Mulheres da periferia de Uberlândia usam o digital para liderar negócios
Distantes dos centros econômicos, elas assumem protagonismo e passam a ocupar o novo eixo dos negócios femininos; impulsionadas pela tecnologia, 45% das empreendedoras de Uberlândia têm faturamento exclusivamente digital
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A economia brasileira passou por sucessivas transformações nas últimas quatro décadas, marcadas pela mudança de moedas, digitalização dos processos produtivos e popularização da tecnologia no cotidiano. Nesse percurso, a inovação deixou de ser exclusividade dos grandes centros econômicos. Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, mulheres da periferia lideram a transformação do comércio local a partir de cozinhas, garagens e pequenos espaços domésticos, transformando o celular em ferramenta de autonomia e geração de renda.

Da periferia para as multinacionais
Os micronegócios da periferia rompem fronteiras municipais e alcançam o mercado de grandes volumes. Camilla Sol, de 36 anos, nascida no bairro Nossa Senhora das Graças e filha de uma faxineira e de um alfaiate, graduou-se em Administração e iniciou a fabricação de cosméticos artesanais como renda extra. Posteriormente, utilizou recursos de uma rescisão contratual para investir integralmente na Sol Saboaria.
Camilla desenvolveu uma formulação própria de sabonete hidratante para peles pretas, sem agentes clareadores. Ela firmou parcerias com engenheiros químicos e obteve o registro definitivo na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Com foco no tráfego orgânico do site e no alcance das redes sociais, a empresária migrou do ambiente doméstico para o mercado B2B (business-to-business). A estratégia resultou em contratos de fornecimento em larga escala com multinacionais.

No ano passado, a gestão de Camilla conquistou o primeiro lugar no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios. “Não importa onde começou, o que importa é para onde você vai. Tem que ter cara, coragem e ‘corre’, mas principalmente apoio”, afirma a empresária.’
De acordo com um levantamento realizado pelo Sebrae, Uberlândia registra 142.334 empresas ativas em 2026. A liderança feminina responde por mais de 38% desse mercado, o que representa 54.837 negócios comandados por mulheres.
Digitalização como ponto de virada nos pequenos negócios
A transição para o mercado digital caracteriza a trajetória de Lorraine Oliveira de Andrade, que há oito anos comanda uma sorveteria no bairro Morumbi. Filha de comerciantes, ela cresceu com o método tradicional de vendas porta a porta praticado pelos pais. Ao assumir o próprio negócio ao lado do marido, entendeu que o crescimento dependia dos canais digitais.

A migração do atendimento para o WhatsApp e a criação de uma vitrine no Instagram ampliaram a escala da empresa, que planeja abrir uma filial física no assentamento Santa Clara. Para a especialista do Sebrae Minas, Fabiana Queiroz, o smartphone atua como o principal impulsionador logístico desse processo.
“O ambiente digital trouxe possibilidades e superou barreiras geográficas que isolavam a periferia. Ele aproximou quem quer servir de quem precisa consumir. Uma mulher gerencia estoque, busca informações e envia mercadorias de dentro de casa para qualquer lugar, tornando-se competitiva frente ao varejo físico tradicional.”
Essa competitividade reflete-se nos dados locais: 45% das empreendedoras vendem exclusivamente por canais digitais, enquanto 33% combinam o modelo híbrido (loja física e digital), conforme pesquisa do Sebrae Minas.
Quando a oportunidade vem primeiro
Aos 22 anos, Ana Júlia comanda uma loja digital de camisas de futebol no bairro Santa Rosa. O negócio é sustentado pelo apoio da mãe, que trabalha com transporte escolar, e pelo auxílio do irmão nas estratégias de marketing.
“Vim de uma família que sempre passou dificuldades. Minha mãe me criou sozinha e batalhou muito para que eu tivesse essa oportunidade hoje”, afirma.
O caso se insere em um cenário de expansão do empreendedorismo local. Em Uberlândia, foram registradas 9.749 novas microempresas em um ano, das quais 43% têm participação feminina, totalizando 4.201 novos negócios, segundo o levantamento do Sebrae.

