a mente em curto-circuito porque não aguentam mais a sobrecarga.”

Para ler mais análises de especialistas sobre saúde mental no trabalho, acesse o Paranaíba Mais.