Quebra de sigilos: Flávio impõe 21 exigências a Lula; saiba quais
Flávio protocola no TSE a quebra de sigilos dos últimos 20 anos, mas só abre os dados se Lula cumprir a lista de cobranças, e último debate fica em jogo
Flávio Bolsonaro (PL) respondeu ao desafio de Lula (PT) e entregou ao Tribunal Superior Eleitoral, nesta quarta (21), um pedido de quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico referente aos últimos 20 anos. A autorização, porém, tem um preço: o senador só apresenta os próprios dados depois que o presidente atender a uma lista de cobranças. O impasse chega a dois dias do último debate televisivo, que Lula condiciona à abertura das contas do adversário.

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Flávio impõe condições para a quebra de sigilos
A petição vai além do que o presidente pediu. Além das contas pessoais, o candidato do PL libera informações das empresas em que é sócio ou administrador e diz não ter objeção à divulgação das mensagens que trocou com Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
Mesmo assim, nada foi aberto ao público nesta quarta. O documento pede que o TSE chame Lula a responder às exigências, e a defesa de Flávio afirma que os papéis do senador só virão depois que o petista entregue o que foi cobrado.
A lista soma 21 itens e mira o círculo próximo do presidente. Os advogados querem autorizações individuais de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, antigo chefe de gabinete de Lula, e de outros assessores, seguranças e auxiliares que tenham mantido linhas telefônicas para o presidente nos últimos oito anos. Querem também os dados bancários e fiscais do próprio Marcola, para apurar o destino de pagamentos citados no documento.
Outro bloco de exigências trata de Daniel Vorcaro. Flávio quer os registros de visitantes durante a custódia do banqueiro na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, os planos de voo e a lista de passageiros da aeronave PS-FST entre 10 e 20 de novembro de 2025, e todos os detalhes da reunião de Lula com ele em 4 de dezembro de 2024. Pede ainda as entradas de Vorcaro e de intermediários nos palácios do Planalto e da Alvorada desde 2023.
A empresária Roberta Luchsinger recebe tratamento parecido: a petição cobra seus registros nos palácios entre 2023 e 2026, as viagens em aeronaves da FAB e as reuniões em órgãos federais. O mesmo vale para as visitas de Guido Mantega e Augusto Lima ao Planalto, incluindo encontros de Mantega com Marcola em 2024.
Confira os 21 pedidos apresentados:
- Assessores e auxiliares de Lula: apresentação das autorizações individuais de Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e dos demais assessores, seguranças e auxiliares que utilizaram ou mantiveram linhas telefônicas para o presidente nos últimos oito anos, com identificação dos números e titulares.
- Dados bancários e fiscais de Marcola: autorização para acesso às informações bancárias, financeiras, fiscais e tributárias do ex-chefe de gabinete de Lula.
- Lulinha, esposa e empresas: quebra dos sigilos de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de sua esposa, Renata de Abreu Moreira, de cinco empresas citadas nominalmente e de outras sociedades do antigo grupo Gamecorp/Gol.
- Empresas de Lulinha no exterior: acesso aos dados de empresas offshore das quais Lulinha seja integrante, incluindo a Synapta, constituída em Madri.
- Empresa de Sandro Luís e Marcos Cláudio: quebra dos sigilos da Flexbr Tecnologia Ltda.
- Empresas de Fernando Bittar: acesso aos dados da TV Araras, da Coskin Assessoria e da M7 Produções, empresas ligadas ao sócio de Lulinha.
- Empresas dos demais filhos de Lula: acesso às informações de sociedades vinculadas a Lurian, Marcos Cláudio, Sandro e Luís Cláudio, com destaque para a LFT Marketing Esportivo.
- Instituto Lula e Paulo Okamotto: quebra dos sigilos do Instituto Lula e de seu ex-presidente, Paulo Okamotto.
- Visitas a Daniel Vorcaro na prisão: divulgação dos registros de entrada e saída de visitantes durante o período em que o banqueiro esteve custodiado na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
- Voos de aeronave ligada a Daniel Vorcaro: divulgação dos planos de voo e das listas de passageiros da aeronave PS-FST entre 10 e 20 de novembro de 2025.
