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Quando a humanidade dos X-Men valeu menos que impostos

Os X-Men passaram anos sendo metáfora sobre humanidade e aceitação, para, nos anos 90, ter essa discussão jogada fora para aumento nos lucros de bonecos

, em Uberlândia

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Os X-Men no MCU já estão em andamento, indo muito além de participações especiais, como a do Fera em As Marvels. O trailer de Vingadores – Doutor Destino não me deixa mentir — e não só isso.

E um fato irônico me chamou a atenção em uma história envolvendo a produção de brinquedos baseados nos X-Men.

Criados para falar sobre preconceito, intolerância e a dificuldade de conviver com quem é diferente, os mutantes sempre foram uma das metáforas mais evidentes dos quadrinhos para a própria condição humana.

Só que, em determinado momento, a Marvel precisou defender justamente o contrário. O motivo era bem menos nobre: imposto.

Nos anos 1990, a Toy Biz, empresa responsável pela linha de brinquedos da Marvel, entrou em uma disputa com a alfândega dos Estados Unidos sobre como deveriam ser classificados os bonecos de personagens de histórias em quadrinhos importados da China.

Um dos bonecos produzidos pela Toy Biz – Crédito: Divulgação/Toy Biz

Na época, a legislação americana estabelecia categorias diferentes para bonecas que representassem seres humanos e brinquedos que representassem animais ou outras criaturas não humanas. Os primeiros eram tributados em 12%, enquanto os outros pagavam 6,8%. A Toy Biz queria que seus action figures fossem enquadrados na categoria mais barata.

A empresa, então, argumentou que determinados personagens da Marvel não representavam seres humanos. Entre os personagens envolvidos estavam mutantes dos X-Men. E aqui mora a ironia.

Mas não é bem essa a imagem vendida pelas próprias histórias do grupo.

Os mutantes são pessoas que nasceram com alterações genéticas que lhes conferem poderes e características extraordinárias. A metáfora está no fato de eles serem diferentes, mas continuarem sendo pessoas. A perseguição aos mutantes funciona porque, dentro daquele universo, a humanidade insiste em transformar uma diferença em motivo para excluir o outro.

Na documentação analisada pelo tribunal, porém, a própria descrição utilizada pela Toy Biz ajudava a criar um problema curioso. O catálogo da empresa descrevia os mutantes como pessoas que nasciam com poderes e habilidades além daqueles dos humanos comuns. O governo americano usou justamente esse material para contestar a tentativa de classificá-los como não humanos.

Era quase como se o governo dissesse: “Vocês passaram décadas explicando que eles são humanos. Agora estão dizendo que não são?”

Mas a discussão jurídica não estava preocupada com metáforas. O tribunal precisava decidir se aquelas figuras deveriam ser consideradas “bonecas que representam seres humanos” ou “brinquedos que representam animais ou outras criaturas não humanas”. E, para isso, examinou características físicas dos personagens — não apenas suas histórias.

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A decisão acabou reconhecendo que determinados action figures não representavam claramente seres humanos por causa de suas características não humanas. O processo envolveu cerca de 90 figuras de personagens da Marvel, incluindo X-Men, Homem-Aranha e Quarteto Fantástico.

O resultado foi favorável à classificação que interessava à Toy Biz e, para efeitos tributários, alguns personagens da Marvel não eram humanos.

É claro que não foi a Marvel criando uma disputa judicial contra a humanidade dos X-Men, mas sim a Toy Biz.

E também existe ainda uma ironia extra.

Anos depois, a própria distinção que tornava toda aquela discussão tão importante perdeu boa parte do sentido: as diferentes categorias de brinquedos passaram a ter a mesma alíquota, e os produtos passaram a entrar nos Estados Unidos sem imposto.

Ou seja, depois de toda a batalha para determinar se Wolverine, Cyclops, Magneto e companhia eram humanos ou não, a questão tributária acabou mudando.

Mas a história permaneceu.

Os X-Men passaram décadas perguntando se um mundo que tem medo do diferente ainda poderia chamar a si mesmo de humano. A Toy Biz encontrou uma resposta bem mais prática:

Dependendo da tarifa, talvez fosse melhor que eles não fossem.

Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais