Grupo aponta alertas de manipulação em jogos na Copa, diz NY Times

Denúncia sobre manipulação em jogos, revelada pelo The Athletic, mapeou movimentações atípicas em apostas ao longo do Mundial e cobra explicações da Fifa sobre um caso específico

, em Uberlândia

Manipulação em jogos é o tema central de uma denúncia do Grupo de Copenhague, rede internacional independente especializada em detectar e combater fraudes esportivas, que aponta a existência de sete alertas durante a Copa do Mundo de 2026. O conteúdo, ainda não publicado oficialmente, chegou ao público por meio de um resumo obtido pelo The Athletic, site ligado ao The New York Times, e descreve um trabalho de monitoramento que cobriu as 104 partidas do torneio. Relatório aponta que US$ 240 bilhões foram apostados durante o torneio. 

Manipulação em jogos na Copa do Mundo 2026
Cerimônia de abertura da Copa no Estádio Azteca – Reprodução/Youtube/CazeTV

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De acordo com o material, a entidade cruzou dados de mercados de apostas espalhados pelo mundo com o desenrolar de cada confronto, em busca de padrões fora do comum. Sete situações acabaram classificadas como alerta amarelo, nível que, segundo a metodologia da própria organização, não comprova manipulação em jogos, mas sinaliza a necessidade de acompanhamento mais próximo.

O que a denúncia aponta como sinais de manipulação em jogos

O relatório cita quatro episódios como os mais representativos da lista de alertas:

  •  O primeiro é a expulsão do sul-africano Themba Zwane, aos 84 minutos da partida de abertura contra o México.
  • O segundo envolve uma aposta de 4,8 milhões de dólares feita na Polymarket, plataforma de mercado preditivo, apostando que a Espanha não venceria Cabo Verde, confronto que de fato terminou empatado sem gols.
     
  • O terceiro trata da demora de três minutos e meio da arbitragem de vídeo para anular um gol de Ferran Torres na vitória espanhola por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita. 
  • O quarto episódio, tratado pelo próprio Grupo de Copenhague como o mais delicado, tem como personagem o atacante americano Folarin Balogun. Conforme apurou o Grupo, a Polymarket chegou a abrir um mercado de apostas perguntando se o jogador entraria em campo contra a Bélgica no mesmo dia em que havia sido expulso diante da Bósnia e Herzegovina, nas oitavas de final. Três dias depois, a Comissão Disciplinar da Fifa confirmou que a suspensão de Balogun fora anulada, liberando o atacante para seguir na competição.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu ter interferido no processo de remoção do cartão vermelho à Folarin Balogun - Crédit: Reprodução/Redes Sociais
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu ter interferido no processo de remoção do cartão vermelho à Folarin Balogun – Crédit: Reprodução/Redes Sociais

A denúncia ganha peso porque, segundo as fontes ouvidas pelo jornal, nenhum mercado de apostas parecido chegou a ser criado para os outros catorze jogadores expulsos ao longo do Mundial, todos com suas punições mantidas normalmente até o fim. Por causa dessa diferença, o Grupo de Copenhague afirmou ter cobrado formalmente uma explicação da Fifa a respeito do caso Balogun. 

Procuradas pelo The Athletic, tanto a entidade esportiva quanto a Polymarket optaram por não comentar as conclusões do levantamento.

Como funciona a escala usada na denúncia de manipulação em jogos

A classificação adotada pelo Grupo de Copenhague segue quatro degraus de risco. O verde representa normalidade, o amarelo pede atenção redobrada, o laranja indica alerta elevado e o vermelho corresponde ao grau máximo de gravidade. Basta a presença de sinais que justifiquem um olhar mais atento, como oscilações difíceis de explicar nas cotações, comentários que circulam nas redes sociais ou informações vindas de fontes de inteligência esportiva, para que um caso seja enquadrado no nível amarelo, patamar em que os sete episódios da Copa de 2026 foram classificados.

Ainda segundo o documento, quinze partidas do torneio passaram por monitoramento reforçado, com atenção especial aos jogos da última rodada da fase de grupos. Outras doze polêmicas do campeonato também entraram na análise sob a ótica dos riscos à integridade esportiva, ainda que nem todas tenham resultado em um alerta formal.

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Fifa nega irregularidades um dia antes da denúncia vir a público

A divulgação dos sete alertas ocorreu um dia depois de a Força Tarefa de Integridade da Fifa apresentar seu próprio balanço, nesta terça-feira (23), garantindo não ter identificado qualquer atividade suspeita de apostas nem indícios de manipulação em jogos durante toda a competição. O contraste entre as duas versões reforça o caráter delicado da denúncia do Grupo de Copenhague, que insiste na necessidade de mais transparência sobre o caso Balogun.

Especialista recomenda cautela diante da denúncia

Apesar da repercussão, especialistas ouvidos pelo The Athletic pedem cuidado antes de tratar os sete alertas como prova definitiva de manipulação em jogos. Christian Kalb, consultor especializado em regulação do mercado de apostas que já colaborou com o próprio Grupo de Copenhague, explica que oscilações bruscas em cotações costumam ter explicações legítimas, como manobras de proteção financeira usadas pelas casas de apostas para reduzir prejuízo diante de grandes volumes concentrados em um único resultado.

Segundo Kalb, o verdadeiro alerta aparece quando existe conflito de interesses ou vazamento de informação privilegiada envolvendo quem aposta, e não simplesmente quando uma cotação muda de forma abrupta. Ele lembra ainda que plataformas como a Polymarket também são usadas por operadores do mercado para equilibrar sua exposição financeira diante de apostas pesadas em times favoritos.

Volume recorde de apostas dá ainda mais peso à denúncia

O pano de fundo financeiro ajuda a entender por que a denúncia ganhou tanta repercussão. O Grupo de Copenhague estima que cerca de 240 bilhões de dólares foram apostados durante a Copa de 2026, praticamente o dobro do volume registrado no Mundial do Catar, em 2022. Esse salto coincidiu com o primeiro monitoramento contínuo de plataformas de mercado preditivo, caso da própria Polymarket e da Kalshi, esta parceira oficial da Fifa.

Segundo o relatório, esse tipo de plataforma representa um desafio novo para quem fiscaliza o setor, já que permite apostas sobre uma quantidade ampla de eventos dentro de uma mesma partida, muitas vezes de forma anônima e com métodos de pagamento difíceis de rastrear. É esse cenário que deve manter viva a discussão sobre manipulação em jogos, enquanto Fifa e Grupo de Copenhague seguem em lados opostos sobre a real gravidade dos sete casos apontados na denúncia.