Já viu como tá o céu hoje?
Fiel da balança nas eleições das últimas décadas, Minas vê seus atores políticos se articulando de um lado e de outro no caminho para o pleito de 2026
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José de Magalhães Pinto foi governador de Minas Gerais no período de 1961 a 1965. Teve papel de destaque na política mineira e nacional durante o período que antecedeu o golpe de 1964, sendo um dos líderes civis do movimento. Mas, até hoje, o político é mais lembrado pela célebre frase usada para contextualizar o cenário de indefinições e mudanças que marcam o processo eleitoral mineiro: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito, você olha de novo e ela mudou”.
Seis décadas depois, políticos de diversas vertentes se utilizam da famosa frase para (tentar) explicar ao eleitorado decisões pessoais ou partidárias, mudanças de rumo, alianças improváveis e todo o tipo de arranjo que norteia os bastidores às vésperas de um novo processo eleitoral. Quem se lembra das eleições de 2010 em que surgiu o movimento informal Dilmasia? O entendimento dado na época era de que o eleitor que votasse em Dilma Rousseff (PT) para presidente também poderia votar em Antonio Anastasia (PSDB) para governador. O raciocínio partiu do pressuposto de que o eleitor não tem fidelidade partidária, vota de acordo com sua consciência e a tendência do momento. E assim foi. Dilma foi a mais votada em Minas, enquanto Anastasia superou os demais candidatos. Os dois foram eleitos, mesmo não tendo formado uma aliança no Estado – na ocasião, o candidato a presidente pelo PSDB era José Serra.

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Em 2022, houve uma aliança improvável em Minas, só que desta vez registrada em cartório eleitoral. O PSD de Gilberto Kassab se uniu com o PT em Minas para dar um palanque a Lula na eleição para presidente no estado. O PSD lançou Alexandre Kalil como candidato a governador para contrapor a Romeu Zema (Novo) que disputava a reeleição. Deu Zema.
Agora em 2026, o cenário mudou. O PSD de Kassab está com o governador Mateus Simões que tentará a reeleição. O PT, por sua vez, procura um candidato para dar engajamento à campanha de Lula em Minas. O partido não tem um nome de peso na disputa deste ano, por isso o preferido do presidente é o senador Rodrigo Pacheco, que nesta quarta-feira, 1º de abril, deixa o PSD e se filia ao PSB, se colocando à disposição para a provável missão.
A praticamente seis meses do pleito, não dá pra dizer que Minas terá novamente, como em 2022, duas chapas fortes disputando a preferência do eleitor. Enquanto a esquerda tenta concentrar forças numa eventual candidatura de Pacheco – que não é de esquerda, mas se aproximou bastante do presidente neste atual mandato -, a direita bate cabeça pra tentar se unir e manter o poder no estado. Para o eleitor que não acompanha os bastidores da política mineira, é difícil entender que o líder nas pesquisas de intenção de votos em Minas não é sequer pré-candidato ao governo. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) dispara em todos os cenários apresentados até o momento, mas diz que só vai decidir sobre candidatura lá na frente, no período de convenções partidárias, em julho. Enquanto isso, surfa na onda popular embalada por apoiadores e simpatizantes.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL), campeão de votos em 2022, tem andado pra vários cantos de Minas ao lado do governador Mateus Simões, sinalizando que a legenda poderia apoiar sua reeleição. Acontece que o PL tem Flávio Bolsonaro pré-candidato a presidente e que já deixou escapar que Simões seria um candidato fraco, “me puxa pra baixo” conforme flagrante feito por uma equipe de reportagem nos rascunhos do presidenciável. Flávio está de olho no xará mineiro Flávio Roscoe, ex-presidente da Fiemg, que se filiou ao PL na terça (30) e que nesta quarta 1º de abril concedeu entrevista coletiva se portando como um pré-candidato ao governo de Minas. Deixou claro que não pretende bater boca com o também pré-candidato da direita Mateus Simões.
Se vai haver união da direita lá na frente, como defende veemente o governador, ainda é cedo pra cravar. Fato mesmo é que os principais presidenciáveis – Lula e Flávio Bolsonaro – precisam de palanques fortes em Minas para seguirem competitivos. Seja porque o estado é o segundo maior colégio eleitoral do país, ou seja para manter a tradição que vem desde 1950 de que “quem ganha em Minas para presidente, também vence as eleições no Brasil”.
E isso não é nenhuma mentira. É só olhar para o céu.
Por Walace Torres
Jornalista
*Esse é um artigo independente e não representa, necessariamente, a opinião do Portal