Tecelões vivem apreensão sobre futuro incerto no Centro de Tecelagem

Prefeitura pretende utilizar o espaço para instalação do novo Centro Integrado de Inteligência e Segurança, mas até o momento não houve notificação oficial da decisão aos responsáveis

, em Uberlândia

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Mais de 30 anos após a sua criação, em 1992, o prédio que abriga o Centro de Fiação e Tecelagem de Uberlândia, hoje chamado Fios do Cerrado, se tornou motivo de preocupação para tecelões que utilizam o espaço e também para um grupo de arquitetos do Instituto Repassos que defendem a manutenção da estrutura tombada. A preocupação surgiu após a divulgação pela Prefeitura de Uberlândia, no dia 11 de fevereiro, de que o espaço será utilizado para a instalação do novo Centro Integrado de Inteligência e Segurança (CIIS).

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Centro de Tecelagem terá espaço usado para instalação do Centro Integrado de Inteligência e Segurança – Crédito: Giovanna Abelha/Paranaíba Mais

Ariel Lazzarin, arquiteto responsável pela comunicação do instituto, explica que essa decisão da prefeitura, caso seja mantida, esvazia o propósito do espaço, que foi projetado e construído com o intuito de transmitir e preservar a tradição da tecelagem no município. “Nossa reivindicação é que o prédio continue sendo totalmente utilizado para a tecelagem e que sejam investidos recursos para aumentar suas atividades”, disse Ariel. O instituto encaminhou ofício à várias secretarias do Município cobrando explicações, mas ainda não obteve respostas.

Mudança de propósito ainda não foi notificada oficialmente

Em fevereiro, a Prefeitura  anunciou um contrato de financiamento com o BNDES no valor de R$ 88 milhões para instalação do CIIS, que prevê “unificar dentro de um único espaço, no antigo Centro de Tecelagem, todas as unidades de videomonitoramento, com bases operacionais” de órgãos como Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, Polícia Militar, Patrulha Rural e Patrulha Ambiental.

Diante do anúncio, o Instituto Repassos encaminhou um pedido formal de esclarecimentos sobre a decisão a diversas instâncias da prefeitura, mas ainda não teve nenhum retorno. No documento, é destacado que o espaço foi concebido especificamente como local de trabalho, formação e difusão da tecelagem manual, sendo considerado núcleo fundamental para manutenção desse patrimônio cultural, com forte contribuição do artista têxtil Edmar de Almeida.

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Genili Ferreira, tecelão de 63 anos, realizando trabalho no Fios do Cerrado – Crédito: Giovanna Abelha/Paranaíba Mais

A entidade ainda ressaltou que o Centro de Fiação e Tecelagem é um patrimônio tombado, fruto de um amplo processo de preservação de saberes tradicionais transmitidos, sobretudo por mulheres, ao longo de gerações no Triângulo Mineiro.

A equipe do Paranaíba Mais entrou em contato com a Fundação Filadélfia, responsável pela administração do Fios do Cerrado, para que se manifestasse sobre as pretensões do Município para o prédio, mas a instituição informou que ainda não foi notificada oficialmente.

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Segundo o presidente Marcio Nobre, a Prefeitura de Uberlândia não confirmou se a decisão de fato será firmada e nem como funcionaria, uma vez que não foi especificado se as atividades de tecelagem, que ainda são realizadas no espaço, seriam remanejadas para outro lugar ou se coexistiriam com o CIIS no mesmo endereço.

Em conversa com o coordenador do Fios do Cerrado, Cristino Vieira, e com tecelões que trabalham no centro, o Paranaíba Mais constatou que nenhuma divulgação oficial foi feita, mas que a notícia já tem se espalhado e preocupado os trabalhadores.

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Helena Cândido, de 66 anos, é uma das tecelãs da Fios do Cerrado – Crédito: Giovanna Abelha/Paranaíba Mais

O tecelão Genili Ferreira, de 63 anos, conta que o lugar onde estão hoje é de fácil acesso. “Dependendo do local para onde for, não sei se terá vantagem. A gente tem muitas boas lembranças aqui”, comenta. Helena Cândido, de 66 anos, tecelã há 21 anos, também conta que uma possível mudança para um endereço longe pode dificultar a sua continuidade no trabalho.

O Paranaíba Mais encaminhou e-mail à Secretaria de Comunicação (Secom) da Prefeitura de Uberlândia perguntando sobre o que acontecerá com o Centro de Tecelagem diante da instalação da Central de Segurança, qual o prazo de instalação e condições para que essa mudança fosse realizada. Em nota, a Secom esclareceu apenas que “as atividades de tecelagem serão preservadas e detalhes serão divulgados em momento oportuno”.

História estampada nos teares e nas paredes

Idealizado no início dos anos 90 por Edmar de Almeida, o Centro de Fiação e Tecelagem nasceu com a proposta de reunir tecedeiras da região, incentivar o aumento da renda das famílias das cidades médias mineiras e transmitir o conhecimento para jovens da comunidade, mantendo uma tradição centenária da região.

Para o desenvolvimento do projeto arquitetônico, a Prefeitura de Uberlândia convidou dois jovens arquitetos, Roberto Andrade e Maria Eliza Guerra, para atuarem com a arquiteta do Município Maria Cristina de Freitas, com quem dividem a autoria.

