Medicamento brasileiro reacende esperança de pacientes com lesão na medula
Desenvolvido no Brasil e ainda em testes, um medicamento brasileiro criado a partir de proteína da placenta humana pode estimular a reconexão de nervos
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A ciência nacional voltou a chamar atenção ao apresentar um medicamento brasileiro em desenvolvimento que pode mudar o futuro de pessoas com lesão na medula espinhal. Produzida no Brasil, a substância promete estimular a recuperação parcial dos movimentos ao agir diretamente no ponto da lesão, ajudando o sistema nervoso a criar novos caminhos de comunicação. Apesar do otimismo, os pesquisadores reforçam que o tratamento ainda está em fase de testes e não está disponível para uso amplo.

Desenvolvido ao longo de mais de duas décadas por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o laboratório brasileiro Cristália, o composto ganhou novo fôlego após a autorização para o início de um estudo clínico de fase 1, que vai avaliar a segurança do uso em pacientes com trauma raquimedular agudo. A pesquisa é vista como um marco para a ciência nacional e para o Sistema Único de Saúde, mas segue sob rigoroso acompanhamento regulatório.
O que é o medicamento brasileiro polilaminina
A polilaminina é uma proteína recriada em laboratório a partir da laminina, substância naturalmente presente no organismo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso.
Cientificamente, sua função está ligada à capacidade de orientar e estimular a conexão entre neurônios. Ao ser aplicada diretamente na área lesionada da medula espinhal, a expectativa é que ela atue como uma espécie de guia biológico, incentivando as células nervosas a formarem novas rotas e a restabelecerem, ao menos em parte, a comunicação interrompida pelo trauma.
A polilaminina é produzida naturalmente pelo corpo no desenvolvimento do sistema nervoso e, conforme descoberto pela equipe da UFRJ, pode ser obtida da placenta humana. “É uma alternativa mais acessível e segura do que as células-tronco. Nossos estudos estão em estágio mais avançado, pois as células-tronco possuem imprevisibilidade após a aplicação”, explica a bióloga Tatiana Sampaio, que coordena a pesquisa.
Os estudos conduzidos no Brasil indicam que essa proteína pode criar um ambiente favorável à regeneração neural, algo que, até hoje, representa um dos maiores desafios da medicina. A proposta não é regenerar totalmente a medula, mas permitir ganhos funcionais que hoje são considerados improváveis sem intervenção.
Medicamento brasileiro em fase de testes clínicos
Antes de chegar aos estudos atuais, a polilaminina passou por uma longa trajetória de pesquisas em laboratório e em animais. Em um estudo com cães paraplégicos, que não apresentavam melhora mesmo após cirurgia e fisioterapia prolongada, a aplicação direta da substância na medula resultou em avanços motores relevantes.
Parte dos animais voltou a dar passos e apresentou maior firmeza na marcha ao longo de seis meses de acompanhamento, sem registro de efeitos colaterais graves. Em humanos, o medicamento brasileiro já foi utilizado de forma experimental em pequenos grupos, dentro de protocolos acadêmicos.
Alguns voluntários que haviam perdido completamente os movimentos abaixo da lesão relataram recuperação parcial da mobilidade, com ganhos que variaram desde movimentos discretos até maior controle de tronco e passos com auxílio. Ainda assim, o número reduzido de participantes impede conclusões definitivas.
Agora, com a autorização regulatória, terá início o estudo clínico de fase 1, que vai avaliar a segurança da substância em cinco pacientes com lesão medular aguda, ocorrida há menos de 72 horas. Essa etapa é fundamental para identificar riscos, monitorar possíveis eventos adversos e definir os próximos passos do desenvolvimento clínico.
Em vídeo publicado por médicos do Espirito Santo, um paciente de 24 anos que sofreu fratura na coluna, após um acidente em uma cachoeira, volta a ganhar movimentos.
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Resultados iniciais e produção nacional do medicamento brasileiro
Os resultados obtidos até agora são considerados promissores, mas ainda preliminares. Pesquisadores e autoridades de saúde ressaltam que a eficácia precisa ser confirmada em estudos maiores e controlados, seguindo todas as etapas exigidas pela regulação sanitária. Somente após a conclusão das fases clínicas e a análise detalhada dos dados será possível avaliar se o medicamento brasileiro poderá ser incorporado à prática médica.
A produção da polilaminina ocorre em território nacional, no complexo industrial do laboratório Cristália, em parceria com a UFRJ. A matéria-prima é obtida a partir de placentas humanas doadas voluntariamente, coletadas em hospitais parceiros. Segundo os responsáveis pelo projeto, a estrutura atual é suficiente para atender às demandas da pesquisa, mas poderá ser ampliada caso o tratamento avance para fases posteriores e produção em maior escala.
Enquanto o caminho regulatório segue seu curso, a polilaminina se consolida como uma das iniciativas mais relevantes da ciência brasileira na busca por alternativas para lesões da medula espinhal. O medicamento brasileiro ainda não representa uma cura, mas simboliza um avanço concreto em um campo marcado por décadas de limitações terapêuticas, equilibrando esperança e cautela na mesma medida.