Leite em Pó: Carlos Segundo fala à coluna sobre prêmios em Gramado
O novo filme de Carlos Segundo, Leite em Pó, ganhou três prêmios no Festival de Gramado e o realizador prometeu trazer a produção para Uberlândia, onde morou até 2017
“Sentimos que fomos crescendo entre a crítica no festival (de Gramado). Você vai ouvindo o barulho. Confesso que o único prêmio que eu tinha esperança (de ganhar) era o da crítica”, me contou o cineasta Carlos Segundo. Pois ele e seu filme Leite em Pó sairiam de Gramado com três prêmios no total: Melhor Filme pelo Júri da Crítica, Melhor Roteiro (Carlos Segundo e Rafael Copel) e Melhor Desenho de Som.
Inclusive, dois desses Kikitos estavam na estante, ao fundo, enquanto eu conversava com Segundo sobre seu novo trabalho, em entrevista para a coluna Outra Tela.

O paulistano que passou boa parte de sua vida em Uberlândia, hoje mora em Natal (RN), onde filmou Leite em Pó. O filme conta a história de Vicente (vivido por Vinícius de Oliveira). O músico vive na capital potiguar com a avó, Helena (papel de Zezita Matos). Sem dinheiro e obrigado a abandonar suas pretensões musicais, o protagonista passa a trabalhar percorrendo Natal, em encontros que vão construindo a narrativa e o sentido da produção.
Vale, aqui, desfazer uma pequena confusão quanto a Leite em Pó. Esse não é exatamente o primeiro longa-metragem de Segundo, famoso por curtas premiados dentro e fora do Brasil, como Big Bang e Sideral.
“O Fendas (2019), que fiz anteriormente, é um filme meio de ficção experimental, tem uma brincadeira. Esse (Leite em Pó) é mais estruturado, uma ficção mais pura. É um segundo longa, mas o primeiro de ficção-drama”, explicou.
Não duvido e até queria atestar empiricamente, mas me faltou orçamento para estar em Gramado. Contudo, Leite em Pó vai passar em Uberlândia. Quem garante é seu diretor.
“Duas cidades nas quais o filme tem que ser exibido são Uberlândia e Natal. Até porque uma das produtoras é de Uberlândia, a O Sopro do Tempo”, afirmou.
A previsão é que o filme esteja em pelo menos 30 salas de cinema no primeiro trimestre de 2027. Até lá, esse número pode aumentar, a depender das negociações de distribuição. Existe ainda uma negociação com uma plataforma de streaming, de acordo com Carlos, e três ou quatro festivais que vão receber a obra ainda em 2026. Quais? Ele não revela, pelo menos até que exista a divulgação oficial.
Se tudo der certo, nós aqui no Triângulo Mineiro teremos uma pré-estreia antes mesmo da estreia comercial ampla no ano que vem.

Recepção em Gramado
O prêmio da crítica diz muito da recepção positiva do filme. Aliás, acompanhando a cobertura da imprensa no Festival de Gramado, me chamou a atenção que o longa foi classificado como várias coisas, mas nunca de comum.
“A narrativa não é muito linear, não é uma situação que leva à outra. O filme não te dá muita certeza para onde está indo. A forma como fomos construindo as situações e alguns elementos simbólicos vão se fechar só depois, ou seja, você convida o espectador a estar ativo e conectar coisas”, explicou Carlos.
Grana e distribuição
Foram pelo menos quatro anos entre a escrita do roteiro e a finalização do corte de Leite em Pó exibido em Gramado.
“Chegamos a ganhar um prêmio de desenvolvimento em 2022, de um fundo holandês, que nos ajudou. Depois foi tentar levantar grana, no Brasil e na França. Filmamos em janeiro de 2024 e passamos por um processo de um ano e meio de finalização. Foram cinco semanas de filmagens”, explicou Carlos Segundo.
Depois de ter concorrido à Palma de Ouro em Cannes com seu curta-metragem Sideral, em 2021, figurar na pré-lista dos indicados ao Oscar de 2023 em sua categoria e vencer prêmios como o Pardino d’Oro, em Locarno, com outro curta, Big Bang, o autor imaginava que teria mais facilidade no financiamento de seu longa-metragem. Mas a realidade foi outra.
“Acabou que o projeto foi meio que salvo pela Vitrine Filmes. Existe um edital para o Fundo Setorial (do Audiovisual) que é voltado para as distribuidoras. Ele tem a ver com o fluxo de distribuição que elas fazem. Eles ganham um crédito e esse crédito pode ser usado diretamente em filmes. E ela (a Vitrine) adorou Leite em Pó. Eu já estava bem preparado, mas esperava investimento.”
Ali, a equipe por trás do longa recebeu dois atalhos: o financiamento e a distribuição.
“E eles ficaram muito felizes, principalmente depois de Gramado”, salientou.
Aliás, vale citar que houve parceria com a Les Valseurs, produtora francesa, e que o terceiro Kikito recebido pelo filme não estava na estante de Segundo durante nossa entrevista porque foi levado por Waldir Xavier, desenhista de som, para o país europeu. Ele mora na França.
Só que não vá cometer o erro de chamar Leite em Pó de produção franco-brasileira.
“A gente precisa arrumar um termo novo, porque ‘franco-brasileiro’ traz a França à frente e o filme foi feito por aqui. Talvez ‘braso-francesa’”, sugere Segundo.
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Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais