Entre agulhas e ideias: conheça quem está reinventando a moda em Uberlândia

No Dia Internacional da Moda, quatro criadores de Uberlândia contam como referências, vivências, experimentação e aprendizado moldaram trajetórias no setor

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Antes da máquina de costura, vieram as brincadeiras com bonecas, os retalhos encontrados em casa, as revistas folheadas durante a infância e as referências descobertas na internet. Em Uberlândia, histórias que começaram de formas diferentes se encontram nos ateliês de uma geração que transforma experiências pessoais em roupas.

Celebrado nesta sexta-feira (21), o Dia Internacional da Moda coloca em evidência uma atividade que atravessa cultura, comportamento, identidade e economia. A data também abre espaço para olhar além das vitrines e conhecer quem pesquisa, desenha, modela, costura e transforma ideias em peças.

Para marcar a ocasião, o Portal Paranaíba Mais apresenta quatro profissionais que ajudam a construir a moda autoral em Uberlândia: Lucas Spirandelli, criador da Spira; Matheus Henrique, à frente da Malako; Evyllen Kethlen, que divide a rotina entre a moda festa e uma marca própria; e Arthur Câmara, estilista que encontra no universo gótico uma de suas principais referências.

Além da criação, eles compartilham desafios como a falta de investimento, a distância dos grandes polos culturais e a busca por reconhecimento. Em comum, também está a tentativa de construir uma linguagem própria a partir das experiências e referências acumuladas ao longo da vida.

moda autoral em Uberlândia
Lucas (Spira), Arthur Câmara, Evyllen Kethlen (Ekthlen) e Matheus Henrique (Malako) representam a moda autoral em Uberlândia – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

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Spira transforma referências digitais em experimentação

O interesse de Lucas Spirandelli, de 24 anos, pela moda começou na internet. Ainda adolescente, ele encontrou um blog sobre moda asiática e se surpreendeu com uma estética diferente das referências brasileiras e europeias às quais estava acostumado.

A descoberta abriu caminho para pesquisas sobre marcas, designers, revistas e movimentos artísticos. Também despertou o interesse por combinações de cores, proporções e formas menos convencionais. “Encontrei no experimentalismo a beleza de errar e ser imperfeito. Isso moldou meu senso estético. Gosto de testar e fazer coisas mesmo com pouco ou nenhum conhecimento, deixando a mente livre para imaginar maneiras de executar uma tarefa”, conta.

As referências da Spira, criada em 2023, não se limitam ao vestuário. Filmes, músicas, artigos, jogos e experiências pessoais também ajudam Lucas a construir cada peça. “Tudo o que crio é um retrato do meu repertório e de quem eu era no momento em que desenvolvi aquela peça. As criações surgem dos filmes que assisti, das músicas que ouvi em looping e dos momentos positivos ou negativos que vivi”, explica.

Depois de anos consumindo referências, o estilista sentiu a necessidade de transformar esse repertório em algo concreto. Criar o ateliê tornou-se uma forma de materializar ideias que, até então, existiam principalmente em sua imaginação.

Peças criadas pela Spira refletem referências da moda asiática, do experimentalismo e das vivências de Lucas – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Mãe e filho transformam tentativa e erro em parceria

A construção da Spira também passa diretamente pela mãe de Lucas. Quando decidiu iniciar o projeto, ele tentou aprender costura, mas não se adaptou à atividade. A mãe, que já fazia pequenos reparos em roupas, acreditou nos desenhos do filho e passou a assumir a confecção. “A importância da minha mãe não é quantitativa. Ela é o projeto”, resume.

Sem formação acadêmica em moda, os dois recorreram a vídeos, textos, pesquisas e experimentações. No início, passavam mais tempo desfazendo e reconstruindo peças do que finalizando as criações. Aos poucos, desenvolveram soluções próprias.

A ausência de referências técnicas prontas ainda faz parte do processo. Algumas ideias fogem das modelagens tradicionais e precisam ser testadas diversas vezes até chegarem ao resultado esperado. “Não dá para pesquisar ‘moletom de um braço só’ e encontrar uma modelagem pronta. Algumas peças são verdadeiras engenharias que criamos na tentativa e no erro”, brinca.

Para Lucas, a mesma internet que despertou o interesse pela moda pode ajudar criadores independentes a superar barreiras geográficas. “Não temos o mesmo investimento e a mesma exposição cultural dos grandes polos, mas podemos criar nossa própria visibilidade de onde estivermos”, afirma.

Malako costura arte, identidade e resistência para a moda em Uberlândia

A relação de Matheus Henrique, da Malako, com a criação também começou na infância. Escondido, ele utilizava tecidos para fazer roupas para as bonecas das irmãs, mesmo sem compreender que aquela brincadeira já antecipava um interesse pela moda. “Hoje vejo que essa curiosidade e essa vontade de criar continuam sendo a base do artista e do estilista que sou”, afirma.

Antes de se dedicar ao vestuário, Matheus experimentou diferentes linguagens. Passou pela pintura, pelo macramê, pela escultura e pelo artesanato, além de construir uma relação com a arte de rua e a estética hippie.