- Encontro entre Lula e Daniel Vorcaro: divulgação dos participantes, dos objetivos e dos registros da reunião realizada em 4 de dezembro de 2024.
- Acessos de Daniel Vorcaro ao governo: divulgação dos registros de entrada do banqueiro e de seus intermediários nos palácios do Planalto e da Alvorada desde 2023.
- Visitas de Guido Mantega e Augusto Lima: divulgação dos registros de acesso de ambos ao Palácio do Planalto, incluindo os encontros de Mantega com Marcola em 2024.
- Dados de João Vaccari Neto: autorização para a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do ex-tesoureiro do PT referentes aos últimos oito anos.
- Visitas de Roberta Luchsinger ao governo: divulgação dos registros de entrada e saída da empresária nos palácios do Planalto e da Alvorada entre 2023 e 2026.
- Voos de Roberta Luchsinger em aeronaves da FAB: divulgação da relação de viagens realizadas em aeronaves da Força Aérea Brasileira nas quais a empresária tenha embarcado como passageira.
- Reuniões de Roberta Luchsinger em órgãos federais: divulgação dos encontros da empresária em órgãos federais, com identificação dos participantes e dos assuntos discutidos.
- Movimentações financeiras de Marcola: divulgação dos dados bancários e fiscais de Marco Aurélio Santana Ribeiro referentes aos últimos oito anos, para apurar a destinação dos pagamentos citados na petição.
- Dados de Frei Chico e do Sindnapi: autorização para acesso aos dados bancários, fiscais, telefônicos e telemáticos do irmão de Lula e do sindicato de aposentados no qual ele ocupa a vice-presidência.
- Despesas do cartão corporativo da Presidência: divulgação integral dos gastos realizados com o cartão corporativo presidencial desde 1º de janeiro de 2023.
- Agenda de Janja e despesas do Alvorada: divulgação da agenda da primeira-dama anterior a fevereiro de 2025, dos registros de visitas dos filhos de Lula, da utilização de helicópteros e dos gastos relacionados ao Palácio da Alvorada.
Em Guarulhos, Flávio sobe o tom antes do debate
O recado público veio em ato político em Guarulhos, na Grande São Paulo. Diante dos apoiadores, Flávio disse que aceita o desafio, mas devolveu a provocação com a menção a Marcola:
“O Lula nem tem celular. Sabe quem recebe as ligações para ele? O Marcola. O Lula tem o Marcola. É esse Marcola que abriu as portas para o Lulinha [filho do presidente] fazer negócios em todos os ministérios. Então, eu abro o meu sigilo no telefone, sim, mas o Marcola tem que abrir o dele.”
Ele também afirmou que sua “vida é um livro aberto” e cobrou do presidente a abertura do sigilo de 100 anos do cartão corporativo e das visitas ao Alvorada.
Debate da Globo dependeria da quebra de sigilos
O desafio original saiu do palanque de Lula em Juazeiro, na Bahia, a cinco dias do segundo turno. Ao fim do discurso, o presidente amarrou sua presença no último debate televisivo, marcado para sexta (23), às 21h20, à entrega de um documento pelo rival:
“Se ele apresentar um documento autorizando a quebrar o sigilo, vai ter debate, porque senão ele não pode ir ao debate, porque o presidente da República não pode debater com ladrão.”
Apoiadores gritaram palavras de ordem pedindo que Flávio liberasse seus dados. O pedido de Lula ao TSE foi distribuído ao ministro André Mendonça, mas a autorização voluntária não obriga a Justiça Eleitoral a investigar patrimônio, e os dados de parentes dependem do aval de cada titular.
A troca de acusações começou no debate da Band, no domingo (18), quando os dois levaram familiares para a discussão. Flávio levantou suspeitas sobre pessoas próximas ao presidente, Lula questionou a origem do patrimônio do senador, e o petista o desafiou a abrir as contas. Flávio disse não ter nada a esconder, mas recusou a divulgação conjunta.
O encontro mediado por César Tralli será o último confronto na TV antes da votação de domingo (25). No primeiro turno, o debate de 1º de outubro foi cancelado sob alegação de insegurança jurídica, após decisões do TSE e do STF que mudaram as regras. Lula já dizia que não iria, e Flávio desistiu horas antes, e os dois terminaram aquela fase sem enfrentar um debate presidencial.
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