El Niño: governo libera R$ 64 milhões para enfrentar impactos no Brasil; veja o que está previsto
Crédito extraordinário será usado para compra de alimentos e atendimento emergencial a comunidades indígenas; fenômeno deve ganhar força e pode alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do país
O governo federal abriu R$ 64 milhões em crédito extraordinário para enfrentar possíveis impactos do El Niño no Brasil. A medida foi assinada pelo presidente em exercício, Geraldo Alckmin, e publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira (22).

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
Do total, R$ 40 milhões serão destinados ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) para a compra e distribuição de alimentos da agricultura familiar. Outros R$ 24 milhões serão destinados a ações emergenciais para comunidades indígenas, incluindo fornecimento de alimentos, água potável e insumos essenciais.
A liberação ocorre em um momento de intensificação do fenômeno. Segundo o Painel El Niño 2026-2027, elaborado por órgãos como INPE, INMET e Cemaden, há mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro e novembro, com previsão de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027.
R$ 64 milhões serão usados em ações emergenciais
A maior parcela do recurso federal, de R$ 40 milhões, será empregada na aquisição de alimentos produzidos por pequenos agricultores. A expectativa apresentada no material divulgado pelo governo é de compra de aproximadamente 6,6 mil toneladas de mantimentos para a Amazônia Legal.
A ação deve alcançar cerca de 1,3 mil comunidades indígenas e beneficiar mais de 4 mil famílias de agricultores familiares.
Os outros R$ 24 milhões serão direcionados a ações emergenciais da Funai, com distribuição de água potável, alimentos e outros insumos básicos para comunidades indígenas.
A iniciativa está relacionada aos possíveis impactos do El Niño sobre o abastecimento e as condições de vida de populações que vivem em áreas mais vulneráveis às alterações climáticas.
Minas Gerais pode ter menos chuva durante a primavera
A previsão climática para setembro, outubro e novembro de 2026 indica maior probabilidade de chuvas abaixo da média em partes do Sudeste, incluindo Minas Gerais e Espírito Santo. Ao mesmo tempo, as temperaturas devem ficar acima da média em praticamente todo o país.
Uma nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e Censipam também aponta indicativos de condições mais secas em áreas de Minas Gerais durante a primavera, período entre setembro e dezembro.
Isso não significa que todo o estado terá pouca chuva. A previsão é sazonal e indica uma tendência para grandes áreas. A ocorrência de pancadas, temporais ou períodos chuvosos em municípios específicos depende também de sistemas atmosféricos de menor escala.
Para o leitor do Triângulo Mineiro, portanto, o cenário climático deve ser acompanhado em conjunto com as previsões meteorológicas atualizadas para cada município.
Minas já criou comitê para acompanhar o El Niño
O governo de Minas Gerais também adotou uma medida específica diante do cenário.
Em setembro, foi criado o Comitê Estadual de Enfrentamento aos Efeitos do El Niño, por meio do Decreto nº 49.283, publicado no Diário Oficial de Minas Gerais. O grupo tem caráter consultivo e deliberativo e foi criado para coordenar ações de monitoramento, prevenção, mitigação, preparação e resposta aos possíveis impactos do fenômeno no estado.
A criação do comitê não representa, por si só, um alerta meteorológico para Minas Gerais. A estrutura funciona como mecanismo de planejamento e articulação entre órgãos estaduais diante das previsões climáticas.
Leia Mais: El Niño ganha força e pode mudar o padrão de chuvas em Minas Gerais; veja o que esperar
O que o El Niño pode provocar no Brasil?
O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. A alteração da temperatura do oceano interfere na circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões.

A previsão para o trimestre setembro-outubro-novembro aponta maior probabilidade de chuvas acima da média no Sul, além de condições mais secas em áreas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Minas Gerais aparece entre os estados com maior probabilidade de chuva abaixo da média.
As temperaturas, por sua vez, devem ficar acima da média em praticamente todo o território nacional. A combinação entre calor e menor volume de chuva pode intensificar o déficit hídrico e aumentar as condições favoráveis a incêndios florestais em determinadas regiões.
Fenômeno pode continuar até 2027
O monitoramento diário do Climate Reanalyzer, plataforma interativa desenvolvida pelo Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade do Maine a partir de dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), mostra a intensidade do aquecimento no Pacífico Equatorial.
Na região do Niño 3.4, a anomalia de temperatura chegou a +3,04°C em 20 de setembro, ultrapassando a marca de 3°C.
As condições de El Niño foram confirmadas em junho de 2026. Os modelos climáticos acompanhados pelos órgãos de monitoramento indicam 100% de probabilidade de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027.

