Religião, Eleição e Estado
A questão religiosa tomou força no Brasil com disputas presidenciais reiteradas ao longo dos últimos ciclos eleitorais
Jesus, o Deus encarnado, falou às suas criaturas, em algum momento do passado terrestre: “Meu reino não é deste mundo”. Verdade revelada por um Deus! E os humanos seus seguidores (cristãos) fizeram o quê com essa verdade? Veja que pirueta teológica: se nos foi revelada a verdade do outro mundo e sabemos como Deus deseja que vivamos de acordo com o reino celeste, por que não fazer na terra o reino dos céus? Emergiram, assim, as intromissões religiosas na vida terrena, em obediência a Deus, contra o Estado republicano: a coisa pública criada pelo Homem (espécie humana), delimitada por Constituição. Trata-se de lei criada por seres humanos para a vida na terra, como seres mortais. Assim começou a guerra entre a criação humana (Estado) e o Deus cristão no Ocidente.
O problema: “como Deus manda viver na terra versus a própria criação humana dessa mesma vida (sociedade)”. Ainda não há paz no horizonte: quem manda na vida terrena: Deus ou as leis humanas?

Leia mais: Da policrise global ao avanço das autocracias
O poeta canta: “andar com fé eu vou, a fé não costuma falhar”. Em processos eleitorais marcados pela instrumentalização do discurso religioso, muito falhou o debate público na capacidade de distinguir fé pessoal e decisão política coletiva. O universo religioso brasileiro, em base católica, já vinha, à época, perdendo parte de suas “ovelhas” para outras religiões e passou a gerar problemas políticos e religiosos ao levar sua briga particular, por perda de espaço, para o universo da política brasileira. Quem oferece a paz de espírito mais rápida, com o menor custo para os crentes, possibilita que lideranças religiosas vivam de maneira nababesca com o dinheiro do “irmão” e do “cristão”, que recebe em troca a “graça” divina.
No contexto eleitoral brasileiro da década de 2010, o Papa Bento XVI orientou bispos brasileiros a intervirem no debate eleitoral, estimulando o repúdio ao(à) candidato(a) que defendesse a legalização do aborto no Brasil. Isto ajudou um a ganhar e outro a perder a eleição? Ainda não há consenso explicativo, embora seja inegável que tal posicionamento atuou como elemento de pressão religiosa em campanhas políticas, não apenas no Brasil.
📲 Siga o canal de notícias do Paranaíba Mais no WhatsApp
A questão religiosa tomou força no Brasil com disputas presidenciais reiteradas ao longo dos últimos ciclos eleitorais. Candidatos passaram a incorporar, na arena eleitoral, sejam quais fossem os motivos, o voto religioso e conservador, especialmente em torno da polêmica do aborto. O Estado deve ser responsabilizado pelo problema da saúde pública — aborto — ou são os religiosos, com suas igrejas e as mais variadas instituições, que cuidarão das mortes diárias decorrentes do aborto fora do Sistema Único de Saúde (SUS)? É perigoso e mata muita gente trazer para a discussão a quem cabe a responsabilidade pelas políticas públicas: a religião e suas igrejas ou o Estado de direito democrático?
Como não há acordo possível entre religião e política terrena, as mulheres continuam expostas à morte, enquanto persiste a pendenga sobre quem manda na sociedade: religião ou Estado de direito democrático? Aos olhos de um Deus criador do livre-arbítrio, cuja responsabilização pelos males humanos recai sobre o próprio Homem (espécie humana), segundo uma teologia realista, as desgraças na terra decorrem das escolhas humanas, não de mandamentos divinos diretos. Por isso, o voto antiaborto, tanto do catolicismo conservador quanto de segmentos evangélicos, segue sendo disputado de forma intensa, às turras, por campanhas eleitorais.
Eis o ordenamento ideal da vida humana na terra: laicização da coisa pública, com a separação em campos de atuação específicos da religião (ordem moral) e da política (ordem jurídica). O Estado cuida do crime; a religião, do pecado. Para o “bem de todos e felicidade geral da nação”, a religião não deve se meter na política do Estado. E vice-versa!! Nome desse Estado moderno: democracia.
Por João Batista Domingues Filho
Cientista político — Professor do INCIS/UFU
*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.