Césio-137: físico que detectou risco em Goiânia é de Minas Gerais

Mineiro Walter Mendes Ferreira foi o primeiro cientista a identificar o perigo do "pó azul" em Goiânia; história real inspirou protagonista de nova série da Netflix

, em Uberlândia

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Enquanto o Brasil e o mundo maratonam a minissérie “Emergência Radioativa”, que reconta a tragédia do Césio-137 e lidera o ranking da plataforma, um detalhe pouco conhecido volta à tona. O primeiro alerta sobre a contaminação partiu de um físico nascido em Minas Gerais. Em setembro de 1987, Walter Mendes Ferreira identificou que moradores de Goiânia estavam expostos a um material altamente perigoso. Esse passo mudou o rumo da tragédia.

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Aos 73 anos, Walter Mendes relembra alerta no caso Césio-137, em Goiânia – Crédito: Luana Avelar/SES-GO

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À época com 29 anos, o cientista mineiro foi chamado por autoridades de saúde para analisar o objeto suspeito levado por moradores. Com um aparelho de medição, conseguiu detectar níveis de radiação ainda a distância, o que confirmou o risco imediato e acionou a resposta nacional.

Brilho letal do Césio-137

A história começa quando uma peça de chumbo, retirada de uma clínica abandonada por catadores, foi aberta em um ferro-velho de Goiânia. Dentro dele havia o césio-137, um material altamente radioativo, que emitia um brilho azulado no escuro.

Encantado com o aspecto incomum, o dono do ferro-velho junto a familiares e conhecidos, manuseou a substância. Em poucos dias, começaram os primeiros sinais de alerta, náuseas, vômitos e lesões na pele semelhantes a queimaduras.

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Acidente do Césio-137 levou ao monitoramento de 112 mil pessoas – Crédito: Secretária de Estado da Saúde de Goiás/Reprodução

Desconfiada, a esposa do dono do ferro-velho, Maria Gabriela Ferreira, levou a peça em um ônibus até a Vigilância Sanitária. Foi lá que Walter, com um centilômetro, percebeu que o ponteiro do medidor disparou antes mesmo de ele chegar perto da peça.

“A cerca de 40 metros do local onde estava a peça, constatei que se tratava de material radioativo”, relembrou o físico em registros históricos.

O mineiro acionou a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e iniciou a operação de “caça” aos focos de radiação.

Segundo uma pesquisa realizada pela UFG, mais de 110 mil pessoas foram monitoradas. Houve casos de ingestão acidental, o que agravou ainda mais os efeitos. O episódio resultou em mortes, contaminação em larga escala e impactos que se estendem até hoje.

Quem é Walter Mendes Ferreira?

Formado em física e com especializações na Universidade de Buenos Aires e no Instituto Militar de Engenharia (IME), Walter tinha o conhecimento técnico necessário para identificar o perigo em 1987.

Sua decisão de usar um aparelho de medição foi o ponto de virada que confirmou o acidente nuclear e deu início ao isolamento da área. Hoje, aos 73 anos, Walter trabalha como chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN, sendo uma das maiores autoridades do Brasil no assunto.

O trabalho dele trouxe avanços para o país, como a criação de regras de segurança e sistemas de resposta rápida que hoje são seguidos até por órgãos internacionais como a Agência Internacional de Energia Atômica.

Homenageado recentemente com uma medalha em Goiás, o físico reforça que a maior lição da tragédia é o aprendizado que evita novos erros, “O que nós aprendemos aqui estamos transmitindo a outras gerações, para que nunca mais isso volte a ocorrer”.

Os rejeitos do acidente estão enterrados em recipientes de chumbo e concreto em Abadia de Goiás e só deixarão de ser perigosos daqui a 300 anos, por volta de 2287.

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Série atinge o topo da Netflix no Brasil

Lançada em 18 de março, a série “Emergência Radioativa” conquistou o público, alcançando o primeiro lugar no ranking brasileiro e a quarta posição global da plataforma. A produção mistura o drama das famílias atingidas com a corrida contra o tempo dos cientistas para conter a radiação.

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Leide e Lourdes inspiraram Celeste e Catarina na série – Crédito: Netflix/Reprodução

Na trama, o ator Johnny Massaro interpreta o físico Márcio, inspirado no físico mineiro Walter Mendes Ferreira. O personagem viaja a Goiânia para visitar o pai em um aniversário, mas acaba sendo peça central na investigação que descobriu o acidente nuclear.

Um dos pontos centrais da série é a história de Leide das Neves, de 6 anos, chamada na ficção de Celeste. Na vida real e na tela, a menina se tornou o símbolo da tragédia. Sem saber do risco, ela ingeriu partículas do pó radioativo ao lanchar após brincar com o material brilhante. Leide foi uma das quatro vítimas fatais que morreram ainda em outubro de 1987, logo após o início da contaminação.