Dia Mundial dos Animais: que tipo de planeta estamos construindo?
Se o Dia Mundial dos Animais surgiu em defesa daqueles que sofrem com a ação humana, o que temos feito para transformar essa preocupação em respeito efetivo pela vida não humana?
O dia 4 de outubro poderia ser apenas uma oportunidade para lembrar a presença dos animais em nossas vidas e admitir a importância de protegê-los. Mas, diante da dimensão do sofrimento imposto a eles, o Dia Mundial dos Animais convida a uma reflexão mais profunda: que lugar reservamos aos outros seres com os quais compartilhamos a Terra?
A origem da data remonta às primeiras décadas do século XX e relaciona-se ao movimento de proteção animal. A proposta foi apresentada por Heinrich Zimmermann, defensor da causa animal e organizador de uma primeira celebração em 24 de março de 1925, em Berlim. Ele trabalhou pela formalização de uma data internacional dedicada aos animais e, em 1931, durante o Congresso Internacional de Proteção Animal, em Florença, na Itália, sua proposição foi incorporada às discussões do encontro e aprovada.
A escolha de 4 de outubro associa-se à celebração litúrgica de Francisco de Assis, reconhecido como padroeiro dos animais e da ecologia. Sua relação de respeito com a natureza e pelos demais seres vivos, tornou-se uma referência simbólica para a defesa de uma convivência menos predatória entre humanos e natureza.

Quase um século depois desta iniciativa, uma pergunta permanece atual: se o Dia Mundial dos Animais surgiu em defesa daqueles que sofrem com a ação humana, o que temos feito para transformar essa preocupação em respeito efetivo pela vida não humana?
A data convida a repensar sobre a maneira como ocupamos a Terra, utilizamos seus recursos, transformamos seus ecossistemas e determinamos, muitas vezes, quais espécies terão condições de sobreviver. Celebrar os animais é reconhecer que a Terra não é exclusivamente nossa.
Mas o que estamos fazendo com os animais e com o planeta que compartilhamos? A pergunta é incômoda porque, enquanto celebramos a vida animal, testemunhamos a destruição de habitats, a perda de biodiversidade, o desaparecimento de espécies e diferentes formas de exploração e crueldade.
O Antropoceno tornou-se uma expressão recorrente para designar o período em que a ação humana passou a exercer influência decisiva sobre a vida terrestre. O termo utilizado pelas Ciências Ambientais e Sociais, não é uma época geológica formalizada, mas não diminui a dimensão do fenômeno que o conceito procura expressar: a magnitude da transformação produzida pela atividade humana sobre a Terra.
A industrialização ampliou sobremaneira a capacidade de transformar a natureza. Florestas foram derrubadas, rios desviados, territórios fragmentados, oceanos explorados e recursos naturais extraídos em escala crescente. O desenvolvimento econômico trouxe conquistas inegáveis para a humanidade, mas também produziu custos ambientais que impactam o sistema da vida.
Os animais estão entre os grandes atingidos. A perda e a fragmentação dos habitats, a poluição, a exploração de espécies, a introdução de espécies invasoras e outras formas de intervenção humana pressionam a biodiversidade. A essas ameaças somam-se as alterações climáticas que modificam biótopos, deslocam áreas de distribuição das espécies, impactam ciclos biológicos e aumentam os riscos para os animais. Ecossistemas terrestres, marinhos e de água doce atingidos, provocam perdas de espécies, mortalidade em massa e outros desastres ecológicos.
Mudança climática, degradação dos ecossistemas e perda de biodiversidade estão profundamente interligadas. Há ainda outra dimensão dessa relação: a exploração direta dos animais: bilhões são utilizados para alimentação e produção de vestuário, milhares para experimentos, entretenimento em diferentes atividades humanas. Durante séculos, consolidou-se a visão de que os animais podiam ser utilizados conforme interesses e recursos disponíveis para satisfazer necessidades humanas.
A discussão contemporânea sobre a senciência animal coloca essa concepção diante de uma questão fundamental: se os animais são seres capazes de sentirem dor, medo, sofrimento e outras experiências, até que ponto podemos continuar tratando suas vidas como meros instrumentos?
Sabemos que os habitats estão sendo destruídos; o clima está mudando; várias espécies desapareceram e outras se aproximam da extinção; os animais são submetidos a sofrimento nas mais diversas formas e, sabemos que a conservação e restauração dos ecossistemas podem reduzir a vulnerabilidade da biodiversidade. Proteger os animais significa repensar nossa relação com os não humanos e com os ecossistemas dos quais dependemos e que biodiversidade não é um estoque de recursos à disposição da humanidade.
Governos têm responsabilidade crucial nesse processo. São necessárias políticas públicas permanentes de conservação, fiscalização, recuperação de áreas degradadas, proteção dos habitats, combate ao tráfico e à exploração ilegal da fauna, enfrentamento das mudanças climáticas e cumprimento efetivo das normas de proteção ambiental e animal.
A sociedade precisa rever hábitos, valores e formas de consumo. A conscientização ambiental e animal não pode permanecer restrita às universidades, às organizações ambientalistas e animalistas ou a períodos em que uma catástrofe ocupa as manchetes.
O Dia Mundial dos Animais é um convite à reflexão sobre o tipo de planeta que estamos construindo — para nós e para aqueles que não participam das decisões que determinam seu futuro. Quando uma espécie desaparece, não se perde apenas um animal, perde-se uma história evolutiva, uma relação ecológica, uma parte da complexidade da vida.
O futuro sombrio que se anuncia não é apenas para os animais. A humanidade também depende da integridade dos ecossistemas. A pergunta que este 4 de outubro deveria nos deixar não é apenas, como proteger os animais. É uma pergunta bem maior: será o ser humano o asteroide da nova era? Diferentemente do asteroide que atingiu a Terra milhões de anos atrás, sabemos o que estamos fazendo e temos a capacidade de escolher outros caminhos. Esta é justamente a nossa maior responsabilidade.
Por Profa. Dra. Jane de Fátima S. Rodrigues e Profa. Dra. Simone S. Prudêncio
Integrantes do NEA (Núcleo de Estudos Animalistas/Faculdade de Direito/UFU) e do CDDAU (Comitê de Defesa dos Direitos dos Animais de Uberlândia)
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