A Uberlândia que desapareceu: veja lugares que o tempo transformou

Fotografias e relatos revelam como o crescimento de Uberlândia apagou construções, redesenhou bairros e transformou lugares que marcaram a história da cidade

, em Uberlândia

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Há uma Uberlândia que já não pode ser encontrada caminhando pelas ruas. Ela sobrevive em fotografias antigas, documentos, revistas e, principalmente, na memória de quem acompanhou a transformação da cidade. Aos 138 anos, completados em 31 de agosto de 2026, olhar para os patrimônios históricos de Uberlândia também significa descobrir o que ficou pelo caminho enquanto o município crescia.

Quem observa fotografias antigas do Centro ainda reconhece nomes de ruas, praças e alguns edifícios. A paisagem, porém, parece pertencer a outra cidade. Casarões desapareceram, trilhos deram lugar a avenidas, antigas áreas rurais foram incorporadas ao perímetro urbano e construções que marcaram gerações cederam espaço a novos empreendimentos.

Praça Tubal Vilela, Em Uberlândia. Imagem mostra o local no passado e atualmente.
A Praça Tubal Vilela já teve três nomes ao longo de sua história; à esquerda, o espaço no passado e, à direita, a praça atualmente – Crédito: Reprodução/Internet

A transformação acompanha uma cidade que fez do crescimento uma das marcas da própria história. Mas, entre o avanço urbano e a preservação da memória, quanto da antiga Uberlândia conseguiu chegar até 2026?

Esta reportagem integra a série especial “Uberlândia 138 anos”, que recupera histórias, personagens e acontecimentos que ajudam a explicar a cidade que conhecemos hoje.

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Uma história que começa no Fundinho

Para encontrar algumas das marcas mais antigas de Uberlândia, é preciso voltar ao Fundinho, região diretamente ligada à formação do núcleo urbano que deu origem à cidade.

Antes dos edifícios, das grandes avenidas e do movimento que caracteriza a Uberlândia atual, a ocupação da região começou com a chegada de famílias às terras do então Sertão da Farinha Podre. O pequeno núcleo cresceu, ganhou importância comercial e encontrou na chegada da ferrovia um dos principais impulsos para sua expansão.

Vista aérea de Uberlândia na década de 1940 mostra, abaixo da praça, o Fundinho
Vista aérea de Uberlândia na década de 1940 mostra, abaixo da praça, o Fundinho, núcleo antigo da cidade, e, acima, a expansão urbana sobre o cerrado – Crédito: Reprodução/Internet

O jornalista Neivaldo Silva, o Magoo, que pesquisa e acompanha a história de Uberlândia há décadas, destaca justamente a ferrovia como um dos elementos responsáveis pela mudança de escala da cidade.

Durante a entrevista, Magoo apontou o coronel José Teófilo Carneiro como personagem importante desse período. Segundo Magoo, a atuação do empresário e político para trazer os trilhos da Companhia Mogiana à região ajudou a aproximar Uberlândia de outros centros e impulsionou o comércio. “A chegada da ferrovia, que aproximou o comércio e criou o entreposto de Uberlândia, e a energia elétrica foram fundamentais para a história da cidade”, afirma Magoo.

A implantação da energia elétrica aparece nessa mesma trajetória de modernização. Para o jornalista, esses avanços ajudaram a estabelecer uma característica que acompanharia Uberlândia nas décadas seguintes: a busca pelo desenvolvimento.

Os trilhos também deixaram marcas na organização urbana. Décadas depois, com a retirada da ferrovia da região central, os espaços antes ocupados pela estrutura ferroviária passaram por novas transformações.

A primeira estação ferroviária de Uberlândia, já desativada, em registro possivelmente feito na década de 1960.
A primeira estação ferroviária de Uberlândia, já desativada, em registro possivelmente feito na década de 1960 – Crédito: Reprodução/Internet/Autor desconhecido

A cidade que avançava sobre antigas áreas rurais começava, ao mesmo tempo, a redesenhar os espaços que já ocupava.

O Centro mudou e parte da antiga Uberlândia desapareceu

As mudanças ficam ainda mais evidentes quando fotografias antigas são comparadas aos registros atuais. Revistas e documentos produzidos ao longo do século XX mostram uma Uberlândia de ruas menos movimentadas, construções predominantemente baixas e um Centro muito diferente daquele cercado por edifícios que o morador encontra atualmente.

Uma edição da revista O Cruzeiro, de 1968, por exemplo, registrou a Praça Tubal Vilela e diferentes pontos da cidade. Em 1976, outra publicação documentou a inauguração da rodoviária. Já em 1987, Uberlândia chegou à capa da revista Veja em uma reportagem sobre o desenvolvimento econômico do município.

Um vídeo publicado pelo canal Uberlândia Retrô reúne imagens históricas da cidade registradas em revistas nacionais nas décadas de 1960, 1970 e 1980. As fotografias mostram ruas, construções, avenidas e cenas do cotidiano de uma Uberlândia bem diferente da atual. Os registros de diferentes décadas mostram que a expansão urbana e econômica acompanha Uberlândia há gerações. Veja:

 

Passados 35 anos, Uberlândia chega aos 138 anos com uma paisagem ainda mais distante daquela registrada pelas câmeras no início da década de 1990. Nem todas as construções acompanharam essa viagem no tempo.

