Corte de verbas impede patente internacional e ameaça exclusividade da polilaminina

Sem proteção global, polilaminina poderá ser produzida no exterior sem retorno financeiro ao Brasil

, em Uberlândia

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A ausência de uma patente internacional pode fazer com que a polilaminina, medicamento brasileiro que dá esperança às pessoas com lesão espinhal, passe a ser produzida em outros países, sem exploração comercial por parte dos desenvolvedores. A situação foi explicada pela Dra. Tatiana Sampaio, desenvolvedora da medicação, e foi causada por cortes de verbas na educação. A pesquisadora, inclusive, tirou dinheiro do próprio bolso para manter os direitos em solo nacional.

Polilaminina não tem patente internacional, segundo desenvolvedora
– Crédito: Reprodução/ Laboratório Cristália

Em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, da TV 274, Tatiana Sampaio afirmou que cortes de gastos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde o medicamento foi desenvolvido, comprometeram a obtenção de patentes internacionais e que, para manter a patente nacional, a bióloga teve que assumir os custos com o próprio bolso.

“Nós fizemos a patente nacional e depois fizemos a internacional, tudo dentro do prazo certinho. A internacional não foi concedida, porque a UFRJ teve um corte de recursos. Os recursos da UFRJ foram muito reduzidos, especialmente em 2015 e 2016, e não havia dinheiro para pagar. Ficamos apenas com a nacional, que eu paguei do meu bolso por um ano para não perder. Agora outros países podem copiar, à vontade. A UFRJ não tinha recursos,” afirmou em entrevista.

Em dezembro de 2015, a UFRJ declarou precisar de um repasse emergencial de R$ 145 milhões para encerrar o segundo semestre letivo do ano. O quadro orçamentário divulgado também contabilizou um déficit que ultrapassa R$ 300 milhões. 

De acordo com Lucas Marinho, advogado especialista em propriedade intelectual, no Brasil, o processo de patente é extremamente caro e complexo. Tanto no processo de patentes nacionais e patentes internacionais, também existem taxas anuais para serem pagas, com pena de possível perda da patente.

“O valor de honorários hoje, em relação a processos de patentes, é muito mais alto do que para conduzir um processo de registro de marca. Isso acontece porque o tempo de condução é elevado e porque a complexidade também é maior, já que envolve conhecimento multifacetado e interdisciplinar, além de lidar com engenharia e detalhes técnicos”, explicou em entrevista ao Paranaíba Mais.

Ainda na entrevista, Tatiana ressaltou o prejuízo causado pela ausência desta patente, já que os desenvolvedores (a UFRJ e um laboratório que financia a pesquisa) não vão ter o direito de monopolizar os frutos de sua pesquisa, como seria de direito. Parte dos recursos arrecadados a partir desta patente internacional, inclusive, seriam direcionados para a própria UFRJ.

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Burocracia e perdas para além da patente internacional

Tatiana também apontou para um cenário precário na emissão de patentes nacionais, o da demora para a emissão, que comprometerá até a exploração comercial da pesquisa dentro do país. O direito à exploração nacional da polilaminina, em forma de monopólio por parte dos seus desenvolvedores, só vai durar por mais dois anos, devido à forma com que o processo é conduzido no Brasil.

Marinho explica que o pedido de patente acontece junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), um órgão federal que concede direitos em relação à propriedade intelectual. O processo é administrativo, e não acontece em forma judicial.

O que comprometeu a exploração por parte dos desenvolvedores da polilaminina foi a dinâmica dos prazos, relacionados a este processo. Uma patente só garante o direito de monopólio por um período de 20 anos, mas este prazo é contado a partir do momento em que o processo é protocolado.

No caso do medicamento brasiliero, segundo a desenvolvedora, o processo para a obtenção da patente nacional durou 18 anos. Agora, com o direito garantido, restam apenas 2 anos do seu direito de monopólio. “O INPI, que é o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, tem um déficit de funcionários que faz com que o processo demore até 18 anos para aprovar e conceder uma patente. Realmente, isso prejudica.”

É importante ressaltar que o medicamento ainda está em fase de estudos clínicos, o que faz com que exista a possibilidade de, quando ele passar a poder ser comercializado, a patente pode não valer mais no Brasil. Algo que representa prejuízos financeiros para a universidade federal, que detém parte do direito deste monopólio.

Marinho ainda aponta que em 2 anos, o tempo que resta do direito ao monopólio no Brasil, muito provavelmente, não será o suficiente para trazer retorno a todo investimento, inclusive público, que foi feito no desenvolvimento da pesquisa.

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Não é possível protocolar outro pedido de patente internacional 

Na entrevista, a doutora também deixa claro que não é mais possível solicitar uma patente internacional devido aos prazos. Marinho explica que, ao protocolar um pedido de patente nacional, o solicitante possui um período de até 12 meses para registrar este mesmo pedido em outros países.

Segundo o advogado, isto é uma forma de garantir o ineditismo do produto que está sendo protocolado. “Para que essa patente seja concedida, ela precisa ser nova. Se já foi publicada ou recebeu alguma publicidade, deixa de ser considerada nova. A partir do momento em que você protocola o processo e passa o período de sigilo, outras pessoas terão acesso aos detalhes técnicos daquela invenção, podendo até mesmo, de certa forma, replicá-la”, explicou Lucas Marinho. 

Agora, já que a polilaminina não possui patente internacional, “muito provavelmente, lá fora vão copiar e utilizar esse know-how que hoje está publicado. É possível acessar os documentos com as explicações e os detalhes técnicos para realizar uma eventual cópia. Ainda que exista certa dificuldade na produção, isso poderá ser feito livremente fora do Brasil”, explicou o especialista. 

A falta de patente internacional também representa uma perda dos investimentos públicos, já que não serão mais exclusivos ao Brasil e nem à universidade envolvida no desenvolvimento do medicamento. Um cenário causado pelo corte de investimentos na educação.

O que é o medicamento brasileiro polilaminina

A polilaminina é uma proteína recriada em laboratório a partir da laminina, substância naturalmente presente no organismo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso.

Cientificamente, sua função está ligada à capacidade de orientar e estimular a conexão entre neurônios. Ao ser aplicada diretamente na área lesionada da medula espinhal, a expectativa é que ela atue como uma espécie de guia biológico, incentivando as células nervosas a formarem novas rotas e a restabelecerem, ao menos em parte, a comunicação interrompida pelo trauma.

A polilaminina é produzida naturalmente pelo corpo no desenvolvimento do sistema nervoso e, conforme descoberto pela equipe da UFRJ, pode ser obtida da placenta humana. “É uma alternativa mais acessível e segura do que as células-tronco. Nossos estudos estão em estágio mais avançado, pois as células-tronco possuem imprevisibilidade após a aplicação”, explica a bióloga Tatiana Sampaio, que coordena a pesquisa.

Os estudos conduzidos no Brasil indicam que essa proteína pode criar um ambiente favorável à regeneração neural, algo que, até hoje, representa um dos maiores desafios da medicina. A proposta não é regenerar totalmente a medula, mas permitir ganhos funcionais que hoje são considerados improváveis sem intervenção.