Assim, o agora Fios do Cerrado, que até hoje está instalado na avenida Francisco Galassi, nº 855, esquina com avenida Rondo Pacheco, foi totalmente pensado para receber as atividades de tecelagem. Desde o seu formato em hexágono, que se deu para um refinamento e resguardo de toda a lógica da produção, até na fachada idealizada pelo artista Henrique Lemes, que se inspirou nas memórias com sua avó tecelã e nas colchas que produzia.

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Muro do Fios do Cerrado, idealizado pelo artista Henrique Lemes – Crédito: Acervo Henrique Lemes/Reprodução

 

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Muro do Fios do Cerrado mantém projeto original – Crédito: Giovanna Abelha/Paranaíba Mais

Mas, mais do que um espaço de memória física, há também uma manutenção da memória humana. O atual coordenador, Cristino Vieira, começou como aprendiz em 1994, aos 14 anos, e ainda hoje ajuda a preservar essa cultura. Ele conta que já viu diversas pessoas e histórias passarem por ali, além de ter participado de diversos projetos de reconhecimento que levam a produção das tecelãs de Uberlândia.

Entre os trabalhos mais recentes, os tecidos confeccionados no Fios do Cerrado já participaram de exposições no Japão e na Holanda. Recentemente, o grupo produziu parte de um projeto têxtil para a multinacional Google, que vai inaugurar uma sede em São Paulo. “Para esse projeto, foram tecidos 200m aqui. A inauguração deste trabalho vai ser em breve e o Centro de Tecelagem vai ser homenageado”, conta Vieira.

O espaço ainda comporta uma série de outras parcerias, como visitas de escolas municipais, estaduais e faculdades, além de abrir o espaço para eventos culturais e artísticos que casam com o projeto. Atualmente, o centro também tem uma parceria com um professor de Medicina da UFU, que vem criando um jardim sensorial no pátio interno e central do espaço, como forma trazer mais significados à construção.

“Eu posso dizer que toda a minha vida e experiência de trabalho foi aqui no Centro de Tecelagem. Comecei aqui aos 14 anos e não saí mais. Hoje, já com 47 anos, dá pra dizer que já fiz alguns metros de tecidos”, destaca Cristino.

Vozes de quem tece

O Fios do Cerrado, hoje, tem uma equipe de tecelagem com 10 pessoas. Entre os trabalhadores está Helena Cândido Siqueira, de 66 anos, que atua no local há duas décadas. “Aqui vai fazer 21 anos. Eu gosto muito porque é uma coisa que distrai a gente. O que fica da porta para fora, eu entro e não lembro”, conta. Ela diz que aprendeu a tecer ainda na infância, com a mãe e a irmã. Em cada fio que ela tece, há um registro de uma lembrança afetiva, que é repassada para suas produções.

O tecelão Genili Ferreira da Silva, de 63 anos, o único homem do grupo atualmente, entrou no centro em 2004, fazendo serviços gerais. Se interessou tanto pela produção feita no local que, aos poucos, mesmo escondido, ele se arriscava a aprender. Até que um dia houve oportunidade de formação e, em 2012, passou a atuar como tecelão, onde segue até hoje.

“A primeira vez que vim aqui, eu estranhei. Não tinha nem noção do que era. Mas tinha aquela curiosidade pelo diferente. Assim que surgiu a oportunidade, eu aprendi. Aqui é um lugar muito bom, onde a gente tem boas lembranças, tanto de amizades quanto de visitas que recebemos aqui”, diz.

Patrimônio em atividade

Atualmente, o espaço é administrado pela Fundação Filadélfia desde 2012, uma instituição do terceiro setor sem fins lucrativos, por meio de um termo de colaboração firmado com a Prefeitura de Uberlândia. Segundo Neilton Gonzaga, diretor executivo da Fundação Filadélfia, o acordo estabelece um plano de trabalho com obrigações definidas para a organização, que recebe repasses públicos para a manutenção das atividades. “A prefeitura anualmente faz um repasse de recurso, que nós administramos para o trabalho acontecer da forma que acontece. Então, embora o prédio seja da prefeitura, toda a contratação, todos os encargos, toda a demanda trabalhista é responsabilidade nossa”, diz.

Assim, toda a produção artesanal feita no Fios do Cerrado é comercializada exclusivamente na loja do próprio centro. De acordo com o diretor, todo o recurso obtido com as vendas é integralmente reinvestido nos projetos sociais e de manutenção da tecelagem, já que a instituição não possui finalidade lucrativa.

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Dinheiro da Lojinha do Fios do Cerrado é revertido em projetos – Crédito: Giovanna Abelha/Paranaíba Mais

A entidade afirma que, mesmo com o apoio municipal por meio do termo de colaboração, o espaço enfrenta desafios para ampliação das atividades. Entre eles está a baixa procura de novos aprendizes, especialmente entre os mais jovens, o que preocupa quanto à continuidade da tradição. Mesmo com limitações de investimento, o Centro de Tecelagem segue ativo, produzindo peças, mantendo loja própria e promovendo ações de difusão cultural.

Enquanto não há uma definição clara sobre o futuro do Fios do Cerrado, os trabalhadores seguem mantendo viva, entre fios, repassos e teares, uma tradição que atravessa gerações em Uberlândia.