A empreendedora pontua que o suporte familiar foi essencial até consolidar a renda própria, que hoje se tornou o sustento principal da casa. Assim como Ana Júlia, cerca de 93% das empreendedoras têm no negócio sua principal fonte de renda, e 59% são as principais provedoras financeiras da família, de acordo com um estudo realizado pela Fecomércio-MG.
“Todo mundo busca melhorar a renda e ter mais segurança financeira. Mas, na nossa região, percebemos que os empreendimentos com maior potencial de crescimento e sustentabilidade geralmente surgem quando existe uma oportunidade identificada ou o desejo de transformar um sonho em realidade”, analisa Fabiana Queiroz.
Ana Júlia concilia as vendas com a faculdade, utilizando o WhatsApp para fechar pedidos e anúncios patrocinados no Instagram. Em ano de Copa do Mundo, a demanda superou a capacidade de entrega dos fornecedores.
“Por ser um mercado masculino, os clientes frequentemente perguntam se o negócio é meu. Alguns não dão atenção no início. Mas a mulher é uma gestora nata, organizada, e isso facilita nossa inserção”, afirma a jovem, que trocou o emprego sob regime CLT pelo faturamento do próprio negócio.
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Custo logístico e o peso da dupla jornada
O crescimento das métricas comerciais coexiste com assimetrias enfrentadas fora do centro urbano. O estudo revela que 35% das microempreendedoras apontam a escassez de recursos financeiros e crédito como a principal barreira inicial, enquanto 91% operam sem acesso a redes de apoio ou mentorias institucionais.

A distância geográfica ainda impõe entraves logísticos que a tecnologia, por si só, não consegue superar. Camilla Sol relembra as dificuldades práticas de gerir a operação nas bordas da cidade.
“Quando eu tinha 15 anos, eu via a realidade, ninguém subia para buscar produtos de nenhum empreendedor por medo do bairro. Até hoje, há motoboys e motoristas de aplicativo que se recusam a entrar em determinadas áreas da periferia. O conhecimento também é limitado. A mulher que recebe cem reais hoje de um produto que suou para produzir, precisa guardar cinquenta para almoçar amanhã. É preciso apoio real e estruturado.”
Dados do Sebrae Minas confirmam que 49% das empreendedoras lidam com carga mental constante, apontando a sobreposição de responsabilidades entre empresa, casa e família como o principal motivo de insatisfação. Além disso, quatro em cada dez mulheres dedicam de 8 a 12 horas diárias ao negócio, e 16% trabalham mais de 12 horas por dia.
Leia Mais: Por que mulheres na tecnologia ainda são minoria no interior de MG?
Redes de apoio e capacitação nos bairros
Programas públicos itinerantes atuam para descentralizar o suporte técnico no município. O projeto “Uberlândia Empreendedora nos Bairros” leva consultorias de formalização e finanças para escolas públicas da periferia. No bairro São Jorge, as mulheres representaram 58% dos atendimentos realizados.
No bairro Morumbi, oficinas de inclusão digital desenvolvidas nos Centros Educacionais de Assistência Integrada (Ceais) capacitam a comunidade em produção de conteúdo e fotografia digital. Segundo a Prefeitura de Uberlândia, as mulheres somam 70% dos concluintes das capacitações oferecidas nos centros profissionalizantes.

Para Fabiana Queiroz, o futuro econômico regional depende do fortalecimento dessas redes descentralizadas. “Garantir mentoria digital, acesso ao crédito e suporte técnico direto na periferia é o que vai definir a sustentabilidade da economia mineira nos próximos anos”, conclui.
Empreendedoras locais dispõem de iniciativas como o Sebrae Delas, que oferece capacitações e consultorias; o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, voltado para MEIs, microempresárias e produtoras rurais; e o Programa Mulheres em Foco, com mentorias online acessíveis pelo celular.