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Ao rufar dos tambores

De todos os cantos da cidade chegaram à Praça Rui Barbosa os ternos do Congado, uma festa de origem africana, um ritual do povo negro em homenagem à Nossa Senhora do Rosário e aos santos negros

Ana Maria Coelho Carvalho , em Uberlândia

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Em outubro do ano passado, como acontece todo ano, Uberlândia encheu-se de cores, música, dança e do rufar de tambores. De todos os cantos da cidade chegaram à Praça Rui Barbosa os ternos do Congado, uma festa de origem africana, um ritual do povo negro em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e aos santos negros, São Benedito e Santa Efigênia.

Da janela do meu apartamento, assisti a tudo. A Banda Municipal iniciou as comemorações e os ternos desceram pela Avenida Floriano Peixoto. Quando chegavam à praça, em frente à igreja do Rosário, acontecia o apogeu das danças, dos cantos e do rufar dos tambores, na apresentação diante da imagem de Nossa Senhora do Rosário, cercada de flores.

Foi tudo muito bem organizado e de acordo com as tradições e raízes do Congado. Cada terno tem seus componentes, sua vestimenta, seu canto, o rei, a rainha, as princesas, o capitão. E anjinhos também.

Ao rufar dos tambores
Festa de Congado em Uberlândia – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

O terno vai devagar, cadenciado, tocando e dançando em louvor à santa. O movimento é sempre parecido: saltitante, marcado pela ginga e pelo cruzamento de pernas e pés. A direção é horizontal, com deslocamentos laterais: dois passos para lá, dois para cá, certinhos. O capitão, que é o líder, vai à frente, cantando os versos e os demais respondem em coro.

Os cantos são destinados a afastar as forças ruins e a invocar a proteção de Nossa Senhora. Falam dos sofrimentos da escravidão, dos lamentos de um povo arrancado de sua terra. Ao mesmo tempo em que invocam os santos e as forças do alto, são cantos de redenção e de esperança de uma vida melhor.

São espontâneos, curtos e singelos. Alguns exemplos que encontrei na internet:
“Trabalha nêgo, trabalha direito, a Senhora do Rosário merece o nosso respeito.”
“Ora viva, cai sereno, na aba do meu chapéu, a bandeira hoje ela sobe, pra ficar perto do céu.”
“Ô viva nosso rosário, ô viva São Benedito, eu danço este reinado, danço porque acredito”.

Há também cantos de gratidão à Princesa Isabel, pela libertação dos escravos:
” No tempo do cativeiro, preto não tinha valor, salve a Princesa Isabel, que o preto libertou”.
“No dia 13 de maio, eu amarrado na corrente, veio Princesa Isabel, nêgo véio libertou, foi Nossa Senhora, que esse nego véio salvou.”

Assim, cantando, dançando, tocando tambores, tamborins, cuícas, pandeiros e as latinhas amarradas às pernas dos homens, os ternos iam passando devagar. Os tambores soavam alto pela rua, invocando, de um modo africano e vigoroso, os santos católicos e a coroação dos reis congos.

Os ternos do Congado são divididos em grupos distintos, como os guardas de Congo, que se vestem de verde e rosa, significando o caminho para a Senhora passar, com galhos verdes e flores. E os do grupo de Moçambique, que se vestem com as cores de Nossa Senhora: azul e branco.

Cada terno passa com sua bandeira colorida, enfeitada de fitas e bordados. De um lado, o nome do terno; do outro, o nome de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito ou Santa Efigênia, lembrando a proteção atribuída a esses santos aos escravos negros escravizados.

As bandeiras eram carregadas por moças bonitas, que as rodavam sem parar e sem cansar. As grandes fitas eram seguradas nas pontas por mulheres de vestidos rodados e confortáveis, sandálias brancas novas, e muita disposição para dançar. Havia tranças verdadeiras e tranças falsas.

Muitas crianças pequenas, vestidas com esmero e nas cores do terno, participavam da festa. Algumas carregavam e tocavam tambores; outras dançavam com habilidade e faziam acrobacias.