Para o trimestre de setembro, outubro e novembro, as projeções apontam mais de 90% de probabilidade de o episódio atingir intensidade classificada como muito forte. Os modelos também consideram a possibilidade de as temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial permanecerem com anomalias superiores a 2°C durante a primavera e o verão.
Segundo o Cemaden, a NOAA chegou a estimar ainda 69% de probabilidade de o El Niño de 2026/2027 se tornar o mais intenso desde 1950. O percentual, porém, corresponde a uma projeção baseada nos modelos climáticos e não representa um recorde já confirmado.
A evolução do fenômeno também é acompanhada na faixa do Pacífico Equatorial próxima às costas do Peru e do Equador. As mudanças na temperatura do oceano, combinadas às alterações na circulação atmosférica, podem modificar a distribuição de chuva e as temperaturas em diferentes regiões do planeta.
Quanto mais persistente for o aquecimento do Pacífico e a resposta da atmosfera, maior tende a ser a influência do El Niño sobre os padrões climáticos observados em outras partes do mundo.
Eventos extremos ajudam a dimensionar os riscos
O histórico mostra que episódios fortes de El Niño podem coincidir com alterações significativas nos padrões climáticos.
Em 1983, por exemplo, Blumenau, em Santa Catarina, permaneceu por aproximadamente um mês sob as águas, e mais de 200 mil pessoas ficaram desabrigadas no estado.
Outro episódio marcante ocorreu em maio de 2024, quando o Rio Grande do Sul enfrentou uma das maiores enchentes de sua história recente. Mais de 5,5 milhões de pessoas foram afetadas, segundo os dados citados no material-base.
Esses acontecimentos, porém, não devem ser atribuídos exclusivamente ao El Niño. Desastres meteorológicos e hidrológicos resultam da combinação de diferentes fatores atmosféricos, ambientais e territoriais, além do grau de vulnerabilidade de cada região.
Vulnerabilidade também influencia os impactos
O risco associado a um evento climático não depende apenas da intensidade da chuva, da seca ou do calor.
A plataforma federal AdaptaBrasil considera também fatores de exposição e vulnerabilidade. Municípios com menor cobertura de saneamento, dificuldades de acesso, menor renda e outras limitações estruturais podem enfrentar maiores obstáculos para responder a um desastre e se recuperar posteriormente.
Um dos exemplos citados no material-base é São Gabriel da Cachoeira (AM), município com forte presença indígena e que apresenta alto índice de vulnerabilidade. Entre os fatores estão a distância de rodovias, a baixa cobertura de saneamento e dificuldades relacionadas à renda e ao acesso à educação.
Esse tipo de vulnerabilidade ajuda a explicar por que parte das medidas anunciadas pelo governo federal está concentrada em segurança alimentar, água potável e atendimento a comunidades indígenas.
Governo cria página para acompanhar o fenômeno
Além da liberação dos recursos, o governo federal lançou uma página oficial dedicada ao El Niño.
A plataforma reúne informações sobre os efeitos esperados em cada região do país, orientações para governos estaduais e municipais e medidas de prevenção e resposta a possíveis desastres.
O conteúdo foi elaborado pela Secretaria de Comunicação Social e pela Casa Civil com o objetivo de concentrar informações para gestores públicos e população.
O acompanhamento contínuo é recomendado pelos órgãos responsáveis pelo Painel El Niño, principalmente diante da possibilidade de alterações no regime de chuvas, temperaturas elevadas e ocorrência de eventos extremos.
Continue acompanhando o Paranaíba Mais para conferir as atualizações da previsão do tempo e entender os possíveis impactos do fenômeno em Minas Gerais e no Triângulo Mineiro.