Bebê Violência: o que nos assusta hoje, já foi um choro ignorado no passado
Talvez o maior erro da sociedade seja esse: tratar a violência como se fosse um bebê inofensivo, quando ainda era possível educá-la, corrigi-la e impor limites

A violência nasce pequena.
Chega ao mundo como um bebê indefeso, envolto em panos, com o rosto inocente de quem nada sabe sobre a vida. No primeiro instante, chora. Chora alto. Reclama. Esperneia. Parece apenas querer atenção.
E nós, distraídos, achamos que é apenas uma fase.
Damos colo, alimentamos, acalmamos. Mas a violência, como esse bebê inquieto, nunca se satisfaz. Mama e continua chorando. Recebe carinho e continua exigindo mais. Ganha espaço e logo pede o quarto inteiro.
No começo, parece frágil demais para causar medo. Quem haveria de temer um bebê?
Mas o tempo passa.
A criança cresce e já não cabe no berço. Aprende a andar, depois a correr, e começa a derrubar tudo por onde passa. Quebra brinquedos, desarruma a casa, bate nos irmãos e testa limites. E nós, mais uma vez, fingimos não perceber.
Quando chega à adolescência, transforma-se em um verdadeiro “aborrecente”. Contesta tudo, desafia todos, grita mais alto, não aceita regras e vive insatisfeita. Nada lhe basta. Quanto mais recebe, mais exige.
A violência adolescente não pede licença. Invade escolas, ruas, lares e consciências. Faz birra em forma de ameaças. Exige atenção em forma de medo.
Depois vem a juventude.
Já forte, robusta e cheia de presença, a violência ganha status. Passa a ser notícia diária, manchete de jornais, assunto obrigatório nas conversas de esquina. Deixa de ser um problema isolado e assume o protagonismo da sociedade.
A essa altura, ela já não depende dos outros para sobreviver. Alimenta-se sozinha da impunidade, da desigualdade, do abandono, do egoísmo e da indiferença.
E continua crescendo.
Até tornar-se adulta.
Na fase adulta, a violência perde qualquer traço de inocência. Está plenamente formada, consciente do poder que possui. Impõe-se pelo medo, domina pelo silêncio e faz reféns aqueles que, um dia, poderiam tê-la combatido ainda no berço.
A violência adulta não chora. Ela faz os outros chorarem.
Talvez o maior erro da sociedade seja esse: tratar a violência como se fosse um bebê inofensivo, quando ainda era possível educá-la, corrigi-la e impor limites.
Porque toda tragédia que hoje nos assusta já foi um pequeno choro ignorado no passado.
E como toda criança mal criada, a violência cresceu acreditando que o mundo existe apenas para satisfazer seus caprichos.
Agora, adulta e poderosa, ela reina sobre ruas, cidades e corações.
E nós, assustados, nos perguntamos em que momento aquele bebê indefeso se tornou esse monstro.
A resposta é simples e dolorosa:
Foi no dia em que ouvimos o primeiro choro e, em vez de educar, apenas fingimos que era normal.
Por Paulo Franco
O Shakespeare de Uberlândia
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