Chuvas em Minas deixam moradores entre perdas, medo e recomeços
Um mês após temporais históricos na zona da mata, famílias ainda vivem entre lama, luto e incertezas enquanto aguardam ajuda para reconstruir a vida
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Um mês após as chuvas em Minas que devastaram cidades da Zona da Mata, o cenário ainda é de incerteza para milhares de moradores. O impacto das enxurradas e deslizamentos que atingiram principalmente Juiz de Fora e Ubá segue presente na rotina de quem perdeu casas, renda e, em muitos casos, familiares.

Na comunidade Três Moinhos, em Juiz de Fora, a vida de Gilvan Leal Luzia, de 55 anos, parou no tempo. O que restou da casa virou um espaço improvisado, onde ele tenta sobreviver entre destroços. Sem condições de voltar ao imóvel, ele passou a dormir na parte externa, protegido apenas por materiais reaproveitados da própria destruição.
Em meio às chuvas em Minas, Gilvan escapou por pouco de ser um dos mortos na tragédia.“Eu ia entrar aqui para pegar uns documentos, aí a minha irmã falou para eu não fazer isso. Na hora que eu pensei em entrar, desmoronou tudo”, lembrou à Agência Brasil.
Mesmo debilitado após um infarto recente, Gilvan afirma que não tem alternativa. Sem ajuda concreta até agora, tenta, sozinho, imaginar como recomeçar. “Se tiver de morrer, eu vou morrer. Eu nasci e fui criado aqui. Tem lugar para eu ir?”
Chuvas em Minas mudam rotina e isolam comunidades
A tragédia também interrompeu completamente o sustento de muitas famílias. A feirante Kasciany Pozzi Bispo, de 36 anos, viu sua renda desaparecer junto com o acesso à comunidade. A produção de cana-de-açúcar, que garantia o sustento da casa, ficou inviável diante da falta de transporte.
“Muita cana jogada fora. É a única renda que a gente tem. Sem acesso para veículos, o transporte da produção se tornou impossível. O caminhão não consegue sair. A gente improvisa, pega carro emprestado e vai ao canavial cortar o que dá para tentar sobreviver”, disse.
Além da dificuldade financeira, o isolamento afeta o cotidiano de toda a vizinhança. Com ruas tomadas pela lama, moradores se organizam por conta própria para limpar o que conseguem, enquanto aguardam ações mais efetivas.
“Podiam, pelo menos, liberar uma máquina para limpar a rua. Estamos ilhados em um bairro e ninguém faz nada. Só pedimos um pouco de dignidade”, cobra.
As consequências também atingem as crianças, que seguem sem frequentar a escola regularmente, diante da dificuldade de acesso e da transferência para unidades distantes.
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Chuvas em Minas deixam cicatrizes emocionais profundas
Ainda em Juiz de Fora, no Parque Jardim Burnier, uma das áreas mais afetadas, a dor vai além dos prejuízos materiais. A moradora Claudia da Silva, de 71 anos, ainda tenta lidar com o impacto das perdas. Ela perdeu 20 familiares na tragédia.

“Eu tive que procurar tratamento psicológico por conta própria. É muita coisa para a minha cabeça. Um sobrinho que sobreviveu está no CTI. Ele só tem 16 anos e teve que amputar uma perna. Estou só chorando, desesperada, sem conseguir comer direito”, disse à reportagem da Agência Brasil.
Mesmo com a casa interditada, Claudia permanece no local ao lado da mãe idosa, enfrentando medo constante e sensação de abandono.
“Temos medo, não dormimos direito e nos sentimos abandonadas. Ninguém veio aqui oferecer uma casa, pelo menos”, lamenta.
A aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, de 62 anos, vive uma rotina dividida. Durante a noite, busca abrigo com familiares. Durante o dia, retorna ao imóvel interditado para tentar preservar o pouco que restou.
“Você leva uma vida inteira para construir uma casa e, de repente, tem que sair assim, na correria, só com a roupa do corpo”, conta.
O impacto também chegou ao trabalho. O serralheiro Nilton Angelo de Gusmão, de 60 anos, relata prejuízos e dificuldade para manter as contas em dia após semanas sem atividade.
“Eu perdi dois serviços que iam me dar R$ 4 mil em duas semanas. Chegaram as contas e eu tenho que pagar. Precisamos de ajuda para seguir em frente”, diz.
Chuvas em Minas ampliam dimensão da tragédia
Os números reforçam a gravidade da situação causada pelas chuvas em Minas. Ao todo, 73 pessoas morreram nas cidades de Juiz de Fora e Ubá após os temporais concentrados no fim de fevereiro. Mais de 8,5 mil moradores ficaram sem casa, e milhares de imóveis foram destruídos ou interditados.
O volume de chuva registrado no período superou recordes históricos e provocou uma sequência de ocorrências, incluindo deslizamentos, alagamentos e danos à infraestrutura urbana.
Outros municípios da região também sofreram impactos, como Matias Barbosa, onde famílias e comerciantes enfrentam prejuízos e tentam retomar as atividades.
Resposta do poder público após as chuvas em Minas
Diante do cenário, prefeituras e governos anunciaram medidas emergenciais para atender os atingidos e iniciar a reconstrução. Entre as ações estão o pagamento de auxílios financeiros, acolhimento de famílias em hotéis e programas habitacionais para quem perdeu totalmente a casa.
Também foram disponibilizados recursos para limpeza urbana, recuperação de vias e reforço nos serviços de saúde e assistência social. Linhas de crédito e saques emergenciais foram liberados para trabalhadores afetados.
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Além disso, investimentos em drenagem, contenção de encostas e manutenção preventiva foram citados como parte das estratégias para reduzir riscos futuros.
Apesar das iniciativas, para quem vive o dia a dia nas áreas atingidas, a sensação ainda é de que a reconstrução caminha lentamente. Entre perdas materiais, traumas emocionais e dificuldades financeiras, moradores seguem tentando retomar a vida com os próprios esforços.
*Reprodução – Agência Brasil