Oscar 2026: Irrita saber que O Agente Secreto é um filme com mais brilho
Um estrangeiro perder no Oscar é provável, mas não receber a premiação de Filme Internacional sabendo que tem O Agente Secreto e sua criatividade ímpar, é complicado
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Um estrangeiro perder o Oscar faz parte da disputa — e é provável. Tanto é que o único filme não falado em inglês a vencer o prêmio principal foi Parasita, em 2020, na 92ª cerimônia da Academia. Mas o que realmente me irrita é que, no prêmio em que realmente tínhamos chance, Filme Internacional, acabamos perdendo para um longa que, por mais correto que seja, não tem o mesmo brilho de O Agente Secreto. E mais: é uma pena para o próprio diretor Kleber Mendonça Filho, cuja trajetória até hoje nunca foi facilitada.
Nada vai mudar minha opinião: O Agente Secreto é o mais interessante entre os indicados não só a Filme Internacional, mas também a Melhor Filme. Já escrevi sobre isso nesta coluna.
Ele foi ladeado por produções medianas como Frankenstein ou fracas como Bugonia. Havia trabalhos mais contundentes como A Voz de Hind Rajab e superfavoritos como Pecadores e Uma Batalha Após a Outra, ambos muito bons. O que, por si só, já era uma dificuldade extra se compararmos com Ainda Estou Aqui.
O brasileiro vencedor de Filme Internacional de 2025 teve que suplantar Emilia Pérez, que, por mais favorito que fosse, era uma produção muito abaixo da curva — e que cavou o próprio buraco com polêmicas.

E aí chegamos a 2026. O Agente Secreto entrou em uma disputa ainda mais apertada e, quando a gente analisa friamente, sem bairrismo, percebe que o filme nacional é incômodo, instigante e até triste. Tudo na medida certa. E, se repetir a façanha de Parasita era improvável, pelo menos como melhor estrangeiro nós deveríamos ter sido considerados.
Valor Sentimental tem sua beleza, e é difícil reconhecer isso porque exige que deixemos nossa paixão de lado. Eu fiz isso, e você pode entender lendo minha crítica clicando aqui. Foi preciso, inclusive, um tempo para que eu pudesse arrefecer a implicância que nutri quando o longa terminou. Eu sabia que ele era o preferido da indústria e que isso nos custaria o Oscar. Mas eu não estava gostando de Valor Sentimental pelos motivos errados.
Discordei também de nossa derrota na categoria de Casting para Uma Batalha Após a Outra. Exceto pela boa escalação de Teyana Taylor e de Chase Infiniti, os demais nomes do longa são atores que dependem mais de seu peso na indústria do que de um faro real para elenco. São gigantes como Leonardo DiCaprio, Sean Penn e Benicio del Toro. Se tivéssemos perdido para Pecadores, poderia até ficar menos frustrado.
Até tivemos visibilidade maior neste ano e O Agente Secreto repetiu (e até melhorou) o feito de Cidade de Deus, com quatro indicações ao Oscar. Mas terminar a cerimônia sem pelo menos uma estatueta traz aquele incômodo de sermos calados mesmo depois de usarmos um argumento perfeito em uma discussão.
E olha que a fotografia de Adolpho Veloso para Sonhos de Trem era uma preciosidade que também ficou sem premiação.
Caminho difícil
Aí lembro o quanto Kleber Mendonça Filho foi boicotado até chegar aqui. Um dos cineastas com assinatura mais reconhecível do cinema brasileiro, já em Aquarius, de 2016, era para ter chegado até a Academia. A produção enfrentou polêmica e foi boicotada por parte do governo brasileiro. O problema foi o protesto do elenco contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff no Festival de Cannes daquele ano.
Aquarius era o favorito para representar o Brasil na disputa de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2017, mas o escolhido foi Pequeno Segredo. A comissão de seleção foi criticada pela ausência de membros e pela composição, com alegações de viés político. A verdade é que, já naquela época, teríamos chances reais no prêmio, com boa possibilidade de Sônia Braga também receber uma indicação de Melhor Atriz.
Em 2019 veio Bacurau. A produção venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e deveria ter sido nosso representante no Oscar de 2020. Não aconteceu, e A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, foi apontado pela Academia Brasileira de Cinema. Ainda que uma obra de peso, ela não ficou entre os finalistas indicados a Filme Internacional.
Até que, em 2023, o documentário Retratos Fantasmas foi eleito como nosso representante e, enfim, Mendonça vestiu a camisa do Brasil. Mas a própria natureza do longa — um documentário muito íntimo do diretor — era de difícil campanha, por mais que o amor ao cinema estivesse em cada frame do longa.
Não diria que O Agente Secreto é o melhor que o cineasta já fez. Posso afirmar, contudo, que se trata de uma obra tão boa quanto Bacurau.
Só que repito: nós tínhamos um filme com tanta mensagem, criatividade e habilidade quanto qualquer um dos indicados da noite. E nenhum deles tinha a riqueza que levamos à tela.
Vinícius Lemos é jornalista e repórter da TV Paranaíba
*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Paranaíba Mais