Na terra do sertanejo, mulheres fazem o rock ecoar em Uberlândia
No Dia Mundial do Rock, mulheres que ocupam os palcos mostram como o gênero se reinventa e defendem mais espaço para a cena local em Uberlândia
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Basta o primeiro acorde, um refrão conhecido ou a voz de um ídolo para uma memória voltar. Freddie Mercury, Mick Jagger, Axl Rose e Robert Plant ajudaram a transformar o rock em um fenômeno que atravessou décadas, fronteiras e até gerações. Nesta segunda-feira (13), o Dia Mundial do Rock celebra um gênero que mudou de forma avassaladora o modo que nos relacionamos com a música, influenciando outros estilos e sempre encontrando novas vozes.
A história também foi escrita por mulheres. Janis Joplin, Tina Turner e Ann Wilson romperam barreiras e ocuparam espaço em uma cena marcada, durante décadas, pela forte presença masculina. Cada uma, em diferentes momentos e vertentes, ajudou a ampliar os caminhos do gênero.
No Brasil, essa influência ganhou características próprias. Rita Lee se tornou uma das maiores referências do rock nacional, enquanto Cazuza e Legião Urbana marcaram a juventude dos anos 1980. Anos depois, Pitty levou guitarras e letras intensas a uma nova geração e se consolidou entre os principais nomes do gênero no país.

O rock mudou. Aproximou-se do pop, incorporou novas sonoridades e passou a dividir espaço com estilos que ganharam força nas plataformas digitais. Ainda assim, continua vivo nos palcos, festivais e nas bandas que beberam da fonte de artistas que fizeram história.
Em Uberlândia, cidade nacionalmente marcada pela força do sertanejo, quatro mulheres encontraram nessas referências uma forma de construir a própria identidade musical.
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Na terra do sertanejo, mulheres fazem o rock ecoar
Formada exclusivamente por mulheres, a Camini mistura pop e rock em um repertório construído a partir de diferentes gerações e referências. Rita Lee, Pitty, Lady Gaga, Hayley Williams, Avril Lavigne e Joan Jett estão entre os nomes que inspiram Letícia de Melo, Ana Fernandes, Larissa Soares e Myckaella Cabral.
Para a baixista Ana Fernandes, o rock nunca desapareceu. O gênero apenas acompanhou as transformações da música e passou a dialogar de maneira ainda mais próxima com outros estilos. “O rock nunca deixou de existir de verdade, ele só foi mudando de roupa ao longo do tempo. Muito do que a gente ouve no pop hoje, por exemplo, tem influência direta do rock”, afirma.
Ao lado de Letícia, nos vocais; Larissa, na guitarra e voz; e Myckaella, na bateria, Ana integra um projeto que encontrou justamente nesse encontro entre o pop e o rock uma identidade própria.

Camini nasceu da vontade de voltar aos palcos
A Camini surgiu em um período em que parte das integrantes estava desanimada com a música. Larissa e Ana já haviam dividido outros projetos quando, após a aproximação com Letícia, nasceu a vontade de criar algo novo. Desta vez, a ideia era formar uma banda exclusivamente feminina. “Nós três estávamos meio desanimadas com a música naquela época, então a banda acabou sendo uma forma de reencontrar essa vontade de tocar. A ideia foi saindo do papel aos poucos e, quando encontramos a Mycka, sentimos que a banda estava completa”, conta Larissa.
As referências femininas também ajudaram a construir a personalidade da banda. Apesar das diferentes trajetórias e estilos, Larissa identifica uma característica em comum entre as artistas que inspiram o grupo: a presença dentro e fora dos palcos. “A gente gosta muito de representar mulheres fortes, tanto pela música quanto pela atitude no palco. É uma mensagem que também queremos passar para outras mulheres: mostrar que elas podem ocupar esse espaço e fazer parte do rock e do pop do jeito delas.”