Uberlândia é a 3ª melhor grande cidade
Vista de Uberlândia nos dias atuais, marcada pela expansão urbana e pela verticalização da cidade – Crédito: @viniciusdepaula/Reprodução

O crescimento que transformou a paisagem de Uberlândia

A paisagem de Uberlândia mudou à medida que a cidade cresceu. Construções antigas deram lugar a novos imóveis, bairros avançaram sobre áreas antes rurais e regiões inteiras ganharam novas características. Para Magoo, parte dessas mudanças está relacionada à forma como o município incorporou, ao longo das décadas, a ideia de modernização. “Vários outros foram demolidos por conta da modernidade”, afirma o jornalista.

Além da busca pelo novo, Magoo aponta a valorização dos terrenos e os interesses imobiliários como fatores que contribuíram para o desaparecimento de antigas construções. “Muita gente comprava determinada área, comprava um prédio e queria modernizar, ganhar dinheiro. Então, a especulação imobiliária mandou também na destruição desses prédios”, avalia.

Mas a transformação de Uberlândia não aconteceu apenas onde antigas construções foram substituídas. Conforme o perímetro urbano avançou, fazendas e áreas antes afastadas passaram a fazer parte da cidade, novos bairros surgiram e a malha urbana alcançou regiões cada vez mais distantes do núcleo original.

Magoo encontrou uma maneira particular de acompanhar essa expansão. Em vez de observar apenas ruas, prédios e bairros, ele conta a história do crescimento de Uberlândia pelos córregos que foram sendo incorporados à área urbana.

Quando era criança, segundo o jornalista, poucos cursos d’água estavam dentro do perímetro da cidade. Com a abertura de loteamentos e o surgimento de novos bairros, Uberlândia passou a alcançar outras nascentes e córregos. “Eu vejo o crescimento de Uberlândia pelos córregos”, resume.

Parte desses cursos d’água acabou integrada à paisagem urbana e às regiões cortadas hoje por grandes avenidas. Ao mesmo tempo, bairros como o Santa Mônica passaram de áreas pouco ocupadas a algumas das regiões mais conhecidas da cidade. Magoo acompanhou parte dessa transformação quando, segundo ele, ruas ainda eram identificadas por números e avenidas por letras.

As lembranças ajudam a dimensionar uma mudança que fotografias antigas tornam ainda mais evidente. Uberlândia não apenas substituiu construções ao longo das décadas. A cidade expandiu seus limites, ocupou novos espaços e redesenhou a própria paisagem.

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Endereços conhecidos escondem uma cidade que desapareceu

Um dos aspectos que ajudam a dimensionar a transformação é perceber que lugares atravessados diariamente por milhares de pessoas tiveram funções completamente diferentes no passado.

Magoo recorda o período em que a antiga linha da Mogiana cortava áreas posteriormente modificadas pela expansão urbana. Ele também relembra estruturas que desapareceram, como um antigo hangar Walter Garcia, ligado à história da aviação local, que teve diferentes usos antes da demolição.

Antigo Hangar Walter Garcia, inaugurado na década de 1970, fez parte da paisagem de Uberlândia
Antigo Hangar Walter Garcia, inaugurado na década de 1970 – Crédito: Acervo Centro de Memória da Algar/Reprodução

Até bairros hoje densamente ocupados guardam histórias semelhantes. Ao recordar a chegada ao Santa Mônica, na década de 1970, Magoo descreve ruas ainda em formação, terrenos vazios e uma rotina com características rurais. Quintais tinham árvores frutíferas, galinheiros e hortas. Áreas hoje ocupadas por equipamentos públicos e grandes vias faziam parte de uma paisagem diferente.

São memórias pessoais que ajudam a dimensionar a velocidade da transformação urbana, mas que também encontram complemento nos registros documentais.

À esquerda, os bairros Tibery e Santa Mônica na década de 1970; à direita, parte do Santa Mônica atualmente.
À esquerda, os bairros Tibery e Santa Mônica na década de 1970; à direita, parte do Santa Mônica atualmente – Crédito: Arquivo municipal/Milton Santos/ Reprodução

Fotografias, plantas, jornais, revistas e arquivos públicos permitem confrontar as lembranças de moradores com aquilo que permaneceu documentado sobre cada período.

Esse trabalho de preservação também apareceu em uma reportagem exibida pela TV Paranaíba, em 2023, sobre o Museu Virtual de Uberlândia. Na ocasião, o jornalista Celso Machado destacou que preservar a memória não significa simplesmente olhar para o passado com saudosismo. “Existe o passado e o que não passa. O que não passa são as histórias, são os personagens, é a identidade de uma cidade”, afirmou.

