Ponto de Vista

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Tecnologia no agro requer mudança de mentalidade

Inovação no campo começa na decisão, não na máquina

Flecha de Lima , em Uberlândia

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O agronegócio brasileiro vive um momento de abundância tecnológica. Drones, inteligência artificial, sensores, softwares de gestão e plataformas de dados estão amplamente disponíveis. O risco já não é falta de ferramentas, mas a sua adoção sem critério.

A pergunta central não é qual tecnologia está na moda, mas qual problema precisa ser resolvido. Minha tese é objetiva: no agro, tecnologia não começa no equipamento. Começa na qualidade da decisão.

Tecnologia no campo
O agro brasileiro já opera em um patamar tecnológico elevadíssimo; o diferencial competitivo está em melhorar a qualidade da gestão- crédito: Freepik/Reprodução

Cresci entre dois ambientes complementares. Durante a semana, acompanhava a atuação pública do meu pai, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, marcada por estratégia e visão internacional. Aos fins de semana, o foco era a implantação da Fazenda Renascença, em Unaí (MG). Ali aprendi que produzir é administrar riscos climático, financeiro e operacional.

No início dos anos 1980, adotamos a tecnologia de pivôs centrais de irrigação por uma necessidade de equacionar a irregularidade das chuvas, não por um gesto de modernização simbólica. O mesmo critério orientou decisões posteriores: plantio direto, rotação lavoura-pecuária, produção de sementes, cultivo de algodão, cruzamento industrial, melhoramento genético com inseminação artificial e transferência de embriões, além de investimentos em gestão e infraestrutura. Cada escolha partiu de um diagnóstico concreto e de uma análise de retorno.

Anos depois, ao seguir carreira nas áreas de tecnologia e inovação, identifiquei uma tendência recorrente também no meio corporativo: adquirir soluções antes de definir claramente o desafio. É a famosa “solução à procura de um problema”. No campo, esse equívoco é particularmente oneroso. As margens são estreitas, o crédito rural é escasso e caro, e o clima é traiçoeiro.

É incontestável que o agro brasileiro já opera em um patamar tecnológico elevadíssimo e que somos referência em produtividade tropical. O diferencial competitivo, portanto, não está em simplesmente adicionar novas ferramentas, mas em melhorar a qualidade da gestão. Transformação real decorre da capacidade de decidir com base em dados, planejar com horizonte financeiro adequado e ajustar rapidamente a execução.

Essa mentalidade tecnológica se sustenta em três fundamentos distintos:
1) Gestão orientada por evidência. Inovação não é evento pontual, mas processo contínuo de medição, comparação e correção de rota;
2) Qualificação de pessoas. Nenhuma tecnologia substitui equipe capacitada para interpretar indicadores e executar com disciplina. Ferramentas ampliam capacidade; não compensam deficiência de gestão;
3) Racionalidade Financeira. Cada investimento precisa ter impacto mensurável em produtividade, custo ou previsibilidade. Adoção por impulso compromete caixa e reduz competitividade.

Em um ambiente marcado por logística cara, volatilidade de preços e insegurança regulatória, disciplina estratégica deixa de ser virtude e passa a ser condição de sobrevivência. A diferença entre modernização superficial e transformação estrutural está na coerência entre diagnóstico, decisão e execução.

Essa lógica se traduz em três diretrizes práticas e não sobrepostas:
1) Diagnóstico antes do investimento: identificar gargalos operacionais e mensurar retorno econômico esperado;
2) Formação contínua: desenvolver competência analítica do produtor e da equipe para transformar dados em decisão;
3) Integração de sistemas: garantir que informações conversem entre si, evitando ilhas de dados que não geram inteligência.

O agro brasileiro não precisa provar que é inovador. Precisa provar que sabe inovar com propósito.
Tecnologia não é ponto de partida. É consequência de uma mentalidade que decide melhor. É essa mudança de mentalidade que garantirá que a próxima safra seja não apenas maior, mas mais eficiente, previsível e sustentável.

 

Por Flecha de Lima
Nasceu no meio da diplomacia, viveu em vários países, construiu sua trajetória no mundo dos negócios e acompanhando seu pai desde 1978, foi pioneiro na adoção de tecnologias no agro no noroeste de Minas Gerais.

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.