Uberlândia tem avanço de lares chefiados por mulheres, aponta IBGE

Dados mostram que mais de 29 mil casas da cidade são formadas por mulheres sem cônjuge com filhos

, em Uberlândia

Google News

A composição familiar de Uberlândia revela que 29.546 casas, quase um sexto das residências do município, são lares chefiados por mulheres sem cônjuge com filhos. Essa configuração acompanha uma tendência nacional observada pelo IBGE: o crescimento contínuo de residências chefiadas por mães solo.

Entre os 212.447 lares do município, 29.546 são compostos por mulheres sem cônjuge com filhos, número que supera com grande margem os 3.885 lares formados por homens na mesma condição. Quando consideradas famílias que reúnem mãe solo e outros parentes, o total sobe para 36.467 residências.

Censo de 2022 mostra casas de Uberlândia
Levantamento do IBGE revela que quase um terço dos lares de Uberlândia é chefiado por mulheres sem cônjuge com filhos, refletindo as mudanças na composição familiar do município – Crédito: Secom/Reprodução

📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp

Os dados mostram ainda que Uberlândia possui forte presença de casais com filhos (85.956 domicílios), além de arranjos sem crianças (52.935), e grupos classificados como “outros” (19.958), que incluem diversas formas de organização doméstica.

Em entrevista ao Paranaíba Mais, a cientista política Alecilda Oliveira explicou que o retrato local confirma o padrão brasileiro de mulheres chefiando casas. “Mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres, com destaque para o papel significativo das mães solo, que acumulam cuidados, responsabilidades domésticas e a provisão econômica”, afirmou.

Mudança cultural e sobrecarga

A especialista explicou que o avanço no acesso das mulheres à educação e ao mercado de trabalho contribuiu para o aumento da autonomia feminina e, consequentemente, para novas dinâmicas na formação das famílias. No entanto, segundo ela, a desigualdade de gênero permanece evidente.

“A gravidez ainda é socialmente atribuída quase exclusivamente às mulheres, e após o término de relacionamentos, a criação dos filhos continua majoritariamente sob responsabilidade feminina”, analisa Alecilda.

Ela reforçou que essas mulheres, na maioria negras e com baixa escolaridade no cenário brasileiro, enfrentam rendimentos menores no mercado de trabalho, mesmo exercendo funções semelhantes às dos homens.

A especialista comentou ainda que entre os principais desafios enfrentados por essas mães em Uberlândia estão a sobrecarga de trabalho, as dificuldades financeiras e a falta de políticas públicas suficientes.

A ausência de vagas em creches e escolas de educação infantil, segundo a pesquisadora, é um dos gargalos mais graves. “Sem vagas, muitas precisam deixar os filhos com outras mulheres, parentes ou babás, o que reproduz uma cadeia de cuidado não remunerado ou precarizado”, afirmou.

Além da educação, Alecilda destacou a necessidade de equipamentos públicos próximos às moradias, como unidades de saúde e serviços municipais, que permitam conciliar trabalho, cuidado e deslocamento de forma mais equilibrada.

Formas de união

A composição familiar de Uberlândia também se expressa na forma como casais se unem. Entre católicos, 45,65% registram casamento civil e religioso, enquanto 40,21% vivem em união estável. Entre evangélicos, há equilíbrio entre casamento religioso (44,31%) e uniões estáveis (31,21%). Já no grupo sem religião, a união estável é predominante, alcançando 62,5%.

Esses formatos reforçam que as relações conjugais têm se tornado mais flexíveis, acompanhando transformações culturais em todo o país.

×

Leia Mais

Guarda compartilhada cresce no país

A discussão sobre composição familiar também envolve como se organizam as responsabilidades parentais após o fim de uma união. Dados do Registro Civil do IBGE mostram que a guarda compartilhada já aparece em 44,6% dos divórcios registrados no Brasil em 2024, superando pela primeira vez o índice em que a guarda fica exclusivamente com a mãe (42,6%).

Além disso, o número total de divórcios caiu: foram 428.301 em 2024, uma redução de 2,8% em relação aos 440.827 divórcios registrados em 2023.

Em entrevista ao Paranaíba Mais, o jornalista Evaldo Pighini, de 61 anos, contou que sua separação ocorreu quando a filha tinha 10 anos. Hoje, aos 14, prestes a completar 15, ela vive uma rotina de guarda compartilhada definida em comum acordo entre os pais.

Para ele, é importante esclarecer o conceito. “Guarda compartilhada não significa, necessariamente, dividir o tempo de forma rígida entre pai e mãe. Ela envolve, sobretudo, a divisão das responsabilidades na educação, nas decisões e no cuidado com o filho”, explicou.

Evaldo relata que resistiu à separação por um período, principalmente pela filha. “Talvez tenha sido um erro, mas fiquei relutando muito mais por ela do que por mim”, afirmou. Quando a decisão foi tomada, o processo foi conduzido de forma consensual.

Leia mais: Maria e José permanecem como os nomes mais comuns no Triângulo Mineiro e no país

O modelo adotado acabou sendo o de alternância quinzenal de moradia. “Minha filha mora 15 dias comigo e 15 dias com a mãe. Isso não impede o convívio durante esse período, mas essa organização foi uma decisão dela”, destaca. Segundo Evaldo, a vontade da filha foi determinante. “Ela já tinha idade suficiente para opinar, e essa opinião foi levada em conta”.

Na prática, a guarda compartilhada trouxe mudanças significativas na rotina. “Quando ela passa 15 dias comigo, a responsabilidade aumenta muito. Você precisa reorganizar toda a sua vida”, relata.

Trabalhando majoritariamente em home office, Evaldo precisou adaptar a agenda profissional às demandas da filha. “Entram questões como escola, consultas médicas, compromissos do dia a dia. Você passa a montar sua agenda em função do filho, e não mais apenas da sua vontade”.

Políticas públicas e futuro da cidade

Para Alecilda Oliveira, municípios que conhecem profundamente suas configurações sociais têm melhores condições de criar políticas efetivas. “É indispensável transformar esses diagnósticos em ações concretas. A cidade só avança quando reconhece seus diversos arranjos familiares e responde às necessidades reais da população”, finalizou.