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Salvar a Rondon Pacheco é parar de pecar

As enchentes da Rondon Pacheco começam nas fontes que Uberlândia ignora

Paulo Franco , em Uberlândia

O milhão de litros de água limpa jogada diariamente no esgoto e nas ruas não é só desperdício; é parte da causa dos alagamentos que paralisam a cidade.
Quando as nuvens pesam e a Rondon Pacheco vira um rio, a busca por culpados é rápida: “o bueiro entupiu”, “a chuva foi muito forte”. Mas há uma causa crônica, silenciosa e contínua agravando esse cenário, que ninguém discute: os milhões de litros de água potável que Uberlândia desperdiça todos os dias, alimentando o próprio sistema de drenagem antes mesmo da primeira gota de chuva cair.

Crédito: Foto-montagem/Reprodução

Lembrei de um fato muito interessante sobre o Córrego São Pedro, que passa nas galerias da Av. Rondon Pacheco. Na época das águas, ele transbordava e ficava muito cheio. Isso significa que a vazão dos afluentes e minas aumentava muito, mesmo sem estar chovendo. Quem viu sabe um pouco mais do problema.

Na minha infância, ao lado da minha escola no Centro, uma fonte jorrava água viva. Um prédio a soterrou — Ed. Floriano Center — mas a água insiste e hoje corre direto para a rua. Essa história não é um caso nostálgico, é o modelo de um fracasso urbano. O escritor Paulo Franco, em seu livro “Água que Sangra”, nos ensina a ver o que a cidade esconde: em Uberlândia, fontes e lençóis freáticos são drenados para bueiros como se fossem um problema, não um recurso.

Dirija pela Tenente Virmondes e veja a água limpa escorrendo de fundações. Olhe para a “sangria” eterna do Edifício Dois Mil, abrindo crateras no asfalto. No Parque do Sabiá, um cano de 10 polegadas despeja água no ralo, 24 horas por dia, mesmo na seca. Para onde vai toda essa água? Em grande parte, ela corre para as galerias pluviais e córregos que desembocam na bacia da Rondon Pacheco.

Aí está a chave que falta no debate sobre as enchentes. O sistema de drenagem da cidade já está sobrecarregado, em pleno dia seco, por um fluxo contínuo e ilegítimo de água. Quando a chuva chega, não há capacidade de vazão. Os canos e córregos já estão cheios dessa “água que sangra” das fundações, das nascentes urbanas e dos descartes irresponsáveis. É como tentar esvaziar uma pia com a torneira sempre aberta.

Esse volume extra e constante causa erosão, assoreia os condutos e reduz drasticamente a margem de segurança da infraestrutura. A Prefeitura gasta recursos combatendo sintomas (desassoreamento, bombeamento) enquanto ignora uma das fontes do problema. Não se trata apenas de desperdício ambiental, mas de má gestão do território e risco urbano.

Conclusão e Caminhos Propostos:

Para reduzir as enchentes, precisamos primeiro estancar o fluxo desnecessário. A proposta é uma ação integrada:

1. Auditoria Hídrica Urbana: A Prefeitura, com a Sanear e a Defesa Civil, deve criar um mapa de TODOS os pontos de vazão contínua de água limpa (fontes, sangrias de prédios, drenagens de subsolo) que alimentam a bacia da Rondon Pacheco.
2. Multa e Solução: Estabelecer prazo para que proprietários de imóveis com “sangrias” resolvam o problema, captando a água para uso interno (jardins, descargas) ou direcionando-a para infiltração no solo, com multas para os que mantiverem o descarte na rede pluvial.
3. Projetos de Infiltração: Transformar pontos de nascente em pequenos parques lineares ou jardins de chuva, que retenham e infiltrem a água no local, alimentando o lençol freático em vez de sobrecarregar a galeria.

Combater as enchentes exige mais do que limpar bueiros. Exige enxergar a água que já está correndo contra nós, todos os dias, em plena luz do sol. A Rondon Pacheco alaga também porque Uberlândia insiste em desperdiçar, de forma cega, a própria água que brota do seu solo.

 

Por Paulo Franco
Técnico de Telecomunicação com formação superior, poeta, comunicador e pesquisador da sensibilidade humana através da arte e da palavra.

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.