Os homens, com chapéus e capas enfeitados de contas, miçangas, franjas e bordados, eram um luxo só. Alguns, de branco impecável; outros, com cores vivas e brilhantes. Cores e mais cores – e também suor e mais suor, pois fazia um calor escaldante, de mais de 30 graus.

Levavam cajados, bastões ou espadas, elementos materiais aos quais se atribui força simbólica e sobrenatural. Colocavam o cajado com a ponta no chão e dançavam em volta dele, em círculo, curvados.

As mulheres usavam vestidos enfeitados com rendas, crochês e bordados. Faziam passinhos para lá e para cá, na cadência da música, tudo muito bem ensaiado. Cabelos enfeitados ou cobertos por panos enrolados. Algumas carregavam crianças de colo; outras amamentavam o bebê, vestido com a roupa igual à da mãe.

Havia cadeirante e muitos idosos ágeis, que cantavam com entusiasmo e faziam acrobacias com o tambor.

Ah, os tambores!

Grandes, médios, pequenos, tocados com vigor e quase sempre no mesmo ritmo, o dia inteiro: tá-tá-tum, tá-tá-tum.

À noite, mesmo depois que todos foram embora, os tambores continuaram retumbando na minha cabeça.

Algumas pessoas se ajoelhavam com o tambor e choravam diante da Santa, que decerto consolava cada uma delas. Nossa Senhora do Rosário deve ter ficado feliz com tanta demonstração de fé, alegria e empolgação.

Ouvi claramente um terno cantando, com grande estardalhaço:
“Adeus Nossa Senhora, estou indo embora”.
Muitas e muitas vezes. Depois, foram embora, dobrando a esquina.

Os reis e rainhas dos ternos eram realmente majestosos, com capas pesadas de veludo, enfeitadas de dourado, e coroas enormes e imponentes, lembrando a opulência dos reis africanos.

Novos reis e rainhas são coroados a cada ano, no final da festa. Existe também o rei e a rainha vitalícios.

Segundo o porteiro do meu prédio, capitão do terno Amarelo Ouro, situado no Bairro Santa Mônica, os reis vitalícios são o casal Dona Darci e o Senhor Zé do Cinema. Vi os dois sentados durante a festa, ao lado da imagem da Santa, majestosos em suas vestimentas.

Curiosa, perguntei ao capitão do terno Amarelo Ouro quais eram os cantos deles. Ele me contou:
“Dormi a noite no sereno da madrugada, sou Amarelo Ouro com amor, felicidade é de ouro, é de prata, a Mamãe do Rosário também é de ouro.”
“Rei, cadê a rainha, rainha, cadê o rei, nós viemos visitar, a rainha do nosso rei.”
“Na gaiola tem um canarinho, na gaiola tem um sabiá, só eu, só eu, só eu que não sei cantar.”

Achei lindo.

Além do desfile dos ternos, houve hasteamento de bandeiras, procissão com as imagens de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, missa com o Padre Fábio e coroação dos reis e rainhas para o próximo ano.

E, no entorno da praça via-se de tudo: barraquinhas de cachorro-quente, churrasquinhos e bebidas – muita bebida; pessoas embriagadas fazendo algazarras ou caídas no chão; anjinhos sentados, cansados, segurando as asinhas; princesas com coroas e vestidos brancos, descalças e carregando as sandálias; homens com carrinhos catando latinhas; público cantando e dançando junto com os ternos; crianças brincando com os tambores; grupos fazendo pose para fotos. E lixo. Muito lixo. De dar tristeza.

Enfim, tudo entrelaçado: a festa, a fé, a alegria das cores, a bebida, a tradição do ritual africano, o rufar dos tambores e a despedida para o próximo ano.

Quando a praça finalmente se esvaziou, a festa acabou.

Que Nossa Senhora do Rosário e São Benedito abençoem a todos. Até o próximo ano, se Deus quiser.

 

Por Ana Maria Coelho Carvalho
Bióloga e professora aposentada

 

*Esse é um artigo independente e não reflete, necessariamente, a opinião do Portal.

 

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