Segundo ele, essas experiências trouxeram liberdade para desenvolver um trabalho menos preso a metodologias tradicionais. A criação acontece de forma intuitiva e reúne referências de estilistas como Alexander McQueen, John Galliano e Elsa Schiaparelli, além de Lady Gaga e de movimentos como Club Kid e Ballroom.

“O segredo está em não tentar reproduzir essas referências, mas entender o que cada uma desperta em mim. Quando misturo isso às minhas vivências e à minha visão estética, nasce algo que passa a ter uma identidade própria”, explica.

Criações da Malako unem arte, identidade, diversidade e referências de diferentes subculturas – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Vivências pessoais também chegam às roupas

Experiências pessoais aparecem diretamente nas criações da Malako. Para Matheus, moda, identidade e posicionamento caminham juntos.

As peças propõem discussões sobre gênero, liberdade e diversidade, e a escolha dos modelos também faz parte dessa proposta.“Em algumas ocasiões, fui o único estilista, entre mais de 15 participantes, que incluiu modelos trans. Para mim, sempre será inegociável ocupar esses espaços com a minha comunidade”, afirma.

A trajetória começou com costuras feitas à mão em lençóis e calças jeans que seriam descartados. Mais tarde, Matheus passou a criar roupas para drag queens, artistas e clientes de Uberlândia.

Entre os momentos que ajudaram a consolidar sua identidade profissional estão o convite para ministrar uma oficina de costura para 15 alunos e uma intervenção realizada em um evento de moda. Segundo o estilista, a ação questionava a exclusão de criadores LGBTQIA+. “Foi um momento de coragem e de reafirmação de tudo aquilo que me tornei e defendo. Ver as pessoas aplaudindo aquele ato foi uma confirmação”, recorda.

Matheus Henrique, criador da Malako, ministra oficina de costura em evento de Uberlândia – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Matheus considera promissora a produção de moda em Uberlândia, mas avalia que profissionais independentes ainda encontram dificuldades para acessar oportunidades. “O Dia Internacional da Moda é importante para mostrar que grandes talentos também existem fora dos círculos de privilégio e para dar visibilidade a quem está construindo a moda uberlandense de forma independente”, defende.

Evyllen transformou um sonho de infância em profissão

A estilista Evyllen Kethlen, de 25 anos, não se lembra de ter desejado outra carreira. Desde os primeiros anos da infância, ela dizia que trabalharia com moda.

Uma das principais lembranças desse período está nas brincadeiras com a mãe. As duas aproveitavam retalhos e roupas antigas para criar peças para bonecas. Embora ninguém da família atuasse profissionalmente no setor, aqueles momentos alimentaram um interesse que continuou durante a adolescência.

O caminho até a formação exigiu alternativas. Evyllen começou a trabalhar aos 14 anos para pagar os próprios estudos. Sem condições de se mudar para São Paulo ou ingressar em uma faculdade de alto custo, procurou possibilidades em Uberlândia e buscou conhecimentos por conta própria.

“Uma das maiores dificuldades foi lidar com as expectativas daquilo que eu ainda não conseguia alcançar. A moda oferece muitas possibilidades, mas também exige investimento. Aprendi a fazer o melhor com o que tinha e aproveitar cada oportunidade”, relata.

A estilista estudou costura, modelagem e design. Mais tarde, graduou-se em moda e também se tornou professora, desenvolvendo atividades voltadas ao público infantil. “A trajetória me ensinou sobre gratidão, curiosidade e autonomia. Não aprendi apenas a técnica, mas também por meio da convivência, das experiências e das pessoas que estavam ao meu redor”, afirma.

Evyllen Kethlen atua na moda festa e também desenvolve criações para a marca autoral Ekthlen – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Entre o conhecimento técnico e a criação

Para Evyllen, compreender a estrutura de uma roupa é tão importante quanto desenvolver uma proposta visual. Modelagem, encaixes, ergonomia, caimento e acabamento fazem parte do processo. “O chão de fábrica ensina muito, porque é onde aprendemos com os erros, os acertos e a experiência. Ser estilista é unir criatividade e conhecimento técnico”, explica.

Na Glória Morais, Evyllen começou pelo setor de marketing. Com o apoio das fundadoras Janei e Simei, conquistou espaço na criação e passou a trabalhar com moda festa e peças sob medida.

Atualmente, divide a rotina entre os projetos da empresa e o desenvolvimento da marca autoral Ekthlen. Enquanto a moda festa permite acompanhar momentos importantes das clientes, o projeto próprio abre espaço para explorar sobreposições e roupas casuais que fogem das propostas tradicionais. “Não me vejo vivendo apenas uma dessas áreas. Gosto de transitar entre as duas e permitir que uma contribua para o meu olhar e para o processo criativo da outra”, conta.

Evyllen acredita que Uberlândia tem potencial para ampliar a presença no setor, mas ressalta a importância de reconhecer os profissionais locais. “Grandes nomes da moda já saíram daqui. Precisamos valorizar a cidade e as pessoas que estão construindo a moda por aqui”, diz.

