Fazer Cinema realmente é caro
Por isso programas de incentivo ao cinema exigem que os artistas, renomados ou não, deem satisfação para que saibamos de onde virá seu orçamento
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Cinema é algo caro; isso ninguém discute. Você pode fazer um filme sozinho, usando seu smartphone e seu notebook. Só o fato de ter esses dois equipamentos com qualidade suficiente para rodar e finalizar um filme decente já significa um gasto superior a R$ 10 mil — e olha que não estou precificando a sua mão de obra.
Surpreendi-me com o valor gasto na produção de Serra Pelada (2013): cerca de R$ 10 milhões. Mesmo com o uso de imagens de arquivo, há ali uma produção robusta para recriar a corrida do ouro no Pará da década de 1980. Não dá para dizer que foi um filme caro levando em conta sua proposta. Da mesma maneira, Ainda Estou Aqui, 11 anos depois, utilizou de forma excepcional seu orçamento de R$ 45 milhões.
Lembro-me de que, ainda na década de 1990, ouvi falar muito sobre Guerra de Canudos (1997). O filme custou R$ 6 milhões — algo em torno de R$ 28 milhões em valores corrigidos pela inflação. Ainda assim, foi uma superprodução nacional para a época, com muitos figurantes, cenas de conflito e cenários muito maiores do que a média. Principalmente se considerarmos que se tratava do período da retomada do cinema brasileiro.

O que ainda não chega perto dos valores praticados em Hollywood. Basta comparar com A Baleia (2022), que chegou ao Oscar e rendeu a Brendan Fraser o prêmio de Melhor Ator. Levando em conta a cotação média do dólar no Brasil naquele ano, o orçamento de US$ 10 milhões equivaleria a cerca de R$ 51 milhões — mesmo se tratando de uma produção pequena, ambientada quase inteiramente na casa do protagonista.
Citando apenas esses quatro filmes, entre eles um de Hollywood, estamos falando de aproximadamente R$ 134 milhões investidos nas produções. No caso dos brasileiros, houve um esforço financeiro considerável para viabilizar projetos ambiciosos. Detalhe: todos alcançaram notoriedade, seja por prêmios, seja pela repercussão na mídia e entre o público.
Claro, há formas e formas de gastar dinheiro em um filme. Um dos exemplos mais conhecidos é Chatô, o Rei do Brasil, cinebiografia de Assis Chateaubriand. O longa se tornou famoso não apenas pelo tema, mas pela conturbada trajetória de produção: filmado nos anos 1990, só chegou aos cinemas em 2015, após anos de disputas judiciais e questionamentos sobre a prestação de contas.
Embora o orçamento inicial tenha sido de cerca de R$ 8 milhões, houve questionamentos sobre a utilização dos recursos. O diretor Guilherme Fontes foi condenado em processos que determinaram a devolução de valores muito superiores ao orçamento original, incluindo decisões que ultrapassaram R$ 70 milhões. Como cerca de 70% dos recursos vieram de incentivos fiscais, a fiscalização acabou revelando irregularidades, e o filme teve sua conclusão atrasada. O homem foi pego no pulo ao não conseguir explicar a aplicação de renúncias fiscais de empresas de apoiadores.
Ainda assim, esse caso envolve pouco mais da metade do valor somado pelos quatro filmes citados anteriormente. Por mais problemático que tenha sido o processo, o custo inicial de Chatô ainda ficou muito abaixo dos R$ 134 milhões daquela comparação.
Poderíamos citar também O Agente Secreto, com orçamento de R$ 28 milhões; Tropa de Elite 2, que custou R$ 16 milhões; e Xingu, realizado com R$ 27 milhões. Juntos, esses três filmes somam R$ 71 milhões e passamos um pouco dos R$ 134 milhões já citados.
Cinema é algo caro; isso ninguém discute.
Aliás, qualquer forma de arte pode ser cara. Cara o suficiente para afastar um artista de sua profissão quando ela não oferece remuneração suficiente para sustentar a própria vida.
Li certa vez que arte não enche barriga e que é possível viver sem ela. Não vou recorrer a exemplos que remontam à vida braçal no campo, que inspirou obras de alegria e lamento na música e na poesia de seu tempo. Basta lembrar que, há seis anos, durante a pandemia de COVID-19, muita gente recorria a músicas, filmes e séries para aliviar a tensão ou simplesmente suportar o isolamento.
Discorda? Até mesmo aquele meme com uma sacada inteligente que circula no WhatsApp não deixa de ser uma peça de criação artística — muitas vezes com forte conteúdo político. Uma piada também exige construção artística.
A arte faz parte daquilo que nos diferencia dos animais.
E, assim como outras atividades, movimenta a economia e garante sustento a milhares de pessoas.
Por isso, nunca serei contra programas de incentivo à cultura, já que exigem dos artistas, renomados ou não, a devida prestação de contas para que a sociedade saiba de onde vem e como é utilizado o dinheiro investido.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais