Do giz às telas: professores de Uberlândia revelam desafios de ensinar em uma sociedade em transformação

Com a sobrecarga da rede pública e as dinâmicas do ambiente universitário, educadores da região analisam o abismo entre o ensino tradicional e a era da hiperconexão na Semana dos Professores

, em Uberlândia

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Disputar a atenção de uma sala de aula com telas de smartphones que notificam novidades a cada segundo tornou-se a nova rotina das instituições de ensino. No ecossistema educacional brasileiro, lecionar exige muito mais do que domínio de conteúdo; demanda inteligência emocional, escuta e capacidade contínua de adaptação. Na semana em que se comemora o Dia dos Professores, a reportagem ouviu dois profissionais de frentes distintas da educação para compreender o momento de inflexão vivido pela categoria.

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Educação enfrenta o desafio de acompanhar as mudanças na sociedade, despertar o interesse dos estudantes e transformar o conhecimento em novas oportunidades – Créditos: Imagem criada por IA/Gemini

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De um lado, a sala de aula da rede pública absorve desigualdades sociais e os desafios da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e do Ensino Fundamental. Do outro, o universo do Ensino Superior e da Pós-Graduação lida com profissionais em transição de carreira que buscam atualizar seus métodos frente às constantes inovações do mercado.

A vulnerabilidade e o resgate da cidadania

Na ponta do ensino público municipal e estadual, a professora Luzeni Cruz vivencia o impacto direto dos problemas estruturais que afetam a sociedade e deságuam na sala de aula.

Para ela, o trabalho com o Ensino Fundamental e com a EJA escancara como a vulnerabilidade social e a dependência tecnológica afetam a retenção de alunos.

“A escola pública é muito sobrecarregada, porque os problemas da sociedade acabam desaguando nela: as violências, as desigualdades sociais e a vulnerabilidade das famílias. Além disso, disputar a atenção dos jovens com o uso excessivo dos celulares e a influência das redes sociais em um mundo de estímulos tão rápidos não é simples”, pontua a educadora.

Apesar dos obstáculos diários e do desinteresse pontual de parcelas dos estudantes, Luzeni enfatiza que a escuta e o acolhimento superam a simples transmissão de matérias teóricas.

A motivação da docente renasce em episódios como o de uma aluna egressa que concluiu a Educação Básica e conquistou a vaga na faculdade, tornando-se a primeira pessoa da família a ingressar no Ensino Superior.

Ao migrar a abordagem pedagógica para a EJA, o papel docente transforma-se novamente. Segundo a professora, o adulto não ingressa na sala como um quadro em branco, mas com bagagens de vida que exigem diálogo com os conteúdos acadêmicos.

“Na EJA, ensinar também é aprender a olhar para o conhecimento para além dos livros. As pessoas trazem saberes construídos no trabalho e na família. Quando retornam, trazem a coragem de recomeçar”, reflete Luzeni.

O ecossistema corporativo e as novas metodologias

Já no contexto das universidades e pós-graduações, a transição entre o mercado corporativo e a docência revela outro ângulo da crise do ensino.

O professor Leo Veloso, que atuou durante anos como executivo e gestor em grandes empresas antes de migrar definitivamente para o magistério, observa que o modelo educacional tradicional estagnou diante da evolução da sociedade.

“A maior dificuldade do professor hoje é a mudança. A sociedade mudou bastante, a forma de consumo de informação mudou. Mas a profissão do professor ficou um pouco estagnada. Essa transição exige adaptações às novas gerações e aos formatos de aprendizado que a sociedade cobra”, avalia Veloso.

Para o professor, a transição para métodos interativos — como a aprendizagem baseada em projetos e metodologias ativas — é o único caminho viável para manter as turmas engajadas e reter alunos habituados à fartura de dados disponíveis na internet.

“A gente não vive mais no mundo do ‘copia e cola, aprendi isso’. O acesso à informação é amplo. A sala de aula precisa ser um canal ativo para formar uma sociedade mais ética e com senso coletivo”, defende o educador.

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Dois caminhos, o mesmo diagnóstico

Ainda que existam realidades pedagógicas com perfis operacionais e orçamentários distintos, os profissionais convergem em uma premissa fundamental: a atividade docente não pode ser vista apenas como um ato individual do professor, nem restrita ao momento em que as portas das salas se fecham.

Pelo olhar do ensino básico destaca-se a urgência de investimentos em infraestrutura, apoio multiprofissional, redução do quantitativo de alunos por turma e valorização salarial, garantindo que a escola continue sendo a principal porta de saída da vulnerabilidade social.

Já pela lente do ensino superior, enfatiza-se a necessidade de reformular políticas públicas de formação continuada desde a graduação, preparando os educadores com ferramentas pedagógicas contemporâneas e capacidade para mediar o pensamento crítico.

O que mantém os professores na profissão?

Para Luzeni, acompanhar alguém superar dificuldades, reconhecer a própria capacidade ou conquistar uma oportunidade de formação reforça a importância de continuar ensinando.

Para Leo, a docência oferece a possibilidade de influenciar a maneira como os estudantes compreendem o mundo e participam da sociedade.

Os relatos mostram que a transformação da educação não depende de uma única resposta.

Ela passa pelo enfrentamento das desigualdades, pela valorização dos profissionais, pela formação continuada e pela capacidade de construir práticas de ensino que dialoguem com as necessidades dos estudantes.

Entre as dificuldades estruturais da escola pública e as mudanças nas formas de aprender, ensinar continua sendo um trabalho que exige adaptação, conhecimento e compreensão das pessoas por trás de cada aluno.

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