Das pioneiras às novas gerações de mulheres no rock
A presença feminina no rock atravessa diferentes gerações, mas a conquista de espaço continua sendo uma discussão presente entre artistas.
Para Myckaella, o cenário começa a se ampliar à medida que mais mulheres formam bandas, assumem instrumentos e conquistam os palcos. “Fazer parte dessa mudança é muito significativo, porque mostra que as mulheres também podem ocupar esses espaços e inspira outras meninas e mulheres a seguirem esse caminho”, afirma.
A baterista reconhece que barreiras e preconceitos ainda existem, inclusive quando parte do público demonstra surpresa ao ver mulheres tocando determinados instrumentos. Para ela, porém, a música precisa ocupar o centro dessa discussão. “O mais importante é que o nosso trabalho seja reconhecido pela qualidade, pela dedicação e pela música que fazemos, e não pelo fato de sermos mulheres.”
A vocalista Letícia de Melo começou a cantar há apenas dois anos e a se apresentar há cerca de um. A trajetória, segundo ela, mostra que não existe um único momento para começar na música. “A gente quer que outras meninas e mulheres se sintam capazes e tenham coragem de viver da música. Cada uma de nós tem uma experiência diferente com a carreira musical”, explica.
Para Letícia, a convivência com outras artistas também fez diferença no desenvolvimento profissional. “Uma dica que eu dou é conhecer pessoas, tentar, se jogar e não ter medo. Quando você se dedica e está cercada de pessoas talentosas, as coisas simplesmente fluem.”
Rock encontra espaço em uma cidade marcada pelo sertanejo
Conhecida pela força do sertanejo, Uberlândia também mantém uma cena de rock e pop rock formada por bandas, festivais, pubs e um público que acompanha o gênero.
Para Ana Fernandes, a presença de diferentes estilos não precisa ser encarada como uma disputa. “Mesmo em uma cidade onde o sertanejo domina, sempre existe uma galera procurando algo diferente, querendo cantar o refrão de uma música que marcou uma fase da vida ou simplesmente curtir uma energia diferente. Quanto mais diversidade musical existir, melhor para todo mundo.”
Myckaella também enxerga potencial de crescimento na cena local. Segundo ela, Uberlândia reúne bandas talentosas e um público fiel, mas ainda precisa ampliar o incentivo e as oportunidades para os artistas. “Com mais incentivo aos artistas locais, mais eventos e mais oportunidades para as bandas, o rock e o pop rock podem conquistar ainda mais espaço na cidade.”

Rock muda de formato e encontra novos públicos
Se durante décadas o rádio, os discos e os grandes palcos ajudaram a transformar artistas em ídolos mundiais, as redes sociais mudaram a maneira como novas bandas encontram o público.
Hoje, um trabalho desenvolvido em Uberlândia pode chegar rapidamente a pessoas de outras cidades e estados. “As redes ajudam a atingir pessoas de diferentes cidades e estados. Pessoas de vários lugares conseguem acompanhar o nosso trabalho e a gente se sente até mais próxima delas no dia a dia”, conta Letícia.
A conexão continua depois dos shows. Pelas redes, a banda recebe comentários e avaliações do público, criando uma proximidade que nem sempre é possível durante as apresentações.
Para as integrantes da Camini, essa capacidade de acompanhar diferentes gerações ajuda a explicar a permanência do gênero. “Enquanto existir gente querendo cantar, se emocionar e se identificar com uma música, o rock e o pop vão continuar vivos”, resume Ana.
Dia Mundial do Rock ganha programação em Uberlândia
A celebração do gênero também aparece na agenda cultural de julho em Uberlândia. Na quinta-feira (16), o Centro Municipal de Cultura recebe o festival É NOISE!, a partir das 17h.
Segundo a programação municipal, o evento celebra a cultura do rock e reúne música, arte, gastronomia, skate, discos de vinil e produção criativa local. A atividade é aberta ao público e tem classificação livre.
Das vozes que lotaram estádios e se tornaram símbolos de uma geração às bandas que hoje encontram espaço nos palcos locais e nas redes sociais, o rock continua mudando de roupa, como define Ana Fernandes. Em Uberlândia, até mesmo na terra do sertanejo, as guitarras seguem ligadas e novas vozes ajudam a escrever os próximos acordes dessa história.
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