Polícia indicia médicos e instrumentador após pinça esquecida em cirurgia em João Pinheiro
Investigação concluiu que erro durante cirurgia obrigou paciente a passar por um segundo procedimento e contribuiu para o agravamento do quadro que levou à morte do idoso
Seis meses após a morte de um paciente que teve uma pinça cirúrgica esquecida dentro do corpo, a Polícia Civil concluiu o inquérito e indiciou três profissionais de saúde pelo caso. A investigação apontou que um instrumento utilizado durante uma cirurgia de emergência permaneceu no abdômen de Manoel Cardoso de Brito, de 68 anos, obrigando a realização de um novo procedimento dias depois. Segundo a Polícia Civil (PC), o erro contribuiu para o agravamento do estado de saúde do paciente, que morreu na véspera de Natal.
Foram indiciados o médico responsável pela cirurgia, uma médica que participou do procedimento e o instrumentador cirúrgico que atuava na organização dos materiais utilizados durante a operação. Os três responderão, em tese, por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.

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Paciente chegou ao hospital com quadro grave
De acordo com a investigação, Manoel procurou atendimento médico no início de dezembro de 2025 após sentir fortes dores abdominais.
Inicialmente atendido na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de João Pinheiro, ele foi transferido para o Hospital Municipal Antônio Carneiro Valadares após exames apontarem uma úlcera gástrica perfurada, condição considerada grave e potencialmente fatal.
Diante da urgência, a equipe médica realizou uma cirurgia para conter a infecção e corrigir o problema. Nos dias seguintes, o paciente apresentou sinais de melhora, chegou a deixar a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e foi transferido para a enfermaria. Mas a recuperação durou pouco.

Exame revelou instrumento esquecido dentro do corpo
Poucos dias depois da cirurgia, Manoel voltou a apresentar piora clínica. Entre os sintomas registrados estavam sonolência excessiva, recusa alimentar e comprometimento progressivo do estado geral.
Novos exames foram solicitados e uma tomografia revelou a presença de um objeto metálico dentro da cavidade abdominal. Tratava-se de uma pinça cirúrgica utilizada durante o primeiro procedimento.
A descoberta levou a uma nova cirurgia de urgência para retirada do instrumento e drenagem de uma infecção abdominal. Após a segunda intervenção, o paciente retornou para a UTI, mas evoluiu com choque séptico, falência progressiva de órgãos e outras complicações graves. A morte foi registrada em 24 de dezembro de 2025.
Família diz que descobriu erro após o sepultamento
Durante o inquérito, familiares relataram que não receberam informações claras sobre o que havia provocado a piora do quadro clínico nem sobre os motivos da segunda cirurgia. O filho da vítima afirmou que só tomou conhecimento da existência da pinça esquecida após o sepultamento do pai, por meio de reportagens divulgadas pela imprensa.
Os relatos foram confirmados por testemunhas ouvidas ao longo da investigação.
Perícia aponta falha grave e quebra de protocolos
A conclusão pericial foi um dos principais elementos utilizados pela Polícia Civil para responsabilizar os profissionais envolvidos. Embora os especialistas reconheçam que Manoel apresentava um quadro clínico complexo, com infecção abdominal avançada, diabetes, histórico de AVC e outras comorbidades, o laudo classificou como injustificável a permanência da pinça dentro do organismo.
Os peritos apontaram que o caso configura um “oblito cirúrgico”, termo utilizado para definir a retenção indevida de materiais ou instrumentos após procedimentos médicos. Segundo a análise técnica, houve falha no cumprimento dos protocolos universais de cirurgia segura, independentemente da gravidade ou da urgência do procedimento realizado.
Segunda cirurgia reduziu chances de recuperação
Outro ponto destacado pelos peritos é que a nova cirurgia, realizada exclusivamente para retirar a pinça esquecida, contribuiu para o agravamento do estado clínico do paciente. Embora não seja possível afirmar que Manoel sobreviveria caso o erro não tivesse ocorrido, os especialistas concluíram que o segundo procedimento impôs um desgaste fisiológico significativo a um organismo já debilitado.
Por isso, a perícia considerou a necessidade da nova intervenção uma concausa relevante para o desfecho fatal.
Caso de pinça esquecida em cirurgia em João Pinheiro será analisado pelo MP
Com a conclusão do inquérito, o caso foi encaminhado ao Ministério Público de Minas Gerais. Agora caberá ao órgão avaliar as provas reunidas pela Polícia Civil e decidir se oferece denúncia à Justiça, solicita novas investigações ou determina o arquivamento do caso.
O que acontece agora? Acompanhe os próximos desdobramentos da investigação e a análise do Ministério Público no Portal Paranaíba Mais.