Criações de Evyllen Kethlen unem conhecimento técnico, identidade e referências da moda festa e autoral – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Arthur Câmara aproxima o gótico da delicadeza

Para Arthur Câmara, o interesse pela moda também surgiu na infância. Introspectivo, encontrou nas artes, nos desenhos animados e no universo das fantasias uma maneira de imaginar outras realidades.

As revistas assinadas pela mãe ampliaram esse repertório. Ainda criança, Arthur folheava publicações como Vogue, Marie Claire e Elle. Na adolescência, passou a acompanhar programas sobre moda, desfiles, blogs, filmes e outras referências encontradas na internet.

O ambiente familiar também contribuiu para a formação estética. O pai experimentou estilos como o gótico, o clubber e o grunge durante a juventude. A mãe, por sua vez, mantinha uma aparência que, segundo Arthur, fugia dos padrões dos anos 1990. Ele também observava as irmãs se arrumando e opinava sobre as combinações.

Atualmente, suas principais referências estão nos universos gótico, dark, punk e fetichista. Ao mesmo tempo, o estilista se interessa por alfaiataria e construções mais sofisticadas e delicadas. “Essas coisas caminham juntas para mim”, explica.

Entre as personalidades presentes em seu repertório está Daphne Guinness, conhecida pelo estilo experimental e pela relação com a moda britânica.

Arthur Câmara encontrou na moda uma forma de transformar referências e experiências pessoais em criação – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Da possibilidade da medicina à construção das roupas

Antes de seguir profissionalmente pela moda, Arthur chegou a prestar vestibular para Medicina. Com o tempo, percebeu que aquela carreira não correspondia às próprias aptidões e decidiu buscar uma área que surgisse de maneira mais natural.

Sem conseguir ingressar inicialmente em uma graduação de moda, procurou um curso prático de costura. A intenção era aprender a transformar em roupas as imagens que já conseguia desenhar e imaginar.

O contato com a costura, a modelagem e a construção das peças mudou a relação de Arthur com a atividade. Antes, ele enxergava a roupa principalmente como uma linguagem visual. Depois, passou a compreender estrutura, proporção, caimento, materiais, acabamentos e o tempo envolvido em cada criação. “Uma ideia só se torna realmente minha quando consigo compreender como ela pode existir no corpo. A técnica não limitou a criatividade. Pelo contrário, deu mais liberdade para experimentar, errar, desconstruir e encontrar soluções”, afirma.

Arthur Câmara reúne referências góticas, punk e da alfaiataria na construção de sua identidade na moda – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Para Arthur, trabalhar com moda também exige atualização constante, sensibilidade e atenção aos detalhes. O conhecimento técnico tornou o processo mais concreto e revelou a quantidade de trabalho envolvida na construção de cada peça.

Moda também acontece longe dos grandes centros

Arthur vê o Dia Internacional da Moda como uma oportunidade para colocar em evidência profissionais que trabalham longe dos holofotes. Muitos criadores independentes acumulam as funções de pesquisar, desenhar, modelar, cortar, costurar, fotografar, divulgar e administrar a própria marca.

“Existe uma parcela enorme da moda construída de forma artesanal e próxima. Eu faço parte dessa realidade e sei quanto trabalho existe em cada etapa para manter uma produção autoral viva e relevante”, destaca.

Na avaliação do estilista, Uberlândia reúne uma cena criativa formada por profissionais que já desenvolvem linguagens próprias e movimentam o mercado, embora parte dessa produção ainda busque maior reconhecimento. “Essas pessoas não estão apenas começando ou esperando uma oportunidade. Elas já estão produzindo e construindo a moda da cidade”, afirma.

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Arthur Câmara integra a cena da moda autoral produzida por estilistas independentes de Uberlândia – Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução

Moda autoral em Uberlândia busca mais espaço

As trajetórias de Lucas, Matheus, Evyllen e Arthur mostram que não existe apenas uma porta de entrada para a moda. O caminho pode começar em uma revista, em um blog sobre moda, nas roupas feitas para bonecas ou em tecidos que seriam descartados.

As histórias também revelam uma atividade formada por uma extensa cadeia de profissionais. Antes de uma roupa chegar ao público, ela passa pelo trabalho de estilistas, modelistas, costureiras, produtores, fotógrafos, maquiadores, modelos e profissionais responsáveis pela comunicação e pela gestão das marcas.

Em Uberlândia, os quatro criadores enxergam potencial para a produção local e apontam desafios relacionados a investimento, visibilidade e acesso a oportunidades.

Nesse contexto, o Dia Internacional da Moda também ajuda a direcionar os olhares para uma produção que não acontece apenas nas capitais ou dentro de grandes empresas. Ela nasce em ateliês, passa por pesquisas e experimentações e encontra diferentes formas de transformar repertórios pessoais em roupas.

Como resume Evyllen, a moda vai além de uma peça bonita.  “Nosso papel é criar algo que conte uma história, desperte alguma coisa e possa transformar quem veste.”

Quer conhecer mais pessoas que transformam criatividade em trabalho em Uberlândia? Continue acompanhando o Portal Paranaíba Mais e descubra os personagens que movimentam a moda, a cultura e a arte da cidade.