Conhecer essa trajetória, segundo ele, também ajuda a compreender o futuro. Confira a reportagem:

Uma casa que revela como Uberlândia vivia

Em meio às construções que desapareceram, algumas resistiram  e uma delas aparece justamente nas lembranças de Magoo. A Residência e Armazém Comercial de Antônio de Rezende Costa, na região da Rua 15 de Novembro com a Avenida João Pinheiro, integra atualmente a relação de bens protegidos pelo município.

Magoo chama atenção para características que ajudam a compreender a importância histórica do imóvel. Segundo ele, registros relacionados à residência mostram novidades que aquela construção teria apresentado à Uberlândia da época. “É a primeira casa de Uberlândia que teve sofá. É a primeira casa de Uberlândia que teve um gradil na frente. É a primeira casa de Uberlândia que teve serpentina para aquecer água”, conta.

A construção também está associada à região do antigo Largo do Comércio, importante para as primeiras atividades comerciais da cidade.

Residência e Armazém Comercial de Antônio de Rezende Costa, no Fundinho, tombada como patrimônio histórico municipal em 2012
Residência e Armazém Comercial de Antônio de Rezende Costa, no Fundinho, tombada como patrimônio histórico municipal em 2012 – Crédito: Arquivo municipal/Reprodução

O imóvel ajuda a demonstrar que preservar uma construção histórica significa guardar mais do que paredes, portas e janelas. A arquitetura também permite reconstruir hábitos, relações sociais e aquilo que diferentes gerações entendiam como modernidade.

O que hoje parece cotidiano — um sofá dentro de casa ou água aquecida, por exemplo — já representou novidade.

O que ainda está protegido em Uberlândia?

Apesar das perdas acumuladas ao longo das décadas, parte da história arquitetônica permanece espalhada pela cidade. O município mantém uma relação de bens tombados e registrados, que reúne construções, conjuntos arquitetônicos, espaços públicos, obras artísticas e manifestações culturais.

Entre os bens estão o Conjunto Praça Clarimundo Carneiro, a Oficina Cultural, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o Palacete Naghettini, o Mercado Municipal, a Casa da Cultura, o Uberlândia Clube, a Igreja Nossa Senhora das Dores, a Residência Chacur, o Teatro Grande Otelo, o Centro Municipal de Cultura, imóveis históricos ligados à educação e a Residência e Armazém Comercial de Antônio de Rezende Costa.

A proteção também ultrapassa a região central. A relação contempla a Estação Ferroviária Sobradinho, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Miraporanga, a Capela da Saudade e a Igreja Espírito Santo do Cerrado, entre outros bens.

O patrimônio da cidade não se limita às construções. Uberlândia também reconhece manifestações como a Folia de Reis e a Festa em Louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Entre a cidade preservada e aquela que ficou nas fotografias

Talvez seja nas fotografias antigas que o tamanho da transformação se torne mais evidente.  A Praça Tubal Vilela permanece. Algumas construções resistiram. Nomes de ruas atravessaram gerações. O cenário ao redor, no entanto, mudou repetidamente.

Casas desapareceram. Edifícios surgiram. Trilhos foram retirados. A cidade avançou sobre antigas áreas rurais e bairros inteiros nasceram onde gerações anteriores enxergavam terrenos vazios. Uberlândia cresceu para os lados e para cima. De certa maneira, cresceu também sobre partes da cidade que existiam antes.

É por isso que fotografias históricas assumem outro papel neste aniversário. Mais do que mostrar como Uberlândia era, elas permitem perguntar por que a cidade deixou de ser daquele jeito.

A resposta passa pelo crescimento econômico, pelas diferentes concepções de modernidade de cada época, pela expansão urbana, pela valorização imobiliária e pelas escolhas feitas ao longo de mais de um século.

O resultado está diante dos olhos de quem compara passado e presente. O endereço pode continuar o mesmo, mas a cidade ao redor já é outra.

Aos 138 anos, qual Uberlândia chegará ao futuro?

Uberlândia bate recorde histórico de exportações no primeiro semestre de 2026 - Crédito: Reprodução/ PMU
Vista atual de Uberlândia revela a paisagem urbana construída ao longo de 138 anos – Crédito: Reprodução/ PMU

Em 31 de agosto de 2026, Uberlândia completa 138 anos. A cidade que surgiu a partir de um pequeno núcleo urbano tornou-se uma das maiores de Minas Gerais. Nesse caminho, incorporou bairros, abriu avenidas, recebeu edifícios, transformou antigos espaços e viu desaparecer construções que um dia ajudaram a definir sua paisagem.

Parte dessa Uberlândia permanece protegida. Outra existe apenas em documentos, fotografias e na memória de quem atravessou diferentes momentos dessa transformação. Olhar para trás neste aniversário de 138 anos, também provoca uma pergunta sobre aquilo que Uberlândia deixará para as próximas gerações.

Quando Uberlândia completar 200 anos, quais construções que vemos hoje ainda estarão de pé para contar como era a cidade em 2026?

Esta reportagem integra a série especial “Uberlândia 138 anos”, que apresenta os bastidores, personagens e fatos históricos que ajudaram a construir a cidade.

Acompanhe o Portal Paranaíba Mais para conferir as próximas reportagens da cobertura do aniversário de Uberlândia.